quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Onde pára o Zé?

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Confesso que tinha pelo Zé uma certa admiração. Sim, eu sei que o fulano custou uma pipa de massa ao erário público quando decidiu marrar com o túnel do marquês. E que mesmo sem qualquer pelouro na autarquia, tinha mais assessores que o presidente da câmara de Vila Nova da Rabona. Sim, é verdade que Lisboa merecia um justiceiro com um ar mais lavadinho. Mas, enfim...
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A verdade é que foi o Zé que pôs em sentido a indústria da caliça! E, ao que parece, foi graças ao Zé que abrandou o tráfego de malas de dinheiro pelos corredores da capital.
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É por isso que este silêncio é tão ensurdecedor. Afinal, onde pára o Zé?
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Ele eram conferências de imprensa de manhã, denúncias de cambalachos à tarde, providências cautelares à noite. Uma azáfama.
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Coincidência ou não, desde que foi laureado com o pelouro dos canteiros o homem eclipsou-se. Tiro em cheio, Zé ao fundo!
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João Castanheira

domingo, 2 de dezembro de 2007

100 anos de Niemeyer

Oscar Niemeyer fará 100 anos no próximo dia 15 de Dezembro. Um século de génio que importa celebrar.

Do conjunto da Pampulha (1940) ao Museu de Arte Contemporânea de Niterói (1991), Niemeyer projectou um mundo inteiro de edifícios intemporais.

Em “Minha Arquitectura”, Niemeyer escreve: “Não é o ângulo recto que me atrai, nem a linha recta, dura e inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher. De curvas é feito todo o universo”.

Quando, em 1955 Juscelino Kubitschek decide rasgar uma nova capital em pleno sertão brasileiro, Niemeyer é confrontado com a oportunidade da sua vida. Um desafio que nenhum outro arquitecto pudera até aí agarrar – Niemeyer deveria conceber todos os palácios e edifícios significativos da nova capital do seu país.

E foi precisamente em Brasília, cidade oficialmente inaugurada a 21 de Abril de 1960, que o génio criador do arquitecto se revelou em todo o seu esplendor. Uma explosão de formas e curvas sem paralelo na arquitectura moderna.

Niemeyer continua ainda hoje, aos 100 anos, a trabalhar activamente no seu atelier de Copacabana. E a passagem do centenário do nascimento do arquitecto lembrou-me que está ainda por cumprir uma das viagens da minha vida.

Desde miúdo que me imagino a percorrer o eixo monumental, a visitar a deslumbrante catedral, a subir a esplanada dos ministérios e a desembocar na mítica Praça dos Três Poderes. Trauteando uma melodia de Jobim, vejo-me a descobrir o Congresso Nacional, a olhar demoradamente o Palácio do Planalto e a descansar, por fim, junto ao espelho de água do Palácio da Alvorada. Há tantos anos que espero por essa viagem…

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João Castanheira

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Pensamento do dia

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Sobre a muito parcial Greve Geral da função pública marcada para hoje, os números do governo apontam para uma adesão média de 20,03% - precisão científica - muito longe dos 80% proclamados pelos sindicatos.
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Pensamento do dia: quando devidamente torturados, os números confessam o que for preciso.

João Castanheira

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Galeria de horrores

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Isto está a ficar mal frequentado.








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João Castanheira

terça-feira, 27 de novembro de 2007

O convidado

Ele vem aí!
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Rebentou um país - o Zimbabué - que já foi dos mais prósperos de África. Escorraçou fazendeiros por terem fazendas e, sobretudo, por serem brancos. Mandou prender e espancar adversários políticos. Viciou eleições. Obrigou milhões de compatriotas esfomeados a fugirem para os países vizinhos.
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Mas foi convidado e vem aí! O ministro dos negócios estrangeiros de Portugal diz que trará algum ruído à cimeira UE/África. Eu acho que um tiranete racista deste calibre trará infelizmente mais do que apenas ruído. Em boa verdade, cobrirá toda a cimeira com o seu lixo.

A minha homenagem a Gordon Brown, por manter a Inglaterra do lado certo da história. Como é habitual.

João Castanheira

Amadora lidera ranking

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Ainda o estudo europeu sobre criminalidade divulgado pela Deco: a Amadora é a cidade com maior incidência de crimes, não só em Portugal mas em toda a Península Ibérica. A liderança na facada e no gamanço é destacada e não nos deixa longe de Nápoles ou Catania. Estamos, portanto, ao nível das regiões mais mafiosas do sul de Itália e da Sicília. Com tranquilidade.

João Castanheira

Peace and love

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No portal do governo, pode ler-se que "... no contexto da União Europeia, Portugal continua a integrar o grupo de países com índices de criminalidade mais baixos e em que o sentimento de segurança é mais elevado". Lê-se ainda que "... o grau de confiança dos cidadãos portugueses na polícia duplicou nos últimos 5 anos". As palavras são do ministro da administração interna, no debate do relatório anual de segurança, na Assembleia da República. É o relato de um país muito peace and love, mas final parece que não é bem assim.

De acordo com o estudo europeu hoje divulgado pela Deco, 65% dos portugueses sentem-se afinal mais inseguros hoje do que há 5 anos. E mais de metade dos cidadãos vítimas de crime nem sequer apresentou queixa às autoridades, por considerar que a polícia não iria resolver o seu problema. Conclui-se, portanto, que a tão apregoada descida dos índices de criminalidade - a criminalidade declarada - está ligada à perda de confiança nas forças de segurança.

Mais ainda, 60% dos portugueses que se queixaram de um crime não viram o seu problema resolvido. Passados uns meses ou uns anos receberam em casa uma singela notificação policial a comunicar o arquivamento do caso.

O país real é este e não o Portugal cor de rosa do governo rosa.

Mas o inspector-geral da administração interna não encontrou melhor forma para gastar o seu tempo e o nosso dinheiro do que lançar uma campanha contra as forças policiais. Disse há uns dias: "Há por aí muita cowboyada de filme americano na mentalidade de alguns polícias... há muita impertinência da parte da polícia, intolerância, impaciência... incompetência ".

E eu que pensava que a prioridade do senhor inspector-geral era ajudar a polícia a encontrar os meios e a autoridade de que precisa para combater o crime.

João Castanheira

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Cegueira política

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A cegueira política de Vital Moreira começa a ganhar contornos patológicos.

Segundo diz o senhor professor, a concessão da rede rodoviária nacional à Estradas de Portugal não vai custar um euro a mais aos portugueses e vai até render aos cofres do Estado vários milhões anuais a pagar pela concessionária.

O Vital que me desculpe, mas para que a concessionária entregue ao Estado um euro que seja, terão que ser os portugueses a pagá-lo. É que ao longo das próximas décadas as receitas da concessionária continuarão a resumir-se aos impostos pagos pelos portugueses.

Pode o Vital defender que a concessionária desate a portajar o país, inaugurando um muito socialista princípio do utilizador - duas vezes pagador. Talvez, quem sabe, se possa instalar uma portagem na estrada nacional 229, entre Penedono e Sernancelhe. Mas ainda assim continuarão a ser os desgraçados dos portugueses a pagar.

Há coisas que nem o douto contorcionismo deste académico coimbrão consegue explicar: aparece mais dinheiro nos cofres do Estado mas ninguém o paga.

Sejamos justos: a haver remodelação governamental o senhor professor vai a ministro. Já merece.
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A não ser que até lá volte a mudar de partido.
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João Castanheira

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Hoje há ditador para jantar.


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Hoje temos ditador para jantar. Servido com honras de estado e antecedido por entradas de nostalgia.

E que viva a revolução! A dos outros é claro.

Luís Manuel Guarita

sábado, 17 de novembro de 2007

BD


Quando a Banda Desenhada se transforma numa arte e a arte num prazer. Blueberry - Charlier e Giraud.

Luís Manuel Guarita

Coisas que recomendo.


Duas coisas de que muito gosto e recomendo. Um livro de Jorge Luís Borges - Ficções, aqui na capa da Penguin, e um poema de Frederico Garcia Lorca, Romance Sonámbulo do Romancero Gitano, aqui apenas a primeira parte e na versão original.

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.

Luís Manuel Guarita

Este é para os meus amigos.


Quando eu cheguei aos REM já vocês lá estavam há algum tempo. Cheguei vindo de paragens bem mais inóspitas (musicalmente falando) que vocês recordam e que eu não admito, mas cheguei e quando cheguei mudei. Não sei se foi a força da música ou sua beleza especial, não sei se foram vocês, se foi o tempo em particular, não sei e confesso que nem me interessa particularmente, apenas me apetece recordar aquele tempo em si mesmo. O tempo em que aprendi convosco a gostar de REM e de tantas outras coisas, a memória do que fizemos e do que crescemos, a recordação dos momentos em que primeiramente aprendi que a amizade vale por uma ou várias vidas e que nessa amizade estão todos vós.

E é por isso, e porque a música é intemporal, que vos deixo, nesta curta viagem ao passado, a recordação deste disco e dos tempos que a ele associo.

Ao Paulo, ao João Paulo, ao Luís, ao Chico, ao Miguel e ao Quim. Para tornar a ouvir e sorrir ao futuro!

Luís Manuel Guarita

A seguir em nossas casas!

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É genético! Para que se leve às últimas consequências a tragédia do aborto faltaria somente um passo. O Sr. Ministro resolveu dá-lo. Já não bastava a demissão assumida do Estado em ter a defesa da vida humana como princípio inalienável da sua acção. Agora, para garantir que a morte é um princípio bem mais valioso e que definitivamente a nossa matriz sociocultural se deve basear no abismo do relativismo mais puro e duro, resolveu-se avançar em definitivo para dentro das nossas casas. Em absoluto o Estado em nós e nós totalmente no Estado.

Entre a ética assumida como responsabilidade e a lei interiorizada como dever cego, optou-se pela segunda. Entre a defesa do mais precioso bem que nos é dado - neste caso em particular tendo como pano de fundo um juramento com mais de 2500 anos - a vida, e o fascínio mórbido da morte, impõe-nos o Estado a morte, cuidando de, pelo caminho e caso não tomem esta opção, punir as consciências daqueles que se situam na primeira linha da defesa da vida, os médicos.

Quem não percebe que acima da lei deve estar a ética e que a ética remete para o mais íntimo de cada um de nós, tratando-se por isso de um património intocável, não percebe que o Estado deve ter limites e que esses limites não podem ser ultrapassados.

Que o estado queira impor uma cultura de morte aos seus cidadãos já o acho tenebroso, mas que o queira impor a cada consciência individualmente, acho-o horrendo.

Por isso, entre uma lei que defende a morte e uma ética que preserva a vida, não tenho dúvidas na escolha, há no entanto quem tenha, logo, parece-me que, prosseguindo por este caminho, a seguir é em nossas casas que se legislará.

Luís Manuel Guarita

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Estradas de Portugal: rabo escondido com o gato de fora


Curiosa esta alteração de estatuto da Estradas de Portugal, organismo que pela mão do muito activo ministro das obras públicas passou de empresa pública a sociedade anónima de capitais totalmente públicos.

De acordo com o ministro, não há por trás da decisão do governo qualquer intenção de privatizar a empresa. Ainda de acordo com o mesmo ministro, não há nesta operação qualquer truque orçamental destinado a reduzir artificialmente o défice público. Por outro lado, asseguram os socialistas que a Estradas de Portugal continuará a construir as vias que os governos do país definam e que nenhuma nova portagem será introduzida sem a necessária decisão política.

Em resumo, fazendo fé no governo do eng.º Sócrates tudo ficará exactamente na mesma. Mas se tudo ficasse exactamente na mesma porquê a mudança? Aperta-se um bocadinho e os ministros e secretários de estado começam a patinar.

Aos poucos, vai-se fazendo luz.

Em simultâneo com a alteração do estatuto da empresa, o governo concessiona à Estradas de Portugal toda a rede viária nacional por um período de 75 anos. Para justificar a atribuição duma concessão por quase um século, o ministro das obras públicas fala em solidariedade entre gerações. Na concepção do ministro, por solidariedade entre gerações entende-se que ele decide hoje como serão geridas todas as estradas do país ao logo dos próximos 75 anos, privando de qualquer capacidade de decisão não apenas os próximos governos, mas também os nossos filhos, os nossos netos, os nossos bisnetos... Que estranha forma de solidariedade. Eu chamar-lhe-ia antes um fardo para as próximas gerações.

E, afinal, o que o governo garante é que a Estradas de Portugal não será privatizada até ao fim da presente legislatura. Por outras palavras, o governo concessiona um bem público por 75 anos e compromete-se a não privatizar a beneficiária da concessão durante os próximos 2. Brilhante.

Aquilo que está em marcha é, portanto, a primeira fase da privatização de uma empresa que terá a seu cargo a gestão de 16.500 km de estradas nacionais, praticamente até ao fim do século. É rabo escondido com o gato de fora.

E eu, que sou um liberal no domínio económico, assisto estarrecido a esta febre privatizadora do governo socialista. Ver um ministro dum governo alegadamente de esquerda, um ex-comunista em boa verdade, ultrapassar-me muito pela direita é algo que começa a pôr-me os cabelos em pé.

Para um liberal faz sentido que o Estado seja magro e eficiente, que legisle e regule, que defenda o interesse dos cidadãos mas que se abstenha de participar directamente em actividades económicas. Para um liberal, faz sentido que a economia esteja nas mão dos privados, porque essa é a melhor forma de assegurar a concorrência entre agentes do mercado, proporcionando aos cidadãos melhores serviços aos melhores preços.

Mas que sentido faz a privatização apressada das redes energéticas nacionais ou a privatização escondida da rede rodoviária do país? São infra-estruturas estratégicas e únicas onde, por definição jamais existirá concorrência. Assistimos à privatização da REN e ao início da privatização da Estradas de Portugal, mas em simultâneo temos um governo que insiste em manter integralmente pública a RTP, uma empresa de rádio e televisão que actua num verdadeiro mercado, mas que se mantém sob domínio do Estado para assegurar a propaganda oficial do governo.

A estratégia deste governo é sórdida e está a hipotecar definitivamente o futuro de Portugal. Tomam-se decisões que comprometem o país por um século, com o objectivo de mascarar o défice público dos próximos anos e engordar grupos económicos que vivem pendurados nos grandes negócios com o Estado. Por este caminho, Portugal vai acabar.

O último a sair que apague a luz.

João Castanheira

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

DerrOTA à Vista?

Por estes dias, há um sobressalto que agita as hostes socialistas. Sente-se no ar a angústia que se apoderou de alguns dos espíritos mais iluminados da nossa esquerda.

A dúvida instalou-se, sobretudo, no dinâmico sector empresarial rosa, boa parte do qual vive pendurado nos grandes negócios com o Estado. Então e se o primeiro-ministro estiver mesmo a equacionar a hipótese Alcochete? Então e se o estudo encomendado ao LNEC for de facto sério e para levar a sério? É que em 2009 há eleições para ganhar, logo os portugueses não podem ser forçados a engolir a Ota a qualquer preço. O pânico está instalado.

Depois de revelada a hipótese Alcochete, cedo se percebeu que o estado-maior rosa tinha entrado em roda livre. No último verão, o dr. Almeida Santos acenava ao país com o perigo de dinamitagem das pontes sobre o Tejo. Um verdadeiro western à portuguesa, dado como provável caso se insistisse na pouco oportuna ideia de construir o aeroporto na margem sul.

“Na margem sul jamais, jamais!”, atirava descontrolado o ministro da obras públicas, para quem a Ota era um compromisso pessoal. Pena é que o compromisso do senhor ministro fosse para pagar com o dinheiro dos contribuintes.

Quando, providencialmente, o primeiro-ministro decidiu decretar uma pausa para reflexão, a Ota estava prestes a ir ao tapete. Havia que reorganizar as tropas, redefinir estratégias e preparar uma resposta firme.

Mas como contrariar o conjunto de factos concretos que a CIP tinha revelado ao país?

1. O campo de tiro de Alcochete é mais perto de Lisboa do que a Ota.

2. Os terrenos de Alcochete são do Estado ao contrário dos da Ota.

3. O campo de tiro de Alcochete é mais plano que o pantanal enrugado da Ota.

4. A área disponível em Alcochete é infinitamente maior do que a nesga de terreno existente na Ota.

Em Alcochete há, portanto, menos obra pública para fazer e menos terrenos para expropriar, logo menos clientela para alimentar.

Sobram as gravuras rupestres, as pegadas de dinossauro, a rota migratória das galinhas, os aquíferos, os sobreiros, os morcegos, o porco preto e a caracoleta... Não se encontrou nada? Há que procurar melhor!

Nos gabinetes da alta finança e nalgumas obscuras repartições do Estado trabalha neste momento um batalhão de consultores, engenheiros, biólogos, peritos, amigos e primos a cozinhar uma contra-argumentação de emergência. O objectivo é desmontar o estudo da CIP, custe o que custar.

Há uns dias, as construtoras lançaram a ideia peregrina dum pacto de regime sobre as grandes obras públicas. Trocando por miúdos, PS e PSD entendem-se previamente sobre o banquete – aeroporto incluído – e o país cala definitivamente a boca. Por ser demasiado escandalosa a coisa não passou.

Ontem, o inevitável Vital Moreira voltou a terreiro no seu blogue Causa Nossa, rejubilando com um alegado comunicado da Rave. Ao que parece, a empresa tutelada pelo ministro das obras públicas tinha encontrado imprecisões no estudo da CIP. “O estudo começa a afundar-se no ridículo” decreta prontamente o mais socialista dos ex-comunistas, um eminente constitucionalista que aos poucos se vai transformando numa sumidade do sector aeroportuário.

No dia anterior, o ex-ministro socialista Daniel Bessa tinha sido honesto e frontal como é seu timbre, indo directamente ao cerne da questão. Na primeira página do caderno de economia do semanário Expresso escrevia que muitas entidades “fizeram projectos, adquiriram terrenos, firmaram contratos”, convencidas da construção do aeroporto na Ota. Esse é, verdadeiramente, o problema.

Pouco importa o dinheiro e o interesse público. Ainda que estejamos a falar de milhares de milhões de euros e do futuro do país, o que parece de facto importar são os interesses particulares de meia dúzia de predadores que se precipitaram para a Ota, rapidamente e em força. Os suspeitos do costume.

João Castanheira

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

O Bloco e a Bandidagem

Ao longo dos últimos meses, a Itália tem sido atingida por uma série de crimes violentos, muitos deles praticados por cidadãos estrangeiros. No mais recente episódio desta vaga de insegurança que ameaçava fugir ao controlo das autoridades, uma mulher foi violada e esfaqueada até à morte numa rua de Roma. O crime, hediondo e intolerável, foi praticado por um imigrante romeno.
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Face à onda de violência emergente e à pressão de uma opinião pública crescentemente intranquila, o governo italiano, por sinal dirigido por um socialista, decidiu acelerar a aprovação de um conjunto de medidas destinadas a garantir a segurança dos cidadãos. Dos italianos e dos outros – os imigrantes que residem em Itália e os milhões de turistas que visitam o país.

O decreto-lei agora aprovado permite que as autoridades expulsem os cidadãos estrangeiros que cometam crimes em Itália. É uma medida do mais elementar bom senso. Previne o crime, protege os cidadãos, castiga os criminosos e, sobretudo, defende as comunidades imigrantes contra o potencial surgimento de reacções de carácter racista ou xenófobo. É que, como é óbvio, se nada fosse feito começariam em breve a ouvir-se vozes contra a comunidade romena no seu todo. Pagariam os muitos romenos cumpridores pelos poucos que desafiam a lei do país que os acolheu.

Como seria de esperar, a decisão do governo italiano provocou uma reacção virulenta da esquerda radical, entre nós representada pela rapaziada do Bloco de Esquerda, que a seguir a um par de charros e uma jantarada no Gambrinus está sempre disponível para uma mãozinha à bandidagem.

No seu muito visitado blogue, o Daniel Oliveira dá voz ao que vai na alma da nossa esquerda caviar. Nem uma linha sobre a jovem violada e esfaqueada até à morte. Nem uma palavra sobre a falta de segurança que tolhe a liberdade e ceifa a vida de cidadãos inocentes. Só inquietação quanto ao futuro da bandidagem.

Escreve o Daniel que o governo italiano reagiu a um crimezito pontual com “medidas a pensar em todo um grupo e mandou a cidadania europeia às urtigas”. Sugere ainda o Daniel, numa agastada resposta ao comentário de um leitor, que é contra o repatriamento de estrangeiros porque representa a punição colectiva de raças!!! Et voilà, a medida do governo italiano é racista... Será que aos olhos do Daniel Oliveira os delinquentes constituem uma raça?

Ao contrário do que muito gostaria o nosso Daniel, a lei italiana não afecta os imigrantes em geral. Afecta sim os criminosos – assaltantes, violadores, traficantes, assassinos. Saem a ganhar todos os outros cidadãos, sejam eles italianos ou imigrantes residentes em Itália.

Mas e a bandidagem, quem vela pelos interesses da bandidagem? O Bloco, claro está!

Sintomaticamente, o blogue do Daniel Oliveira chama-se Arrastão, designação que evoca nostalgicamente os assaltos em massa que se tornaram imagem de marca do Rio de Janeiro. Uma espécie de desporto radical em que uma horda de marginais drogados escorrega morro a baixo roubando, ferindo ou matando tudo quanto se atravesse à sua frente.

Para que se entenda a atitude laxista e irresponsável dos nossos bloquistas é importante caracterizar o representante típico da esquerda caviar. É, em regra, professor universitário. Mais do que bem instalado na vida, está pregado a uma universidade pública e debita uns bitaites bem pagos num ou noutro órgão de comunicação social. Observa a criminalidade da varanda do apartamento, da janela do automóvel ou da montra do restaurante. E bate-lhe palmas pelo que ela representa de subversão do sistema democrático.

O problema é que, embora à distância se deleite com as “democracias progressistas" da América do Sul - Hugo Chávez à cabeça - a esquerda caviar monta-se na liberdade e no estilo de vida que constituem património inalienável das sociedades democráticas ocidentais. O típico intelectual bloquista colecciona recuerdos da revolução cubana e pragueja contra o “imperialismo” americano, mas sempre que pode vai às compras a Nova Iorque ou passa um fim-de-semana em Londres.

É o insanável paradoxo dos nossos trotskistas recauchutados. Vivem à conta do sistema que parecem querer desmantelar.
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João Castanheira

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A esquerda e o seu labirinto


É ler este livro, que até é escrito por alguém insuspeito, de esquerda e com credenciais firmadas, para perceber até que ponto a esquerda actual e, em boa verdade, a esquerda de todos os tempos, mais do que uma ideia de futuro, é uma reacção ao presente. Um lugar onde a obsessão e o ódio ao contrário são as verdadeiras e sempre legítimas armas ao serviço do argumento e onde a vitória das convicções é um mero detalhe quando comparado com a necessidade de derrotar e sobretudo vergar o oposto.
A esquerda no seu labirinto, ou a verdade para além da fantasia! Para ler e perceber.
Luís Manuel Guarita

sábado, 3 de novembro de 2007

A Um Deus Desconhecido

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É um disco intemporal. É, provavelmente, a mais bela e genial colecção de canções que alguma vez se escreveu em Portugal. O primeiro álbum da Sétima Legião foi um rasgo de génio sem paralelo, um momento ímpar de inspiração – criatividade em estado puro.

A obra vale por si. As canções resistiram ao tempo, amadureceram e transformaram-se em clássicos, mil vezes revisitados por uma imensa minoria.

A Um Deus Desconhecido é uma obra de rotura, um disco afrente do seu tempo. Quando foi editado, em 1984, vivia-se a ressaca do boom do rock português. Eram as chicletes e os patchoulys, todo um universo musical dominante onde não encaixava a estética vanguardista e a atmosfera sufocante que caracteriza o álbum da Sétima Legião.

A Um Deus Desconhecido fará em breve vinte e cinco anos. Uma efeméride que importa celebrar. Ao génio criativo do Rodrigo Leão, do Pedro Oliveira e dos restantes membros da banda ficamos a dever muito do que tem sido a melhor música moderna portuguesa. A eles e à lendária Fundação Atlântica, editora independente criada pelo Miguel Esteves Cardoso, pelo Pedro Ayres Magalhães e pelo Ricardo Camacho.

A Fundação Atlântica foi a nossa Factory, uma extraordinária aventura editorial que durou menos de três anos. Uma vida demasiado curta, mas ainda assim suficiente para nos legar, entre outros, um tesouro chamado A Um Deus Desconhecido. A banda sonora de uma geração.

João Castanheira

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Lugares

Início de tarde no vale glaciar do Zêzere

Manto de nuvens em volta da montanha do Pico

João Castanheira

terça-feira, 30 de outubro de 2007

O Catita - Parte II

Sendo um pouco mais explícito, o Catita que o Luís Guarita refere no post anterior é o mui ilustre constitucionalista Vital Moreira, personalidade que, semanalmente, se dirige à nação nas páginas do jornal Público. O tom da coisa é professoral, flutuando entre o maçudo e o irritante.

A partir do seu sofá, o constitucionalista vem a terreiro para, invariavelmente, defender de forma obstinada toda e qualquer medida que o eng.º Sócrates decida anunciar. É uma espécie de Peres Metello em versão hardcore. O leitor incauto corre o risco de terminar a leitura trespassado pela espada do diligente guerreiro rosa. Eu próprio acabo frequentemente amargurado, por não conseguir atingir o alcance de algumas das iniciativas pelas quais o académico coimbrão se atravessa.

Agora a sério, importa não levar o nosso constitucionalista demasiado a sério. É que ele é o mesmo que, não há muitos anos, emitia as suas fatwas do alto da tribuna do comité central do PCP. Defendia então, no mesmo tom professoral, o contrário de tudo aquilo que hoje defende. Até ao dia em que descobriu que afinal estava enganado. Ou melhor, até ao dia em que apanhou o comboio do PS.
J
João Castanheira

O Catita

Este Sr. Professor Moreira é aquilo a que eu chamo um catita. Um tipo estilo bacano com ar porreiro e atitude simpática mas que em boa verdade meu deus… E isto porquê? Segundo ele há uma teoria que facilmente explica esta coisa incrível de haver mais escolas privadas que públicas no topo do mal fadado ranking de escolas. É a origem dos garotos, senhor, essa hedionda origem, que tudo marca e tudo define.

Eu, que sou dado ao respeitinho e nunca questiono essa magnífica autoridade de um notável lente da cidade do Mondego, às vezes e confesso que em desespero, atinjo um ponto em que me pergunto, mas que mal fizemos para merecer estas sumidades? Então mas será que pelos séculos fora nunca nenhuma menina ou menino singraram por via desse anátema social que é a sua origem? E será que se oferecêssemos um cheque a uma família de recursos limitados para que esta pudesse escolher livremente a escola dos seus filhos ela recusaria? Pois é, nem respondo, deixo à consideração geral. É que de facto a qualidade pedagógica, o rigor, os métodos e as práticas e uma coisa tão etérea como a autoridade – sacrilégio - são meros e irrelevantes detalhes, o que verdadeiramente determina, Professor dixit, é a condição senhores, é a condição.

Mas pronto, o Professor lá debita as suas teorias e eu que até as vou lendo, nunca concordo com elas (ah, mentira, ouve uma, há muito, muito tempo com que concordei, uma sobre o regime florestal em Portugal), mas que ele é um catita, lá isso é.

Luís Manuel Guarita

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Bandalheira

Depois do fim das reprovações por faltas no ensino básico e secundário, imagina-se que em breve será decretada a proibição total do chumbo no nosso sistema de ensino. Esta medida visionária guindará Portugal ao topo das estatísticas mundiais do sucesso escolar, ainda que a nossa massa estudantil caminhe a passos largos para se transformar numa imensa mole de ignorantes e iletrados.

Para o Estado, deixou de existir diferença entre um aluno assíduo e aplicado e um desgraçado que passe fugazmente pela escola, com o objectivo de fumar um charro ou insultar um professor. Para o sistema, são dois jovens em pé de igualdade.

Mérito, esforço, dedicação, rigor, exigência, o que é isso? Está definitivamente instalada a bandalheira no nosso sistema de ensino.

Temo que, a prazo, a concepção socialista da educação nos empurre para um novo modelo de escola. Uma escola-tipo constituída por um grande complexo tecnológico, seja lá o que isso for, acompanhado por uma ou duas salas de aula, ginásio e sala de chuto.

Entretanto, professor que se atreva a reprovar um aluno verá provavelmente ser-lhe instaurado um processo disciplinar. É que as boas estatísticas são um assunto de interesse nacional, ainda que conseguidas à custa da destruição do nosso já precário sistema de ensino público.

E que ninguém diga que os decisores políticos, que tão bem governam, tudo fazem para se manter longe do projecto de escola que estão a criar, inscrevendo os seus filhos nos melhores colégios privados do país. Alguém está a insinuar que o facilitismo é bom mas é para os filhos dos outros? Vejam lá se é preciso chamar a autoridade!
J
João Castanheira

À Direita e mais nada!

Comecemos então...

O João já se havia adiantado e já tratou de preencher esta janela que abrimos ao mundo com as suas reflexões e desilusões. Sim desilusões, que este post da Bandalheira mais do que uma situação de facto é um grito de alma que partilho. Mas ainda a tempo, e porque ainda mal iniciamos este caminho, aproveito para lançar as velas desta nossa nau comum e começar a soprar ideias, porque é esse o sentido da navegação que em conjunto empreendemos.

Comecemos pelos princípios.

Esta é uma nau pela direita, com clareza e modernidade nos princípios, feita de um olhar aberto e atento ao mundo que nos rodeia, mas firme e sólida nos valores que defendemos.

E por isso aqui vamos, nesta aventura pelos caminhos que pretendemos para uma direita em Portugal. Uma direita sem fantasmas, não temos complexos de culpa e genuinamente acreditamos que os valores que defendemos são superiores. Uma direita combativa e afirmativa, que não ceda a facilitismos de discurso e rejeite populismos serôdios. Uma direita de ideias, capaz de inovar nos pressupostos e afrontar nos princípios. Uma direita direita, porque de meios termos e mistificações estamos já fartos. Uma direita vencedora por afirmação e não por omissão. É preciso vencer pela força do que defendemos e não pela ausência do que não dizemos. Uma direita arejada. Há causas que temos que assumir e caminhos que devemos trilhar.

E por isso, porque é à direita que estamos, vamos lá soltar as velas e sulcar os mares da discussão, à procura do nosso cabo, mas a favor das nossas concepções e na defesa do nosso olhar sobre este mundo que nos envolve.

E é assim mesmo, à Direita e mais nada!

Luís Manuel Guarita

domingo, 28 de outubro de 2007

O Divórcio

Regressei há dias a Amarante, terra natal de Agustina, Amadeo de Souza-Cardoso, Teixeira de Pascoaes e tantos outros vultos da nossa cultura. Voltei a percorrer o empedrado das ruas do centro histórico, voltei a surpreender-me com a beleza do Tâmega, com a força do convento e da ponte de São Gonçalo, com a dignidade das gentes, com o carácter de uma velha urbe onde apetece ficar.

Nas ruas da cidade encontrei o bulício habitual. Gente que sai das igrejas, gente que entra nas lojas, crianças que correm pela ponte, mulheres calcorreando velozmente as calçadas, homens que conversam nas esplanadas, namorados que se abraçam nos jardins e, lá em baixo, a água do rio que corre imperturbável rumo ao Douro. A vida não pára em Amarante.

Tenho por aquela cidade uma admiração especial. Uma admiração reforçada no dia em que o povo decidiu infligir uma humilhante derrota autárquica ao inenarrável Senhor Avelino. Uma vergastada democrática aplicada no mesmo dia em que as elites de Oeiras reelegiam Isaltino e em que o operariado de Felgueiras se ajoelhava perante a sua Fátima. Naquele dia, foi de Amarante que veio um sinal de esperança. É verdade que respirei fundo, mas eu sempre soube que a dignidade daquela gente jamais seria trocada por uma voltinha de helicóptero ou por uma jantarada ordinária.

Quando visito uma cidade, gosto de me misturar com a sua gente. Sento-me numa esplanada, peço um chá e uma torrada e deixo-me ficar a escutar as conversas. Em Amarante fala-se do Futebol Clube do Porto mas também se discute a carreira do Amarante Futebol Clube, que lidera o campeonato nacional da 3ª divisão. Discute-se apaixonadamente o projecto de construção da barragem de Fridão e o aumento da cota da barragem do Torrão, obras que, a serem concretizadas, destruiriam grande parte da beleza do vale do Tâmega. Pelas mesas circulam o Jornal de Notícias e a Bola, mas as horas também são passadas a folhear o Jornal de Amarante e o Tribuna de Amarante. Comentam-se as notícias da cidade, lê-se que em breve serão concluídas as obras de reabilitação dos antigos paços do concelho de Santa Cruz de Ribatâmega. “Finalmente!” exclama alguém com ar indignado.

É assim a vida em Amarante, é assim a vida em qualquer cidade em que as pessoas tenham orgulho em viver.

De regresso à Amadora pensei no quão longe estamos daquela realidade. Falta-nos o Marão, falta-nos o Tâmega, mas falta-nos, infelizmente, mais do que isso.

Se conseguir encontrar uma esplanada frequentável, o que só por si não será tarefa fácil, ouvirei discutir o Benfica e o Sporting, mas dificilmente alguém se debruçará sobre o último jogo do Estrela da Amadora, clube que apesar de tudo está entre os maiores do nosso futebol. Ao meu lado, estará alguém a folhear apressadamente o Metro, o Destak ou o Dica da Semana, mas ninguém folheará o Grande Amadora, que já acabou, o Notícias da Amadora, cuja versão impressa já não se publica ou Jornal da Amadora, que embora exista ninguém lê.

Há na Amadora um profundo défice de amor pela cidade. Quantos de nós já visitaram os aquedutos e as mães de água que se espalham pelo concelho? Quantos de nós já tiveram oportunidade de conhecer a Necrópole de Carenque? Quantos de nós já se aventuraram num passeio pela lindíssima Mata da Fonte Santa? Quantos de nós tentaram visitar um moinho de vento, ex-libris deste concelho? Quantos de nós passearam recentemente pelo Jardim das Águas Livres? Quantos de nós se sentaram na esplanada do Parque Central, lendo um belo livro e observando os patos que passeiam as suas crias?

Imagino que poucos Amadorenses o tenham feito. Mas quem tentar fazê-lo vai, invariavelmente, bater com o nariz na porta. É que o aqueduto está fechado, a Necrópole de Carenque está vedada, a Mata da Fonte Santa está abandonada, os moinhos de vento estão em ruína, o Jardim das Águas Livres é uma fortaleza impenetrável e a esplanada do Parque Central, propriedade da autarquia, foi fechada há vários anos. São portanto as instituições e, muito em particular, a Câmara Municipal da Amadora quem promove o DIVÓRCIO entre os cidadãos e a cidade.

A nossa história, o nosso património, as nossas tradições – traços de que se faz a identidade de um povo – são considerados coisa menor. Detalhes irrelevantes, que sucumbem perante a urgência da grande empreitada.

Quanto à imprensa local, o raciocínio rudimentar de muitos dos nossos autarcas leva-os a considerá-la dispensável, a menos que colabore mansamente com o poder. Por outras palavras, jornal que se deixe meter no bolso é para apoiar, jornal que ouse afirmar a sua autonomia face ao poder político é para fechar. É o mesmo Portugal pequenino e bolorento que se revela em episódios como o saneamento político do professor Charrua ou a visita policial à delegação sindical da Covilhã. É um Portugal que mete dó.

João Castanheira

domingo, 21 de outubro de 2007

La Fregeneda - Barca d'Alva

Entre La Fregeneda e Barca d'Alva, ergue-se um dos mais belos trechos de via férrea do mundo. São 17 km de linha, desactivada em 1985, que inclui qualquer coisa como 20 túneis e 13 pontes. Um cenário digno dos mais fabulosos filmes de aventuras.

O passeio ao longo do que resta desta via é glorioso. Caminha-se entre penhascos sobrevoados por imponentes grifos. Atravessam-se pontes em ruína e túneis intermináveis, repletos de morcegos. Genial!

Foram milhares os trabalhadores que permitiram que em 1887 fosse inaugurada esta majestosa obra de engenharia. Uma obra que apesar de construída em Espanha foi planeada e executada por Portugal. Para lá de La Fregeneda, a linha prolongava-se até La Fuente de San Esteban, numa extensão total de 77 Km. Um projecto faraónico que, perfurando montanhas e unindo encostas, permitiria que as mercadorias provenientes de Espanha pudessem ser escoadas por mar, na cidade do Porto. Foi tal a empreitada que a banca portuense entrou em colapso. Eis algumas fotos da caminhada.

João Castanheira

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Vulcão dos Capelinhos

Manhã luminosa no Vulcão dos Capelinhos, Ilha do Faial, Açores:

João Castanheira


terça-feira, 11 de setembro de 2007

Fotografia Aérea

Sempre que viajo de avião escolho um lugar do lado da janela. Quando a rota, a altitude e as condições climatéricas o permitem, aproveito o tempo para apreciar a paisagem e tentar entender a organização do espaço que vou sobrevoando. O ordenamento do território é, sem dúvida, um dos mais fiáveis indicadores do nível de desenvolvimento de um país e, para o avaliar, nada melhor do que a janela de um avião.

Sobrevoar Portugal é quase sempre um exercício doloroso. As casas e as fábricas, as pedreiras e as barragens, os campos agrícolas improdutivos e as florestas queimadas sucedem-se e misturam-se sem uma lógica evidente.

Custa ter de o admitir, mas a verdade é que à medida que se voa para norte o território europeu vai progressivamente revelando um aspecto mais ordenado. No coração do continente, as cidades são habitualmente constituídas por uma área central densa mas organizada, rodeada por atraentes e desafogadas zonas residenciais, após as quais surgem, bem delimitadas, áreas industriais activas e campos onde ainda se pratica agricultura. A harmonia na organização do espaço atinge a perfeição na Escandinávia.

Quanto a Portugal, lá de cima imagina-se o que se passa cá em baixo. O caos e a desordem que se observam do ar são indicadores claros de falta de planeamento, crescimento anárquico, incompetência generalizada e corrupção crescente.

Aos poucos, o país vai-se transformando num medonho eucaliptal, bordejado por um espesso anel de construção civil que se debruça sobre o mar. Aqui e ali, umas quantas bolsas de natureza vão estoicamente resistindo ao “progresso”. Até quando?

Eis a fotografia aérea daquele que foi outrora um dos mais belos países da Europa. O retrato do país onde um passado glorioso e um povo heróico convivem com a mais chocante boçalidade e o mais retrógrado provincianismo. O país onde um anedótico presidente da Associação Nacional de Municípios incita a população a correr à pedrada os funcionários do Ministério do Ambiente, pois essa gente “obstaculija o dejembolbimento”. Verdadeiramente medieval.

Há dias, tive a oportunidade de sobrevoar a Amadora a baixa altitude. Vista do céu, a nossa cidade chega a assustar. A impressão que deixa é a de uma amálgama de construção disforme, constituída por uma malha urbana caótica e desprovida de sentido lógico. Uma selva de betão parcialmente cercada por uma cintura de construções abarracadas. Da janela do avião dificilmente se vislumbra um pedaço de solo livre, uma nesga de verde.

Pelo meio do tecido urbano consolidado, umas manchas acastanhadas vão sendo imparavelmente esventradas por bulldozers: a Serra de Carnaxide, o Casal da Mira, o Casal de Vila Chã.

Ao longo dos últimos 50 anos, o futuro da nossa cidade foi depositado nas mãos de um punhado de patos bravos, a quem tudo foi permitido. Em matéria de ordenamento do território, as opções políticas têm consequências. E que consequências!

Numa área com menos de 24 km2 vivem 176.000 habitantes, donde resulta uma densidade populacional de 7.400 habitantes por km2. Em nenhuma outra zona do país se amontoa tanta gente numa tão exígua porção de território. Nem em Lisboa, nem no Porto, nem em Sintra, Gaia ou Gondomar. A densidade populacional da Amadora é 3 vezes superior à média das cidades portuguesas, 66 vezes superior à densidade populacional de Portugal.

Como o débil tecido empresarial do município foi aos poucos definhando, pela manhã toda esta gente ruma aos seus postos de trabalho nos concelhos vizinhos, entupindo as estradas e enchendo os comboios. Vagas de gente que, frequentemente, vem à Amadora apenas para dormir.

O esforço de qualificação do espaço público a que vimos assistindo ao longo dos últimos anos é por si só insuficiente para resolver o problema de fundo que atormenta a nossa cidade. É que, simultaneamente, a gestão camarária socialista insiste num modelo de crescimento anacrónico e delirante. Desde que chegou à Amadora, em 1997, Joaquim raposo aprovou, de forma acrítica, a construção de casas para 40.000 novos habitantes.

E veja-se o que se prepara para a Quinta do Estado, área estratégica para o desenvolvimento sustentável do município, onde é imperioso fazer diferente e fazer melhor. O criminoso Plano Director Municipal da Amadora considerou aquela área, à semelhança de praticamente todas as outras, como uma zona de alta densidade de construção. Não satisfeita com o banquete, a gestão autárquica socialista prepara-se para tentar alterar o PDM, aumentando em 25% o índice de construção permitido na área da Falagueira-Venda Nova.

A singela e inocente alteração do PDM resultaria, a preços de mercado, num aumento do lucro líquido dos promotores imobiliários superior a 150 milhões de euros. Isso mesmo, 30 milhões de contos a somar ao lucro normal que a gigantesca operação imobiliária renderá se respeitar as regras actuais.

Um enriquecimento ilegítimo e intolerável, porque conseguido à custa de uma insuportável deterioração da qualidade de vida de centenas de milhar de cidadãos.

João Castanheira

sábado, 1 de setembro de 2007

Ota: a Muralha Começa a Ceder

Como muitos outros portugueses, sou frequentemente forçado a viajar para fora do país por motivos de ordem profissional. Na maior parte das vezes saio por um dia ou dois, com o tempo contado, para participar numa reunião ou numa conferência, beneficiando de uma comodidade que vale ouro nos dias que correm – quer saia de casa quer saia do escritório, chego ao Aeroporto Internacional de Lisboa em menos de trinta minutos.

É esta mesma comodidade que tem trazido para a Área Metropolitana de Lisboa um número crescente de congressos, seminários e conferências internacionais. A mesma comodidade que trás um número cada vez maior de turistas, que escolhem a região de Lisboa para uma curta estadia de férias, muitas vezes não mais do que um fim-de-semana, em que cada hora conta.

São estes profissionais e estes turistas que enchem os hotéis, que geram movimento nos restaurantes, que dão vida ao comércio e que visitam os museus e outros equipamentos culturais. São eles que alimentam um sector da economia que é cada vez mais estratégico para o país – o turismo.

É tudo isto que estaremos a pôr em causa se o Governo do Partido Socialista insistir em construir um resort aeroportuário de luxo, encavalitado entre cabeços e pântanos, a 50 km de distância do centro de Lisboa.

Tamanha insensatez poderá satisfazer o interesse da indústria da construção, legitimamente empenhada em erguer um aeroporto tão caro quanto possível. Tão leviana decisão poderá satisfazer o interesse de quem oportunamente comprou, a preço de saldo, os terrenos em redor da Ota e que agora espera realizar mais-valias milionárias. Tão obtusa opção fará até crescer água na boca aos empreiteiros do costume, muitos dos quais salivam perante a possibilidade de construir um novo Cacém em plena Portela. O que já não há dúvidas é que a construção de um aeroporto internacional na Ota não serve o interesse nacional, o que não é coisa pouca.

É por isso que se estranha o silêncio cúmplice de muita gente com responsabilidades políticas importantes. Falo, em particular, dos autarcas que gerem os destinos dos municípios que sofreriam com a construção do Aeroporto da Ota. É que o golpe não afectaria apenas Lisboa. Teria consequências dramáticas em toda a Área Metropolitana, incluindo, obviamente, a Amadora.

É assim verdadeiramente notável que, na moção de estratégia com que se candidatou a Presidente da Federação da Área Urbana de Lisboa do Partido Socialista, Joaquim Raposo assuma a defesa da construção do Aeroporto da Ota como uma das suas prioridades. Não se vislumbrando em tal empreitada qualquer interesse para os cidadãos da Amadora, imagino que o tenha feito por fidelidade partidária. Imagino também que à medida que a poeira vai saltando debaixo do tapete, o Presidente da Câmara Municipal da Amadora se arrependa de ter saído em defesa da Ota. É que sendo igualmente exótica, a ideia de construir um aeroporto internacional nos subúrbios de Alenquer é apesar de tudo bem mais gravosa para o país do que a peregrina ideia, já em marcha, de encavalitar uma pista de ski em cima do IC19. A insensatez tem os seus limites.

Entretanto, perante as visíveis dificuldades em que se encontrava o recém nomeado Ministro de Estado e da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, o Governo decidiu oferecer-se uma pausa de seis meses, tentando dessa forma adormecer o tema que ameaçava ensombrar a candidatura socialista à autarquia lisboeta e esperando que o futuro ex-Ministro Mário Lino refreie as suas pulsões suicidárias.

O Primeiro-Ministro de Portugal é um homem obstinado mas inteligente. No momento em que os argumentos em defesa da Ota começavam a resvalar para o domínio do absurdo, percebeu que as coisas não estavam a correr bem. E, guiado pelo seu instinto de sobrevivência, decide anunciar a encomenda ao LNEC de um estudo comparativo sobre a localização do futuro aeroporto. É um bom sinal, até porque apesar de tutelado pelo Ministro da Obras Públicas, o LNEC não é conhecido por elaborar estudos daqueles em que a conclusão é ditada por quem paga a conta.

Pena é que o estudo seja demasiado restritivo, voltando a confrontar apenas duas localizações e deixando de lado aquela que parece ser, claramente, a solução que melhor defende os interesses da cidade de Lisboa e do país – manter em funcionamento a Portela, complementando-a com um segundo aeroporto, vocacionado para a operação das companhias low-cost. Até porque ficou agora a saber-se que o crescimento do movimento na Portela se deve, essencialmente, à explosão do mercado dos voos de baixo custo.

Quem voa de ou para Lisboa por um punhado de Euros seguramente que não protestará se aterrar, por exemplo, no Montijo. Da mesma forma que quem voa para Londres numa companhia low cost não está espera de aterrar em Heathrow. Fica feliz da vida se aterrar em Gatwick, Stansted ou Luton.

Não tenho grandes ilusões acerca deste interregno estratégico de seis meses decretado por José Sócrates. Provavelmente, para além de um gigantesco e cristalino aquífero, vão surgir em pleno campo de tiro de Alcochete umas fantásticas gravuras rupestres ou um casal lampreias em nidificação. Seja como for, a verdade é que a muralha começa exibir as primeiras brechas.

O episódio do deserto foi, indiscutivelmente, o ponto de viragem. O momento em que, na ânsia de se afirmar como o maior defensor da Ota, o Ministro Mário Lino se transformou no seu maior detractor. Na mesma altura, tomado por uma aflição a roçar o febril, o dr. Almeida Santos ameaçava o país com o risco de dinamitagem das pontes. Como se, num ápice, tivéssemos passado a viver no farwest. Tornou-se claro que a linha do mais elementar bom senso havia sido ultrapassada. A obsessão pela construção de um aeroporto aninhado no pantanal de Alenquer tinha definitivamente tomado conta do Partido Socialista.

João Castanheira