quarta-feira, 31 de outubro de 2007
terça-feira, 30 de outubro de 2007
O Catita - Parte II
Sendo um pouco mais explícito, o Catita que o Luís Guarita refere no post anterior é o mui ilustre constitucionalista Vital Moreira, personalidade que, semanalmente, se dirige à nação nas páginas do jornal Público. O tom da coisa é professoral, flutuando entre o maçudo e o irritante.
A partir do seu sofá, o constitucionalista vem a terreiro para, invariavelmente, defender de forma obstinada toda e qualquer medida que o eng.º Sócrates decida anunciar. É uma espécie de Peres Metello em versão hardcore. O leitor incauto corre o risco de terminar a leitura trespassado pela espada do diligente guerreiro rosa. Eu próprio acabo frequentemente amargurado, por não conseguir atingir o alcance de algumas das iniciativas pelas quais o académico coimbrão se atravessa.
Agora a sério, importa não levar o nosso constitucionalista demasiado a sério. É que ele é o mesmo que, não há muitos anos, emitia as suas fatwas do alto da tribuna do comité central do PCP. Defendia então, no mesmo tom professoral, o contrário de tudo aquilo que hoje defende. Até ao dia em que descobriu que afinal estava enganado. Ou melhor, até ao dia em que apanhou o comboio do PS.
A partir do seu sofá, o constitucionalista vem a terreiro para, invariavelmente, defender de forma obstinada toda e qualquer medida que o eng.º Sócrates decida anunciar. É uma espécie de Peres Metello em versão hardcore. O leitor incauto corre o risco de terminar a leitura trespassado pela espada do diligente guerreiro rosa. Eu próprio acabo frequentemente amargurado, por não conseguir atingir o alcance de algumas das iniciativas pelas quais o académico coimbrão se atravessa.
Agora a sério, importa não levar o nosso constitucionalista demasiado a sério. É que ele é o mesmo que, não há muitos anos, emitia as suas fatwas do alto da tribuna do comité central do PCP. Defendia então, no mesmo tom professoral, o contrário de tudo aquilo que hoje defende. Até ao dia em que descobriu que afinal estava enganado. Ou melhor, até ao dia em que apanhou o comboio do PS.
J
João Castanheira
O Catita
Este Sr. Professor Moreira é aquilo a que eu chamo um catita. Um tipo estilo bacano com ar porreiro e atitude simpática mas que em boa verdade meu deus… E isto porquê? Segundo ele há uma teoria que facilmente explica esta coisa incrível de haver mais escolas privadas que públicas no topo do mal fadado ranking de escolas. É a origem dos garotos, senhor, essa hedionda origem, que tudo marca e tudo define.
Eu, que sou dado ao respeitinho e nunca questiono essa magnífica autoridade de um notável lente da cidade do Mondego, às vezes e confesso que em desespero, atinjo um ponto em que me pergunto, mas que mal fizemos para merecer estas sumidades? Então mas será que pelos séculos fora nunca nenhuma menina ou menino singraram por via desse anátema social que é a sua origem? E será que se oferecêssemos um cheque a uma família de recursos limitados para que esta pudesse escolher livremente a escola dos seus filhos ela recusaria? Pois é, nem respondo, deixo à consideração geral. É que de facto a qualidade pedagógica, o rigor, os métodos e as práticas e uma coisa tão etérea como a autoridade – sacrilégio - são meros e irrelevantes detalhes, o que verdadeiramente determina, Professor dixit, é a condição senhores, é a condição.
Mas pronto, o Professor lá debita as suas teorias e eu que até as vou lendo, nunca concordo com elas (ah, mentira, ouve uma, há muito, muito tempo com que concordei, uma sobre o regime florestal em Portugal), mas que ele é um catita, lá isso é.
Luís Manuel Guarita
Eu, que sou dado ao respeitinho e nunca questiono essa magnífica autoridade de um notável lente da cidade do Mondego, às vezes e confesso que em desespero, atinjo um ponto em que me pergunto, mas que mal fizemos para merecer estas sumidades? Então mas será que pelos séculos fora nunca nenhuma menina ou menino singraram por via desse anátema social que é a sua origem? E será que se oferecêssemos um cheque a uma família de recursos limitados para que esta pudesse escolher livremente a escola dos seus filhos ela recusaria? Pois é, nem respondo, deixo à consideração geral. É que de facto a qualidade pedagógica, o rigor, os métodos e as práticas e uma coisa tão etérea como a autoridade – sacrilégio - são meros e irrelevantes detalhes, o que verdadeiramente determina, Professor dixit, é a condição senhores, é a condição.
Mas pronto, o Professor lá debita as suas teorias e eu que até as vou lendo, nunca concordo com elas (ah, mentira, ouve uma, há muito, muito tempo com que concordei, uma sobre o regime florestal em Portugal), mas que ele é um catita, lá isso é.
Luís Manuel Guarita
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
Bandalheira
Depois do fim das reprovações por faltas no ensino básico e secundário, imagina-se que em breve será decretada a proibição total do chumbo no nosso sistema de ensino. Esta medida visionária guindará Portugal ao topo das estatísticas mundiais do sucesso escolar, ainda que a nossa massa estudantil caminhe a passos largos para se transformar numa imensa mole de ignorantes e iletrados.Para o Estado, deixou de existir diferença entre um aluno assíduo e aplicado e um desgraçado que passe fugazmente pela escola, com o objectivo de fumar um charro ou insultar um professor. Para o sistema, são dois jovens em pé de igualdade.
Mérito, esforço, dedicação, rigor, exigência, o que é isso? Está definitivamente instalada a bandalheira no nosso sistema de ensino.
Temo que, a prazo, a concepção socialista da educação nos empurre para um novo modelo de escola. Uma escola-tipo constituída por um grande complexo tecnológico, seja lá o que isso for, acompanhado por uma ou duas salas de aula, ginásio e sala de chuto.
Entretanto, professor que se atreva a reprovar um aluno verá provavelmente ser-lhe instaurado um processo disciplinar. É que as boas estatísticas são um assunto de interesse nacional, ainda que conseguidas à custa da destruição do nosso já precário sistema de ensino público.
E que ninguém diga que os decisores políticos, que tão bem governam, tudo fazem para se manter longe do projecto de escola que estão a criar, inscrevendo os seus filhos nos melhores colégios privados do país. Alguém está a insinuar que o facilitismo é bom mas é para os filhos dos outros? Vejam lá se é preciso chamar a autoridade!
J
João Castanheira
À Direita e mais nada!
Comecemos então...
O João já se havia adiantado e já tratou de preencher esta janela que abrimos ao mundo com as suas reflexões e desilusões. Sim desilusões, que este post da Bandalheira mais do que uma situação de facto é um grito de alma que partilho. Mas ainda a tempo, e porque ainda mal iniciamos este caminho, aproveito para lançar as velas desta nossa nau comum e começar a soprar ideias, porque é esse o sentido da navegação que em conjunto empreendemos.
Comecemos pelos princípios.
Esta é uma nau pela direita, com clareza e modernidade nos princípios, feita de um olhar aberto e atento ao mundo que nos rodeia, mas firme e sólida nos valores que defendemos.
E por isso aqui vamos, nesta aventura pelos caminhos que pretendemos para uma direita em Portugal. Uma direita sem fantasmas, não temos complexos de culpa e genuinamente acreditamos que os valores que defendemos são superiores. Uma direita combativa e afirmativa, que não ceda a facilitismos de discurso e rejeite populismos serôdios. Uma direita de ideias, capaz de inovar nos pressupostos e afrontar nos princípios. Uma direita direita, porque de meios termos e mistificações estamos já fartos. Uma direita vencedora por afirmação e não por omissão. É preciso vencer pela força do que defendemos e não pela ausência do que não dizemos. Uma direita arejada. Há causas que temos que assumir e caminhos que devemos trilhar.
E por isso, porque é à direita que estamos, vamos lá soltar as velas e sulcar os mares da discussão, à procura do nosso cabo, mas a favor das nossas concepções e na defesa do nosso olhar sobre este mundo que nos envolve.
E é assim mesmo, à Direita e mais nada!
Luís Manuel Guarita
O João já se havia adiantado e já tratou de preencher esta janela que abrimos ao mundo com as suas reflexões e desilusões. Sim desilusões, que este post da Bandalheira mais do que uma situação de facto é um grito de alma que partilho. Mas ainda a tempo, e porque ainda mal iniciamos este caminho, aproveito para lançar as velas desta nossa nau comum e começar a soprar ideias, porque é esse o sentido da navegação que em conjunto empreendemos.
Comecemos pelos princípios.
Esta é uma nau pela direita, com clareza e modernidade nos princípios, feita de um olhar aberto e atento ao mundo que nos rodeia, mas firme e sólida nos valores que defendemos.
E por isso aqui vamos, nesta aventura pelos caminhos que pretendemos para uma direita em Portugal. Uma direita sem fantasmas, não temos complexos de culpa e genuinamente acreditamos que os valores que defendemos são superiores. Uma direita combativa e afirmativa, que não ceda a facilitismos de discurso e rejeite populismos serôdios. Uma direita de ideias, capaz de inovar nos pressupostos e afrontar nos princípios. Uma direita direita, porque de meios termos e mistificações estamos já fartos. Uma direita vencedora por afirmação e não por omissão. É preciso vencer pela força do que defendemos e não pela ausência do que não dizemos. Uma direita arejada. Há causas que temos que assumir e caminhos que devemos trilhar.
E por isso, porque é à direita que estamos, vamos lá soltar as velas e sulcar os mares da discussão, à procura do nosso cabo, mas a favor das nossas concepções e na defesa do nosso olhar sobre este mundo que nos envolve.
E é assim mesmo, à Direita e mais nada!
Luís Manuel Guarita
domingo, 28 de outubro de 2007
O Divórcio
Nas ruas da cidade encontrei o bulício habitual. Gente que sai das igrejas, gente que entra nas lojas, crianças que correm pela ponte, mulheres calcorreando velozmente as calçadas, homens que conversam nas esplanadas, namorados que se abraçam nos jardins e, lá em baixo, a água do rio que corre imperturbável rumo ao Douro. A vida não pára em Amarante.
Tenho por aquela cidade uma admiração especial. Uma admiração reforçada no dia em que o povo decidiu infligir uma humilhante derrota autárquica ao inenarrável Senhor Avelino. Uma vergastada democrática aplicada no mesmo dia em que as elites de Oeiras reelegiam Isaltino e em que o operariado de Felgueiras se ajoelhava perante a sua Fátima. Naquele dia, foi de Amarante que veio um sinal de esperança. É verdade que respirei fundo, mas eu sempre soube que a dignidade daquela gente jamais seria trocada por uma voltinha de helicóptero ou por uma jantarada ordinária.
Quando visito uma cidade, gosto de me misturar com a sua gente. Sento-me numa esplanada, peço um chá e uma torrada e deixo-me ficar a escutar as conversas. Em Amarante fala-se do Futebol Clube do Porto mas também se discute a carreira do Amarante Futebol Clube, que lidera o campeonato nacional da 3ª divisão. Discute-se apaixonadamente o projecto de construção da barragem de Fridão e o aumento da cota da barragem do Torrão, obras que, a serem concretizadas, destruiriam grande parte da beleza do vale do Tâmega. Pelas mesas circulam o Jornal de Notícias e a Bola, mas as horas também são passadas a folhear o Jornal de Amarante e o Tribuna de Amarante. Comentam-se as notícias da cidade, lê-se que em breve serão concluídas as obras de reabilitação dos antigos paços do concelho de Santa Cruz de Ribatâmega. “Finalmente!” exclama alguém com ar indignado.
É assim a vida em Amarante, é assim a vida em qualquer cidade em que as pessoas tenham orgulho em viver.
De regresso à Amadora pensei no quão longe estamos daquela realidade. Falta-nos o Marão, falta-nos o Tâmega, mas falta-nos, infelizmente, mais do que isso.
Se conseguir encontrar uma esplanada frequentável, o que só por si não será tarefa fácil, ouvirei discutir o Benfica e o Sporting, mas dificilmente alguém se debruçará sobre o último jogo do Estrela da Amadora, clube que apesar de tudo está entre os maiores do nosso futebol. Ao meu lado, estará alguém a folhear apressadamente o Metro, o Destak ou o Dica da Semana, mas ninguém folheará o Grande Amadora, que já acabou, o Notícias da Amadora, cuja versão impressa já não se publica ou Jornal da Amadora, que embora exista ninguém lê.
Há na Amadora um profundo défice de amor pela cidade. Quantos de nós já visitaram os aquedutos e as mães de água que se espalham pelo concelho? Quantos de nós já tiveram oportunidade de conhecer a Necrópole de Carenque? Quantos de nós já se aventuraram num passeio pela lindíssima Mata da Fonte Santa? Quantos de nós tentaram visitar um moinho de vento, ex-libris deste concelho? Quantos de nós passearam recentemente pelo Jardim das Águas Livres? Quantos de nós se sentaram na esplanada do Parque Central, lendo um belo livro e observando os patos que passeiam as suas crias?
Imagino que poucos Amadorenses o tenham feito. Mas quem tentar fazê-lo vai, invariavelmente, bater com o nariz na porta. É que o aqueduto está fechado, a Necrópole de Carenque está vedada, a Mata da Fonte Santa está abandonada, os moinhos de vento estão em ruína, o Jardim das Águas Livres é uma fortaleza impenetrável e a esplanada do Parque Central, propriedade da autarquia, foi fechada há vários anos. São portanto as instituições e, muito em particular, a Câmara Municipal da Amadora quem promove o DIVÓRCIO entre os cidadãos e a cidade.
A nossa história, o nosso património, as nossas tradições – traços de que se faz a identidade de um povo – são considerados coisa menor. Detalhes irrelevantes, que sucumbem perante a urgência da grande empreitada.
Quanto à imprensa local, o raciocínio rudimentar de muitos dos nossos autarcas leva-os a considerá-la dispensável, a menos que colabore mansamente com o poder. Por outras palavras, jornal que se deixe meter no bolso é para apoiar, jornal que ouse afirmar a sua autonomia face ao poder político é para fechar. É o mesmo Portugal pequenino e bolorento que se revela em episódios como o saneamento político do professor Charrua ou a visita policial à delegação sindical da Covilhã. É um Portugal que mete dó.
João Castanheira
domingo, 21 de outubro de 2007
La Fregeneda - Barca d'Alva
Entre La Fregeneda e Barca d'Alva, ergue-se um dos mais belos trechos de via férrea do mundo. São 17 km de linha, desactivada em 1985, que inclui qualquer coisa como 20 túneis e 13 pontes. Um cenário digno dos mais fabulosos filmes de aventuras.
O passeio ao longo do que resta desta via é glorioso. Caminha-se entre penhascos sobrevoados por imponentes grifos. Atravessam-se pontes em ruína e túneis intermináveis, repletos de morcegos. Genial!
Foram milhares os trabalhadores que permitiram que em 1887 fosse inaugurada esta majestosa obra de engenharia. Uma obra que apesar de construída em Espanha foi planeada e executada por Portugal. Para lá de La Fregeneda, a linha prolongava-se até La Fuente de San Esteban, numa extensão total de 77 Km. Um projecto faraónico que, perfurando montanhas e unindo encostas, permitiria que as mercadorias provenientes de Espanha pudessem ser escoadas por mar, na cidade do Porto. Foi tal a empreitada que a banca portuense entrou em colapso. Eis algumas fotos da caminhada.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
terça-feira, 11 de setembro de 2007
Fotografia Aérea
Sempre que viajo de avião escolho um lugar do lado da janela. Quando a rota, a altitude e as condições climatéricas o permitem, aproveito o tempo para apreciar a paisagem e tentar entender a organização do espaço que vou sobrevoando. O ordenamento do território é, sem dúvida, um dos mais fiáveis indicadores do nível de desenvolvimento de um país e, para o avaliar, nada melhor do que a janela de um avião.Sobrevoar Portugal é quase sempre um exercício doloroso. As casas e as fábricas, as pedreiras e as barragens, os campos agrícolas improdutivos e as florestas queimadas sucedem-se e misturam-se sem uma lógica evidente.
Custa ter de o admitir, mas a verdade é que à medida que se voa para norte o território europeu vai progressivamente revelando um aspecto mais ordenado. No coração do continente, as cidades são habitualmente constituídas por uma área central densa mas organizada, rodeada por atraentes e desafogadas zonas residenciais, após as quais surgem, bem delimitadas, áreas industriais activas e campos onde ainda se pratica agricultura. A harmonia na organização do espaço atinge a perfeição na Escandinávia.
Quanto a Portugal, lá de cima imagina-se o que se passa cá em baixo. O caos e a desordem que se observam do ar são indicadores claros de falta de planeamento, crescimento anárquico, incompetência generalizada e corrupção crescente.
Aos poucos, o país vai-se transformando num medonho eucaliptal, bordejado por um espesso anel de construção civil que se debruça sobre o mar. Aqui e ali, umas quantas bolsas de natureza vão estoicamente resistindo ao “progresso”. Até quando?
Eis a fotografia aérea daquele que foi outrora um dos mais belos países da Europa. O retrato do país onde um passado glorioso e um povo heróico convivem com a mais chocante boçalidade e o mais retrógrado provincianismo. O país onde um anedótico presidente da Associação Nacional de Municípios incita a população a correr à pedrada os funcionários do Ministério do Ambiente, pois essa gente “obstaculija o dejembolbimento”. Verdadeiramente medieval.
Há dias, tive a oportunidade de sobrevoar a Amadora a baixa altitude. Vista do céu, a nossa cidade chega a assustar. A impressão que deixa é a de uma amálgama de construção disforme, constituída por uma malha urbana caótica e desprovida de sentido lógico. Uma selva de betão parcialmente cercada por uma cintura de construções abarracadas. Da janela do avião dificilmente se vislumbra um pedaço de solo livre, uma nesga de verde.
Pelo meio do tecido urbano consolidado, umas manchas acastanhadas vão sendo imparavelmente esventradas por bulldozers: a Serra de Carnaxide, o Casal da Mira, o Casal de Vila Chã.
Ao longo dos últimos 50 anos, o futuro da nossa cidade foi depositado nas mãos de um punhado de patos bravos, a quem tudo foi permitido. Em matéria de ordenamento do território, as opções políticas têm consequências. E que consequências!
Numa área com menos de 24 km2 vivem 176.000 habitantes, donde resulta uma densidade populacional de 7.400 habitantes por km2. Em nenhuma outra zona do país se amontoa tanta gente numa tão exígua porção de território. Nem em Lisboa, nem no Porto, nem em Sintra, Gaia ou Gondomar. A densidade populacional da Amadora é 3 vezes superior à média das cidades portuguesas, 66 vezes superior à densidade populacional de Portugal.
Como o débil tecido empresarial do município foi aos poucos definhando, pela manhã toda esta gente ruma aos seus postos de trabalho nos concelhos vizinhos, entupindo as estradas e enchendo os comboios. Vagas de gente que, frequentemente, vem à Amadora apenas para dormir.
O esforço de qualificação do espaço público a que vimos assistindo ao longo dos últimos anos é por si só insuficiente para resolver o problema de fundo que atormenta a nossa cidade. É que, simultaneamente, a gestão camarária socialista insiste num modelo de crescimento anacrónico e delirante. Desde que chegou à Amadora, em 1997, Joaquim raposo aprovou, de forma acrítica, a construção de casas para 40.000 novos habitantes.
E veja-se o que se prepara para a Quinta do Estado, área estratégica para o desenvolvimento sustentável do município, onde é imperioso fazer diferente e fazer melhor. O criminoso Plano Director Municipal da Amadora considerou aquela área, à semelhança de praticamente todas as outras, como uma zona de alta densidade de construção. Não satisfeita com o banquete, a gestão autárquica socialista prepara-se para tentar alterar o PDM, aumentando em 25% o índice de construção permitido na área da Falagueira-Venda Nova.
A singela e inocente alteração do PDM resultaria, a preços de mercado, num aumento do lucro líquido dos promotores imobiliários superior a 150 milhões de euros. Isso mesmo, 30 milhões de contos a somar ao lucro normal que a gigantesca operação imobiliária renderá se respeitar as regras actuais.
Um enriquecimento ilegítimo e intolerável, porque conseguido à custa de uma insuportável deterioração da qualidade de vida de centenas de milhar de cidadãos.
João Castanheira
sábado, 1 de setembro de 2007
Ota: a Muralha Começa a Ceder
Como muitos outros portugueses, sou frequentemente forçado a viajar para fora do país por motivos de ordem profissional. Na maior parte das vezes saio por um dia ou dois, com o tempo contado, para participar numa reunião ou numa conferência, beneficiando de uma comodidade que vale ouro nos dias que correm – quer saia de casa quer saia do escritório, chego ao Aeroporto Internacional de Lisboa em menos de trinta minutos.É esta mesma comodidade que tem trazido para a Área Metropolitana de Lisboa um número crescente de congressos, seminários e conferências internacionais. A mesma comodidade que trás um número cada vez maior de turistas, que escolhem a região de Lisboa para uma curta estadia de férias, muitas vezes não mais do que um fim-de-semana, em que cada hora conta.
São estes profissionais e estes turistas que enchem os hotéis, que geram movimento nos restaurantes, que dão vida ao comércio e que visitam os museus e outros equipamentos culturais. São eles que alimentam um sector da economia que é cada vez mais estratégico para o país – o turismo.
É tudo isto que estaremos a pôr em causa se o Governo do Partido Socialista insistir em construir um resort aeroportuário de luxo, encavalitado entre cabeços e pântanos, a 50 km de distância do centro de Lisboa.
Tamanha insensatez poderá satisfazer o interesse da indústria da construção, legitimamente empenhada em erguer um aeroporto tão caro quanto possível. Tão leviana decisão poderá satisfazer o interesse de quem oportunamente comprou, a preço de saldo, os terrenos em redor da Ota e que agora espera realizar mais-valias milionárias. Tão obtusa opção fará até crescer água na boca aos empreiteiros do costume, muitos dos quais salivam perante a possibilidade de construir um novo Cacém em plena Portela. O que já não há dúvidas é que a construção de um aeroporto internacional na Ota não serve o interesse nacional, o que não é coisa pouca.
É por isso que se estranha o silêncio cúmplice de muita gente com responsabilidades políticas importantes. Falo, em particular, dos autarcas que gerem os destinos dos municípios que sofreriam com a construção do Aeroporto da Ota. É que o golpe não afectaria apenas Lisboa. Teria consequências dramáticas em toda a Área Metropolitana, incluindo, obviamente, a Amadora.
É assim verdadeiramente notável que, na moção de estratégia com que se candidatou a Presidente da Federação da Área Urbana de Lisboa do Partido Socialista, Joaquim Raposo assuma a defesa da construção do Aeroporto da Ota como uma das suas prioridades. Não se vislumbrando em tal empreitada qualquer interesse para os cidadãos da Amadora, imagino que o tenha feito por fidelidade partidária. Imagino também que à medida que a poeira vai saltando debaixo do tapete, o Presidente da Câmara Municipal da Amadora se arrependa de ter saído em defesa da Ota. É que sendo igualmente exótica, a ideia de construir um aeroporto internacional nos subúrbios de Alenquer é apesar de tudo bem mais gravosa para o país do que a peregrina ideia, já em marcha, de encavalitar uma pista de ski em cima do IC19. A insensatez tem os seus limites.
Entretanto, perante as visíveis dificuldades em que se encontrava o recém nomeado Ministro de Estado e da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, o Governo decidiu oferecer-se uma pausa de seis meses, tentando dessa forma adormecer o tema que ameaçava ensombrar a candidatura socialista à autarquia lisboeta e esperando que o futuro ex-Ministro Mário Lino refreie as suas pulsões suicidárias.
O Primeiro-Ministro de Portugal é um homem obstinado mas inteligente. No momento em que os argumentos em defesa da Ota começavam a resvalar para o domínio do absurdo, percebeu que as coisas não estavam a correr bem. E, guiado pelo seu instinto de sobrevivência, decide anunciar a encomenda ao LNEC de um estudo comparativo sobre a localização do futuro aeroporto. É um bom sinal, até porque apesar de tutelado pelo Ministro da Obras Públicas, o LNEC não é conhecido por elaborar estudos daqueles em que a conclusão é ditada por quem paga a conta.
Pena é que o estudo seja demasiado restritivo, voltando a confrontar apenas duas localizações e deixando de lado aquela que parece ser, claramente, a solução que melhor defende os interesses da cidade de Lisboa e do país – manter em funcionamento a Portela, complementando-a com um segundo aeroporto, vocacionado para a operação das companhias low-cost. Até porque ficou agora a saber-se que o crescimento do movimento na Portela se deve, essencialmente, à explosão do mercado dos voos de baixo custo.
Quem voa de ou para Lisboa por um punhado de Euros seguramente que não protestará se aterrar, por exemplo, no Montijo. Da mesma forma que quem voa para Londres numa companhia low cost não está espera de aterrar em Heathrow. Fica feliz da vida se aterrar em Gatwick, Stansted ou Luton.
Não tenho grandes ilusões acerca deste interregno estratégico de seis meses decretado por José Sócrates. Provavelmente, para além de um gigantesco e cristalino aquífero, vão surgir em pleno campo de tiro de Alcochete umas fantásticas gravuras rupestres ou um casal lampreias em nidificação. Seja como for, a verdade é que a muralha começa exibir as primeiras brechas.
O episódio do deserto foi, indiscutivelmente, o ponto de viragem. O momento em que, na ânsia de se afirmar como o maior defensor da Ota, o Ministro Mário Lino se transformou no seu maior detractor. Na mesma altura, tomado por uma aflição a roçar o febril, o dr. Almeida Santos ameaçava o país com o risco de dinamitagem das pontes. Como se, num ápice, tivéssemos passado a viver no farwest. Tornou-se claro que a linha do mais elementar bom senso havia sido ultrapassada. A obsessão pela construção de um aeroporto aninhado no pantanal de Alenquer tinha definitivamente tomado conta do Partido Socialista.
João Castanheira
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