quarta-feira, 30 de abril de 2008

A culpa e o remorso

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A culpa, nas sociedades em que habitamos, é, fundamentalmente, uma construção cultural enquadrada por paradigmas definidos nas grandes religiões do nosso tempo. Neste particular e em concreto a culpa cristão decorre da nossa, simplista no modo como aqui a exponho, intuição do erro, do pecado. Ao termos consciência da culpa, capacitamo-nos da quebra que estabelecemos em relação a um quadro de valores que procuramos seguir e por isso a culpa é, para além da assumpção interior e religiosa que cada um faz dela, um mecanismo de salvaguarda desses valores e princípios em que aceitamos viver e conviver com os outros. A perda deste sentimento e a sua anulação representam, por isso, a perda progressiva de um referencial de valores e uma tendência para a alienação, individual e social, com todas as consequências que daí possam advir.

O remorso, nas suas múltiplas dimensões, é a consequência da culpa. Este sentimento, tão escondido no nosso dia a dia, mas tão presente nas sensações mais íntimas de cada um de nós é, mais do que qualquer outro, uma garantia absoluta de humanidade e de capacidade de compreensão de que há actos, que pelas consequências que geram, potenciam uma alteração grave ao padrão de valores com que nos orientamos e por isso uma falta para connosco próprios e para com os outros.

Vem isto a propósito de duas questões recentes, diametralmente opostas, mas reveladoras do quanto a perda de um quadro de valores fortes e determinantes é grave para as sociedades em que vivemos.

Em primeiro esta inacreditável estória do Sr. Fritzl e da filha que ele manteve em cativeiro durante 24 anos, violando sucessivamente, e da qual teve 7 filhos. Para lá da bestialidade de tudo isto há, como tão bem referia o Director do Público, a questão dos valores e nela emerge a questão do remorso. Não tem, nunca terá tido, ao longo de todos aqueles anos, aquele homem qualquer remorso pelo que estava a fazer a uma filha sua, na cave da sua própria casa e ao mesmo tempo em que vivia com os restantes filhos e mulher? Como pôde? Não ter tido significa simplesmente que o mal germina onde não existem valores, nos locais mais esconsos da natureza humana onde qualquer humanidade é impenetrável e onde o quadro de referências onde nos devemos situar simplesmente não existe, só assim pode não haver remorso, só assim pôde haver 24 anos de indizível horror perpetrados por um homem absolutamente pacato. Ou como nos disse Hannah Arendt, para outros fins mas com um mesmo objectivo, a banalidade do mal.

Em segundo, a questão da eliminação da culpa nos processos de divórcio. Abstraiamo-nos, neste caso, da vacuidade política e putativa simplificação administrativa do problema e concentremo-nos na questão dos valores. A decisão de abolir este preceito remete-nos, imediatamente, para a desconstrução progressiva do invólucro de valores que nos deve guiar. Acharmos, na pacatez das nossas tendências que um acto, seja que acto for, não tem ou representa qualquer quebra dessa cadeia de valores e entendermos que a assumpção da culpa é irrelevante, é, simplesmente, o caminho certo para o descalabro das sociedades que até aqui temos construído. Se tudo um dia for relativo então acreditar que subsistem sempre valores absolutos e intocáveis é não mais que um anacronismo absurdo e datado, o que, objectivamente nos garantirá, a todos, um bilhete de regresso à lei da selva. E para quem não se recorda, nessa lei, subsiste fundamentalmente um valor: sobreviver.

E assim, ao observarmos estes dois exemplos, e sem querer fazer entre eles qualquer paralelo, porque não há, nem pode haver, sublinho, constatamos o quanto o caminho do relativismo se vai fazendo, como se o nosso relógio após vinte séculos de construção civilizacional subitamente voltasse ao zero e começasse a fazer o caminho inverso.

Luís Manuel Guarita

Uma democracia à maneira


Li, por estes dias, que em Angola e tendo em vista as próximas eleições (próximas é um eufemismo meu porque em boa verdade não me recordo de quando foram as últimas), está em preparação uma alteração legislativa que visa distanciar no tempo a divulgação dos resultados eleitorais do acto em si. Uma coisa simples, dizem eles, sem nada de mais, apenas destinada a adaptar a complexidade destes processos à realidade do país.

Tudo isto, escrito escorreitamente e sem considerações de maior, poderia, ao mais distraído dos leitores, parecer um acto da mais absoluta naturalidade. Contudo e se nos concentrarmos no país onde tal medida está a ser preparada, Angola, nos seus pregaminhos democráticos, nos recentes acontecimentos do seu aliado e protegido Zimbabwe e no assinalável facto de um navio, que navegando pelas águas do atlântico sul acaba de despejar a sua carga (armas) no porto de Luanda a caminho das mãos dos facínoras ainda no poder em Harare, país onde nas últimas eleições a divulgação dos resultados eleitorais trouxe uns pequenos problemas à clique do Sr. Mugabe, tudo começa a ser mais límpido e objectivo.

Em suma, há, do ponto de vista de alguns em Angola, que precaver o futuro, não vá o povo fazer das suas e, nas tais eleições que um dia hão de ocorrer na pátria dos Palancas Negras, ter a triste ideia de apear pelo voto os seus actuais e iluminados dirigentes.

Assim e como se vê, em Angola, a democracia lá vai caminhando à maneira, a deles, ou melhor, a de alguns.

Luís Manuel Guarita

terça-feira, 29 de abril de 2008

Está tudo bem

Este domingo, um homem entrou na esquadra da PSP de Beja, partiu o maxilar do subchefe e esmurrou o agente que se encontrava de serviço.

Umas horas depois, uma dezena de indivíduos invadiram a esquadra da PSP de Moscavide, espancaram um homem que aí se tinha refugiado e saíram sem serem sequer identificados.

De acordo com o comando da PSP, não há razões para alarme.
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Está tudo bem!

João castanheira

José Sócrates bateu mais um recorde

José Sócrates bateu mais um recorde. O da maior perda de poder compra dos últimos 30 anos.

De acordo com os dados ontem divulgados pela Comissão Europeia, 2008 será o terceiro ano consecutivo com variação negativa nos salários reais dos trabalhadores. O governo socialista é assim responsável pelo “período mais longo de perda do poder de compra dos assalariados portugueses durante as últimas três décadas”, escreve hoje o jornal Público.

José Sócrates tinha já batido vários outros recordes de assinalável gabarito, entre os quais o da maior taxa de desemprego dos últimos 21 anos – 8,2% - atingido no passado mês de Dezembro.

Perante este notável desempenho, continua a ser do domínio do sobrenatural o estado em que se encontram os partidos da oposição, com particular destaque para o PSD.

Para mais quando, entretanto, o país tomou conhecimento da forma como o primeiro-ministro “tirou” a sua licenciatura ou dos “projectozitos de barracões” que assinava para sacar umas massas.

João Castanheira

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O pior da nossa história


Em entrevista concedida ao El Pais, Otelo Saraiva de Carvalho diz ter sido o guionista, o protagonista e o realizador do 25 de Abril.

O filme de que fala Otelo foi feito de mandatos de captura assinados em branco, prisões arbitrárias, ocupações selvagens, nacionalizações criminosas e uma descolonização assassina. Um verdadeiro filme de terror.

Uns anos mais tarde, Otelo protagonizou e dirigiu um outro filme, de que provavelmente também se orgulha. A sequela do seu 25 de Abril incluiu a tentativa de imposição, à bomba, duma ditadura de inspiração soviética em Portugal.

Há poucos "heróis da liberdade" que apelem tanto ao vómito como Otelo. Assim de repente, só me consigo lembrar do Rosa Coutinho. Ambos representam o pior da nossa história recente.

João Castanheira

domingo, 27 de abril de 2008

Timor a caminho do desastre?


Depois de ter tentado abater o presidente da república e o primeiro-ministro, esse ícone timorense que dá pelo nome de Gastão Salsinha está em casa, a descansar com a família. É isso mesmo que escreve a Felícia Cabrita no semanário Sol.

A notícia diz ainda que o Salsicha vai receber em sua casa a visita do presidente do parlamento, Fernando Lassama de Araújo. Mas aí eu acho que já é a Felícia Cabrita a meter-se connosco.

Segundo o Sol, com o Salsicha apareceram também o Zé e o André, pistoleiros que presumivelmente estarão também a bater choco junto dos seus.

O descanso é merecido. Em boa verdade, esta rapaziada andava aos tiros há vários anos, na companhia do seu malogrado chefe – o major Alfredo Reinado. E como ainda não conseguiram acabar de vez com Timor, imagino que lhes sobre algum trabalho pela frente. Por isso, nada melhor do que descansar uns dias no aconchego do lar.

E pensar que tanta gente – sobretudo os timorenses, mas não só – lutou para que aquilo se transformasse num país a sério.

João Castanheira

sábado, 26 de abril de 2008

Angola despeja gasolina na fogueira do Zimbabwe

Atracou hoje em Luanda o navio chinês carregado com material de guerra destinado ao regime de Robert Mugabe.

Depois da autorização de desembarque de armamento ter sido recusada pelas autoridades da África do Sul e de Moçambique, não se esperava outra atitude por parte dos amigalhaços angolanos.

Numa lógica de afrontamento da comunidade internacional, o governo angolano diz que apenas autorizou o descarregamento de “material não especificado”.

Perdidas as eleições, o ditador de Harare prepara-se agora para guerra. Neste cenário, fazer entrar armas no Zimbabwe é o mesmo que despejar gasolina em cima duma fogueira.

Mas do regime despótico da família Santos e seus generais há sempre que esperar o pior. Os massacres de 1975, 1977 e 1991 dão-lhe, aliás, as mais altas qualificações em matéria de carnificinas e banhos de sangue.

Já quanto a eleições, Luanda e Harare partilham a mesma máxima: primeiro evitar, segundo martelar, terceiro disparar.

João Castanheira

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Deboche


Patinha Antão declarou hoje à Lusa que se porventura não vencer as directas para a liderança do PSD – cenário em que não acredita – gostaria que o candidato vencedor fosse Alberto João Jardim.

O deputado social-democrata atirou ainda que quem vencer deve liderar o partido “não apenas por dois anos, mas por um período que vai até 2017”.

Não sei se as declarações foram feitas à saída duma rave ou à entrada para uma reunião do secretariado nacional do PS.

Mas, seguindo a mesma linha de devolução de credibilidade ao PSD, eu proponho uma candidatura ainda mais inimputável e fracturante: Kumba Ialá, com um mandato até 2047, renovável por períodos de 30 anos.

João Castanheira

sábado, 19 de abril de 2008

Control


Vi, há dias, o filme Control, de Anton Corbjin, baseado nos Joy Division e em particular, na vida de Ian Curtis. Confesso que não me entusiasmou por aí além, mas que, apesar disso, recomendo. E recomendo sobretudo porque me relembrou a música de um grupo fascinante e, em particular, a notável influência que este teve nalguma da melhor música que se fez em Portugal a partir do início da década de 80.

Há tempos o João relembrava aqui um álbum luminoso que é um filho perfeito da música dos Joy Division, o A Um Deus Desconhecido dos Sétima Legião. Outros ouve, que beberam daquela fonte, que, apesar da morte prematura do vocalista, deixou uma marca de renovação profunda no panorama musical global, marca essa que, ainda muito novo, recordo nas entusiásticas palavras do Miguel Esteves Cardoso.

Para quem queira ouvir e apreciar, aqui fica um vídeo de Transmission, retirado do You Tube: http://www.youtube.com/watch?v=6ZwMs2fLoVE

Luís Manuel Guarita

De nacionalização em nacionalização.

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O BCP, como todos sabemos, foi nacionalizado pelo partido socialista. De maior banco privado português, passou, como se de um passe de mágica se tratasse, a coutada socialista. Até aqui, tudo como sempre, o Partido Socialista no seu melhor e o BCP a caminho do seu pior. Nada de muito estranho, quando observado de acordo com os actuais padrões aqui da West Coast.

Contudo e onde já tudo começa a assumir foros de patologia é no singelo facto de este banco em particular, que é, note-se, o maior banco privado português, estar à beira de cair no bolso da Sonangol. Empresa que, também por acaso, até já tem no bolso outro símbolo português, a Galp.

Confesso-vos que em teoria nada me move contra este processo em especial. Em qualquer economia saudável as empresas compram-se e tomam posições umas nas outras. A questão que aqui deixo é se esta empresa, dada a sua natureza, fontes dos seus recursos e detentores efectivos desses mesmos recursos, é a parceira que efectivamente pretendemos para duas empresas centrais na nossa economia, como o BCP e a Galp? É que, sublinhe-se, o que aconteceu na Galp e está, pelos vistos, a caminho de acontecer no BCP, é que ambas estão a ser nacionalizadas pelo governo Angolano.
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E será que isto faz sentido?

Luís Manuel Guarita

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Portugal atrai investimento


Acaba de ser engavetado o distinto empresário que se prontificara a investir 38,5 milhões de euros no Boavista.

Surpreendentemente, os milhões não aparecerem e, segundo revela o semanário Sol, o senhor Sérgio foi bater com os ossos nos calabouços da polícia judiciária. Em boa verdade, esta história só podia acabar no xadrez.

A detenção do senhor Sérgio abalou a confiança que havia tomado conta do sector desportivo, pondo em causa a onda de investimentos que está a caminho de Portugal.

Em declarações à Lusa, a direcção do Borussia da Brandoa diz-se muito preocupada, porque "ao final do dia de ontem passou pelo bar do clube o senhor Reinaldo, prontificando-se a oferecer 1.000 milhões de dólares ao emblema brandoense, em troca do naming do complexo de chinquilho. Irá o Zé Reinaldo cumprir com a sua palavra?”, perguntava consternado o presidente da direcção.

João Castanheira

O caco maior

Segundo Pacheco Pereira, Menezes "está a fazer mais uma rábula para regressar à presidência do PSD com um projecto inquisitorial". De acordo com a tese de Pacheco, a lógica de Menezes é "espatifar o partido para acabar agarrado ao caco maior".


João Castanheira

E esta... heim?!

Luís Filipe Menezes conseguiu surpreender o país e, sobretudo, os adversários internos, que não contavam com esta atitude ou muito menos com este calendário. Para quem só sairia à bomba, o presidente do PSD deu provas de uma inesperada lucidez e de um admirável desprendimento.

Ou será, como dizem alguns espíritos mais conspirativos, que se trata de pura táctica política? A primeira etapa duma vaga de fundo, carregada de fervor basista, que tornará inevitável uma recandidatura e uma nova vitória interna. Um cenário que, diz-se, poderia desaguar numa purga à “angolana”, seguida duma cisão histórica no partido.

Enfim, certo é que o tempo dos calculismos parece ter definitivamente acabado. Quem esperava resguardar-se duma “derrota inevitável” em 2009 e aparecer como salvador do partido após as próximas legislativas – atitude bem pouco patriótica diga-se – viu o tapete fugir-lhe debaixo dos pés.

Acabaram os ameaços. Agora é pegar ou largar.

Rui Rio, Pedro Passos Coelho, Manuela Ferreira Leite, Nuno Morais Sarmento, José Pedro Aguiar Branco, António Borges, Marcelo Rebelo de Sousa, Alexandre Relvas, Pedro Santana Lopes... E agora?

Alguns destes nomes, particularmente os primeiros da lista, fazem tremer José Sócrates. Outros fazem-no sorrir e nem é preciso dizer quais.

Será o PSD capaz de fazer valer o seu instinto de sobrevivência?

João Castanheira

quinta-feira, 17 de abril de 2008

O Xenhor Abelino


O julgamento do Xenhor Abelino é um permanente apelo à viagem.

A principal testemunha acusa o réu de o ter despachado para o Brasil, com o objectivo de remetê-lo de vez para o outro mundo. O trabalho seria executado a tiro num pinhal do nordeste brasileiro.

O senhor Faria acusa aliás o coronel Torres de exportar com muita frequência testemunhas de acusação para o Brasil e para Angola. Parece ser prática corrente lá para os lados do Marco de Canavezes.

Há neste folhetim um insuportável cheiro a pólvora. As personagens, de pistola no coldre, remetem-nos para a Chicago de Capone ou para a muito Siciliana cidade de Corleone.

O Xenhor Abelino diz que há muitos “javardos” dentro do tribunal. Eu vou mais longe e digo que há demasiada imundice a saltar debaixo deste tapete. Tanta que me apetece entrar num avião e só parar em Estocolmo. Mas com este tipo de posts qualquer dia ainda acabo entaipado ao lado do senhor Faria.

João Castanheira

terça-feira, 15 de abril de 2008

Jardim declara independência e adesão à União Africana











Segundo o presidente do governo regional, "daria uma péssima imagem da Madeira mostrar o bando de loucos que está dentro da Assembleia Legislativa Regional".
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Em declarações reproduzidas no Jornal de Notícias, Jardim considera que "o fascista do PND, o padre Edgar e aqueles tipos do PS" iam dar "uma imagem péssima da Madeira e isso ia ter repercussões negativas no Turismo e na própria qualidade do Ambiente".
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Jardim disse ainda sentir vergonha dos seus opositores, ao mesmo tempo que garante que "eu não apresento aquela gente a ninguém".
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João Castanheira

domingo, 13 de abril de 2008

Uma absoluta obra-prima!


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Genial! Às vezes do nada, surgem coisas destas.

O Livro, As Benevolentes, escrito em francês, no original, por um jovem norte-americano de nome Jonathan Littell - que tem neste livro sua primeira obra (de facto não é, há outra, mas ele renegou-a) -, e editado em Portugal pela Dom Quixote, é uma maravilha literária

As suas mais de 800 páginas, pautadas por Bach, dão-nos a condição humana em toda a sua crueza e horror e garantem-nos, que hoje como ontem, entre a beleza e sensibilidade de cada homem, há sempre o mal absoluto!

Para ler, com paciência e sem preconceitos. 

Luís Manuel Guarita

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Os Simpsons vs Chávez


A Venezuela proibiu Os Simpsons, o que é uma péssima notícia, pois eu tinha a secreta esperança de que fossem Os Simpsons a proibir a Venezuela.

As autoridades venezuelanas alegam que Homer e família são uma má influência para as crianças do país. Mas eu pergunto se haverá pior influência para as crianças venezuelanas do que o próprio Chávez, figura que não seria recomendável nem como super-herói de banda desenhada.

Para além do insuportável odor a bafio, há nesta proibição uma imensa dose de estupidez. É que Os Simpsons são uma sátira mordaz e inteligente ao american way of life. Porventura demasiado inteligente para Chávez.

É curioso que no preciso momento em que a família Castro decide liberalizar a panela de pressão, a família Chávez decide proibir o desenho animado. É a Venezuela a lutar por transformar-se na Cuba do século XXI.

João Castanheira

terça-feira, 8 de abril de 2008

Até breve Atlântico


A Atlântico era um espaço de liberdade sem paralelo no panorama editorial português. Uma revista de ideias arejada, onde se escrevia com inteligência e criatividade

Havia quem lhe torcesse o nariz, por considerá-la demasiado acantonada às correntes liberais. Eu sempre discordei. Havia quem a considerasse “excessivamente independente”, o que para alguma da fauna que por aí circula constitui um pecado capital.

A direcção editorial da Atlântico decidiu suspender a publicação da revista por falta de investimento publicitário.

Eu, que tenho a mania da perseguição, reparei que um dos suportes publicitários da Atlântico – o BCP – deixou de anunciar na revista em Janeiro. Ora, esse foi precisamente o mês em que o BCP foi “intervencionado” pelo Estado. Trata-se, obviamente, duma mera coincidência.

É que no dia em que o poder político se der ao trabalho de sufocar economicamente uma pequena revista de ideias, Portugal terá deixado de ser a West Coast of Europe transformando-se no verdadeiro WC da Europa.
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Até breve Atlântico!

João Castanheira

Um país mais pobre...

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Num país onde o debate de ideias, escrito nas páginas de jornais e revistas, não abunda, é triste ver desaparecer uma Revista como a Atlântico.

Ao se perder mais esta magnífica revista, ficámos todos mais pobres.

As ideias, independentemente da orientação que transmitam, quando abertas à discussão e ao contraditório, são um marco de qualquer democracia e um sintoma do quanto essa democracia é saudável. Os meios que as veiculam e que as promovem são por isso seu património e, também por isso, elementos centrais da sua dinâmica. Assim, num país que tende para o conceito de ideia única, tão querida a tantos nesta west coast of europe, a perda de pequenos espaços de debate como a revista Atlântico são grandes rombos e uma enorme perda para todos aqueles que, como eu, acreditam que na vida nada há de melhor que o são confronto de ideias.

Deixo, no entanto, a minha homenagem aos que ao longo do tempo a foram imaginando e escrevendo e espero, ansiosamente, que nos possamos rever brevemente, num novo projecto de idêntico teor.

Luís Manuel Guarita

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Carlos Zorrinho dixit...

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Ponto prévio. Carlos Zorrinho é Coordenador Nacional do Plano Tecnológico e Professor Universitário.

Transcrevo uma citação do próprio, lida num artigo de um jornal segundo a qual o Senhor em causa teria escrito o seguinte: "A vida é hoje cada vez mais multifuncional. Ao mesmo tempo que vemos televisão, lemos, escrevemos, jogamos e falamos! É isso que os jovens estudantes fazem quando estudam com música alta, o computador ligado e o telemóvel pronto a trocar mensagens. É assim que aprendem e é nesse ambiente que vão criar valor. E a escola? A escola é cada vez mais isso nos intervalos, nas actividades lúdicas e complementares, mas não tem ainda condições para ser isso nos períodos formais das aulas..."

E agora digam lá se não gostavam de assistir a uma aula deste Professor?

Luís Manuel Guarita

Ainda sobre o ar que se respira nesta latrina...

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Note-se o seguinte. O Eng. Ferreira do Amaral, que foi Ministro da Obras Públicas, é, na interpretação de muita boa gente, um quase pária, já que aceitou um cargo na Concessionária das Pontes Vasco da Gama e 25 de Abril.

E agora pergunto eu. E então o ex-Ministro das Obras Públicas, Dr. Jorge Coelho, que agora nos surge como próximo Presidente da Mota-Engil, que é? Um anjinho?

É nestas alturas que, entre outras coisas, se torna interessante ver os compactos da Quadratura do Círculo e escutar algumas das prédicas que o venerável Jorge lá pregou sobre questões similares.

Como diz o povo, é pela boca que morre o peixe.

Luís Manuel Guarita

quarta-feira, 2 de abril de 2008

O ar nesta latrina está a tornar-se irrespirável


Face ao estado esfrangalhado da oposição, já toda a gente percebeu que o PS continuará no poder, pelo menos, até 2013. Temos portanto pela frente mais 5 anos de governo Sócrates.

Vai daí que a nossa sempre atenta iniciativa privada, especialmente aquela que depende dos grandes negócios com o Estado, tenha decidido lançar uma OPA às personalidades mais influentes do Partido Socialista. As coisas passam-se às claras.

Hoje, soube-se que Jorge Coelho, ex-ministro das obras públicas e uma das mais influentes personalidades do PS, se prepara para ser presidente da Mota-Engil, a maior construtora do país.

Há não muito tempo, assistimos à forma humilhante como o Millennium BCP se colocou nas mãos do Estado, contratando para a sua administração Armando Vara, “reputado banqueiro” e amigo do primeiro-ministro.

Um pouco antes, Joaquim Pina Moura, ex-ministro da economia, foi contratado para presidir à Média Capital (TVI).

A iniciativa (pouco) privada já percebeu que para segurar os negócios com o Estado precisa de recrutar gestores no Largo do Rato. E o Largo do Rato já percebeu que tem uma oportunidade de ouro para se sentar em cima da economia.

As mensagens que emanam do governo são claras:

A Goldman Sachs perdeu os contratos com o Estado por delito de opinião de António Borges? Tenham cuidado com a língua e contratem um ex-ministro socialista!

Há grupos de comunicação social interessados em concorrer ao quinto canal de televisão? Tenham cuidado com a língua e contratem um ex-ministro socialista!

Como dizia o outro, o ar nesta latrina está a tornar-se irrespirável.

João Castanheira

segunda-feira, 31 de março de 2008

A festa da democracia


Eis a notícia que todos esperávamos: “O fantasma da fraude nas eleições no Zimbabwe pode ser colocado de parte”. A afirmação é de Marcos Barrica, coordenador da missão de observação eleitoral da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).

Diga-se que Marcos Barrica é o ministro da juventude e desportos de Angola, país que foi encarregue de chefiar a missão de observação eleitoral da SADC.

Parabéns à SADC, pois a tarefa de chefiar a verificação dum processo eleitoral democrático não poderia ter sido melhor entregue. Como sabemos, Angola é hoje uma democracia madura e consolidada, referência democrática aclamada internacionalmente pela lisura e pela transparência com que decorrem os seus frequentes processos eleitorais.

Pouco importa que as últimas eleições legislativas em Angola tenham ocorrido há 17 anos e que tenham terminado com a eliminação física dos principais dirigentes da oposição. Pouco importa que o presidente da república esteja no poder há 30 anos sem nunca ter sido legitimado democraticamente. Pouco importa que jamais tenham ocorrido em Angola eleições autárquicas.

Em boa verdade, as eleições no Zimbabwe são é uma grande chatice. O povo pensa que vota, os observadores da SADC fazem de conta que observam e Mugabe finge que conta os votos.

Ou muito me engano ou o tiranete sanguinário sairá em ombros, para gáudio da vizinhança.

João Castanheira

domingo, 30 de março de 2008

Bandalheira

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Ainda sobre a bandalheira revelada pelas imagens da escola Carolina Michaëlis, não resisto a transcrever o comentário dum participante anónimo no debate lançado pelo Público:
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"À luz da retórica actual, a professora ali agredida deve ser penalizada na sua avaliação porque, manifestamente, não sabe motivar a aluna.
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Quanto à agressora? Deve ser compreendida e apoiada, já agora com uns planos compostos por muitas fichas do tipo: aprender a aprender... aprender a ser... ser e aprender... ser e ser... estar e aprender... elaboradas pela professora agredida".
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João Castanheira

sábado, 29 de março de 2008

Revolução e torradas

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Uma irreprimível fúria libertária tomou conta de Cuba. Depois de ter legalizado as panelas de pressão e os micro-ondas – objectos descaradamente subversivos – o regime da família Castro autorizou agora a comercialização de telemóveis.

Eu acho mal. Qualquer dia, os cubanos são autorizados a comer como gente normal, o que tornará inevitável o aburguesamento da revolução.

É certo que, de acordo com o despacho do governo, a liberalização das torradeiras não acontecerá antes de 2010, o que refreia um pouco o carácter reaccionário das mudanças em curso.

Mas será a moratória às torradas suficiente para travar o avanço do capitalismo?

João Castanheira

sexta-feira, 28 de março de 2008

O Estado que somos...

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Li hoje, no jornal Público, um artigo de J. Bradford DeLong onde são transcritos cinco princípios elementares que, de acordo com o falecido economista Milton Friedman, são centrais à vida (saudável digo eu) de qualquer estado, nomeadamente no que se refere à intervenção do seu governo. Passo a transcrevê-los:

1. Uma política monetária fortemente anti-inflacionista;

2. Um governo deve actuar como agente do povo e não como distribuidor de favores e benefícios;

3. Um governo não deve imiscuir-se nos negócios económicos de cada um;

4. Um governo não deve imiscuir-se na vida privada das pessoas;

5. Acreditar de forma entusiástica e optimista que o debate livre e a democracia política podem persuadir os povos a adoptar princípios;

O governo português em cinco, respeita um, e esse que respeita decorre tão somente de uma obrigação que lhe é imposta externamente, mais concretamente pelo Banco Central Europeu.

Em suma, é este o governo que temos e o Estado que somos.

Luís Manuel Guarita

quarta-feira, 26 de março de 2008

O meu país é o país mais estúpido do mundo!



Custa-me afirmá-lo, mas é verdade. E digo-o porque só assim consigo compreender a decisão de destruir, no vale do Tua, uma admirável peça de património e um monumento intemporal à capacidade humana de sonhar.

Os portugueses de hoje não merecem os portugueses de ontem! 

Deixo, a quem ler este lamento, um pequeno filme, para que vejam a beleza do que está para ser destruído e para que reflictam sobre o país que somos e as decisões que sobre ele são tomadas.

www.ocomboio.net/diaporama/linha_do_tua_2006/index.html

Luís Manuel Guarita

domingo, 23 de março de 2008

A esquerda no seu labirinto

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Onde está a esquerda dos princípios morais e da altivez imperial nesta história do Tibete, que não a tenho visto?

Até admito que a questão do Tibete é complexa e difícil. Em boa verdade admito que quer ali, quer, por exemplo, no Kosovo, dificilmente vejo viabilidade para um estado, mas na verdade nem é isso que está em causa, é para já algo de muito menos. É somente uma questão de respeito e direito. O respeito devido pela China àqueles que no Tibete divergem do regime e sustentam uma solução para o Tibete, que em nada se coaduna com a actual. E o direito desses mesmos tibetanos a aspirar à libertação do seu país. Mas estas pequenas coisas, que não metem a América pelo meio, são demasiado sensaboronas para a esquerda militante.

Se não há América, então não há festa. A esquerda, definitivamente, continua perdida no seu labirinto.

Luís Manuel Guarita

A filial

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Em Portugal a Associação Portuguesa de Bancos tem uma filial nova. Chama-se Banco de Portugal e é brilhante, eficaz e inultrapassável na defesa dos seus associados, a Banca.

É assim mesmo, isto sem qualquer desprimor para a referida associação que, na minha opinião, defende e bem os seus associados.

A regulação do sector, que em teoria deveria salvaguardar todos os interesses, é, nas mãos das mentes que gerem o Banco de Portugal, um acto de sentido único, isto é, trata-se tão somente de defender intransigentemente a banca. O cliente e o seu pequeno interesse são, neste caso, irrelevantes e desnecessários, diria mesmo maçadores, até porque tendem a queixar-se.

E eis como, em Portugal, de regulador facilmente se passa a colaborador!

Luís Manuel Guarita

Era uma vez a concorrência...

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Há dias escrevi aqui que a decisão sobre a Autoridade da Concorrência nos permitiria uma melhor compreensão do que alguns pretendem que seja este pequeno país à beira mar plantado.

A decisão tomada - a não recondução do Prof. Abel Mateus -, um homem íntegro, independente e extremamente competente, que nos anos que liderou a autoridade se pautou por uma defesa intransigente de um mercado mais concorrencial e por isso mais justo para todos, e a sua substituição por alguém, que mal grado as capacidades, que não questionamos, advém da única entidade reguladora em Portugal que de reguladora nada tem, é um sinal claro do caminho que se pretende tomar.

Aqui, na West Coast of Europe, são os princípios da África subsariana que marcam o ritmo.

Luís Manuel Guarita

sábado, 22 de março de 2008

O libertino

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Luiz Pacheco, o libertino, partiu a 5 de Janeiro de 2008.

Poucos dias antes de morrer, o escritor maldito dava o veredicto sobre o seu próprio livro de entrevistas, obra a cujo lançamento já não pôde assistir: “Esse livro é uma merda! Isso é uma aldrabice. É bom para andar por essas editoras pequenas”.

Na verdade, “O Crocodilo que Voa” não é uma merda. É uma deliciosa colectânea de entrevistas publicadas entre 1992 e 2008. Ao longo dessas 12 entrevistas, Luiz Pacheco bate forte feio em alguns dos grandes nomes da literatura portuguesa do século XX.

“O Cesariny era um poeta de urinóis. Chegou a Paris, ia com esse hábito e botou a mão à sarda de um homem que estava a mijar – resultado, foi parar à cadeia. O chefe da esquadra perguntou-lhe: Então como é isso la-bas? E ele disse: É como cá. Mas não era, porque o chefe da esquadra disse: Então você tinha para aí tantas pensões para ir fazer isso, era preciso ir para o urinol deitar a mão à gaita do outro?”.

O livro começa com uma entrevista feita em 1992 por Carlos Quevedo e Rui Zink, para a mítica revista K. Ainda me lembro da fotografia de Luíz Pacheco na capa da K.

Escrevem os entrevistadores: “Luís Pacheco, escritor, sofre de asma brônquica. Calvície precoce. Fractura do úmero devido a tentativa de suicídio na Avenida de Berna. Queda de dentes natural quase total. Enfisema pulmonar bilateral. Hérnias inquinais não operadas com uso de funda dupla. Hipersensibilidade ao álcool. Tratamento de desintoxicação no Centro António Flores. Miopia e astigmatismo, quase cegueira. Bissexual assumido. Leve surdez do ouvido esquerdo. Andropausa total. Três mulheres reconhecidas. Três estadias no Limoeiro. Duas estadias na cadeia das Caldas da Rainha. Prisões ocasionais e breves em esquadras da polícia”.

Luiz Pacheco foi um herói marginal. Escreveu sobre magalas e urinóis. Na Contraponto, editora que fundou em 1950, publicou Cesariny, Cardoso Pires, Herberto Hélder, Virgílio Ferreira e Natália Correia. Viveu boa parte da vida na miséria, hospedado em quartos alugados e albergues bolorentos.

Luiz Pacheco foi um grande português. “O Crocodilo que Voa” é um livro imperdível.

João Castanheira

sexta-feira, 21 de março de 2008

Batemos no fundo


Batemos no fundo.

O episódio da escola Carolina Michaëlis revela, de forma caricatural, o estado a que chegou o ensino em Portugal depois de três décadas de complexos de esquerda, que fomentaram a irresponsabilidade dos alunos e arruinaram a autoridade dos professores.

Tudo ali está errado. Tudo ali é cruel, obsceno e chocante.

A começar pela vadia que insulta e agride a professora em plena sala de aula. Para a protagonista deste filme de terror, tudo quanto não seja a expulsão sumária e definitiva do sistema de ensino público será um prémio imerecido.

É óbvio que a punição da delinquente terá que ser verdadeiramente exemplar, sob pena de a partir de agora tudo ser admissível numa sala de aula do nosso país.

Mas o que é mais inquietante é a atitude deplorável do resto dos alunos, que assistem ao episódio com evidente deleite. Riem-se, filmam e disparam comentários como “Isto é demais!”, “Olha que a velha vai cair”.

E o que dizer da absoluta incapacidade da professora em lidar com a situação? Alguém que se dispõe a ser humilhada até ao limite por uma turma inteira não tem, objectivamente, condições para exercer a profissão de professor.

Soube-se agora que a senhora nem sequer havia apresentado queixa contra a aluna. Fê-lo ontem, quando percebeu que o país inteiro havia assistido, perplexo e revoltado, à sua inqualificável humilhação.

A presidente do conselho executivo da escola diz que abriu um processo de averiguações. Como se houvesse grande coisa para averiguar. Imagino que venha por aí o calvário burocrático do costume, que não servirá se não para deixar passar o tempo e esperar que o país se esqueça.

No fim, o processo há-de ser arquivado ou, no limite, a vadia há-de ser meigamente repreendida. A bem da não exclusão.

Sem grandes ondas, porque o assessor de imprensa do ministério da educação já veio publicamente dar as suas instruções: “A situação será resolvida no seio da escola”.

Será possível que esta gente não perceba o mal que está a fazer ao país?

João Castanheira

quarta-feira, 19 de março de 2008

Brasil


O que dizer de um país que ofereceu ao mundo o génio criativo de Oscar Niemeyer, António Carlos Jobim, Chico Buarque, Marisa Monte ou Candido Portinari?

O que dizer do país que criou o samba, a bossa nova e o tropicalismo?

O que dizer do país que inventou a Gisele Bündchen, a Daniela Cicarelli, a Maitê Proença e todas as mulheres que enchem o nosso imaginário desde crianças?

O que dizer do país onde nasceram o Pelé, o Zico, o Sócrates, o Ronaldo, o Ronaldinho Gaúcho e o Kaká?

O que dizer de Copacabana, de Ipanema ou do Corcovado, mais a Amazónia, o Pantanal, a Bahia, Ouro Preto e a utopia feita realidade em Brasília?

Há um Brasil que deu ao mundo muito do melhor que o mundo tem. Um país maior do que todas as palavras de que me consigo lembrar para o descrever.

Para mal do Brasil e para mal do mundo, esse grande país vive sufocado por um outro, uma coisa medonha crivada de favelas, miséria e corrupção.

Se o primeiro vencer, o futuro há-de ser do Brasil.

João Castanheira

segunda-feira, 17 de março de 2008

Mal agradecidos

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Dizem as más línguas que a região de Lisboa está a ser assolada por uma vaga de homicídios sem paralelo na história recente. Felizmente, foi hoje divulgado um estudo europeu a revelar que a capital portuguesa tem a segunda mais baixa taxa de homicídios da União Europeia. Melhor do que nós só La Valetta e é porque alguém se enganou a martelar os dados.

Dizem as más línguas que o país está a ser varrido por uma onda descontrolada de assaltos violentos. Felizmente, o ministro da administração interna divulgou há dias o relatório de segurança interna, documento profusamente ilustrado com gráficos que não deixam margem para dúvidas – graças ao governo do partido socialista o que está realmente a acontecer é uma histórica redução nas estatísticas do crime.

Chega de falsidades. Fontes oficiais contactadas pelo Num Lugar à Direita, asseguram mesmo que há precisamente 3 anos não se regista qualquer homicídio ou assalto em Portugal.

O problema é que a mensagem não passa. E não passa porque os portugueses são estúpidos.

O governo bem que lhes atira com PowerPoints ao nível do melhor que há no mundo. Mas é como dar pérolas a porcos. No dia seguinte, os desgraçados lá inventam mais uns tiros ou umas facadas, apenas para prejudicar reputação do senhor presidente do conselho. Mal agradecidos.

Eu confio no “engenheiro” Sócrates. Já mandei tirar a fechadura da porta e vou deixar as janelas de casa abertas de par em par.

João Castanheira

quinta-feira, 13 de março de 2008

Um voto de protesto.

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Declaro aqui,veementemente, o meu protesto contra todas as organizações internacionais que observam o fenómeno da corrupção nos países. Em nenhuma delas o meu país aparece em primeiro lugar, o que é estranho, diria mesmo, estranhíssimo. É que em Portugal não há condenações por corrupção.

Bom, na verdade minto, li hoje num diário que uns quantos coveiros de uma câmara municipal foram condenados por corrupção, ao que parece os meliantes terão subtraído um total de quase 700€ ao erario municipal. Serão eles os culpados da não classificação em primeiro cá da pátria?

Só podem, porque de certeza que não são as Fátimas, ou os apitos dourados, ou até mesmo os Parques Mayer, esses não são corrupção, são uma distracção num país de brandos costumes onde tal opróbrio não existe senão quando vamos a caminho da cova.

É de protestar, não é?

Luís Manuel Guarita

Nós por cá, eles por lá.

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Este episódio do Sr. Eliot Spitzer é bem revelador das imensas diferenças ainda existentes nos dois lados do Atlântico.

Nós por cá jamais concordaríamos que um problema de saias pudesse ser causa obrigatória de demissão de um detentor de um cargo público. Confesso que neste capítulo considero o extremismo moralista americano algo hipócrita.

Eles por lá acham que isso, entre outros escândalos, como a corrupção ou o desvio e má-gestão de fundos públicos, é, mais do que razão, obrigação para a demissão de quem os praticou. E é nestas últimas questões que a grande diferença entre eles e nós se estabelece.

O EUA podem ter todos os defeitos do mundo, mas que entre a lisura e integridade da assumpção de cargos públicos que por lá se pratica e a pastosa e ruinosa interpretação desses mesmos cargos que por cá se realiza, há um oceano de diferença, isso há.

E o mal de tudo isto é que, pode a esquerda demonizar a América o que quiser, que a verdade é que, séculos passados sobre Tocqueville, ainda muito temos a aprender com eles sobre como concretizar uma democracia.

Luís Manuel Guarita

O pão nosso de cada dia.

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Há coisas intrigantes!

Ao que parece, o preço de uma matéria prima essencial como o trigo tem vindo a galopar nos mercad0s. Tudo indica que, e no dizer de representantes das associações de produção de pão, tal justifica a necessidade de aumentos unitários do preço do pão na ordem dos 30%.

Até aqui e tendo em conta a realidade dos aumentos dos preços das matérias primas, tudo parecia justificável. Contudo e ouvindo outras fontes, é nos dado a saber que, num pão de quilo, apenas entre 5 e 10% do seu custo decorre da matéria-prima, donde e na nossa infinita ignorância imediatamente nos questionamos, como é que algo que apenas representa um décimo do custo do produto final provoca, nesse mesmo produto, um aumento potencial de 30% no seu preço final?

Pelos vistos, os modelos de incorporação de custos nalguns produtos existentes em Portugal são verdadeiras obras primas da contabilidade criativa, o que nos leva, desde logo, a pensar duas coisas: por este caminho é notório que está na calha mais um bem de luxo e que, de facto, não é na inovação que estamos atrasados...

Luís Manuel Guarita

Bens de luxo.

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A lista dos bens de luxo em Portugal abrange, curiosamente, alguns serviços que de luxo, só mesmo o preço que por eles pagamos.

A electricidade, o combustível e o telefone, são disso exemplo. Se no caso do combustível até poderíamos aceder à conotação, na electricidade e no telefone, só mesmo a imaginação nos leva a acreditar em tal.

Os preços que em Portugal se praticam para que o comum dos mortais, ou as empresas, possam a eles aceder, são um case study de como a extorsão legal se tornou uma prática comum no nosso pequeno país.

É que, perante a realidade europeia, é muito difícil perceber o enorme diferencial existente nestes preços, quando comparados com o que por cá se praticam, e ainda mais díficil de perceber se torna, quando a comparação se resume ao que é praticado por nuestros hermanos.

Para tudo isto haverá com certeza razões, mas que não deixa de parecer um assalto à mão armada, isso não deixa.

Em Portugal, consumir o essencial é hoje um luxo.

Luís Manuel Guarita

Coisas de sempre

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Mais de um século passado sobre a primeira viagem de comboio em Portugal. Mais de 20 anos passados sobre a avalanche de dinheiro que gratuitamente a Europa nos ofereceu. Depois de infindáveis páginas escritas sobre os benefícios do transporte ferroviário, estamos hoje iguais ou pior que há meio século atrás.

Temos hoje menos linhas de caminho de ferro. Continuamos a utilizar composições sucessivamente recauchutadas e com mais de três décadas e ainda assistimos ao facto surreal de numa das mais pequenas redes de caminho de ferro da Europa, subsistirem coisas como passagens de nível onde amiúde se dão acidentes como aquele a que assistimos na linha do Oeste.

Já não tenho dúvidas, há, de há anos a esta parte, uma gigantesca conspiração para acabar com o caminho de ferro em Portugal.

Este país, como no título do filme, não é para locomotivas e por vezes, dá-me a sensação, não é mesmo para ninguém.

Luís Manuel Guarita

Um pequeno detalhe.

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Vamos todos aguardar pacientemente pelo dia 24 deste mês. Nesse dia saberemos o quanto uma pequena decisão é o resultado óbvio do quanto nada mudámos e do pouco que verdadeiramente desejamos fazê-lo.

Dia 24 termina o mandato do actual Presidente da Autoridade da Concorrência. O tempo por ele passado no cargo pautou-se, concordemos ou não com algumas das decisões tomadas, pela procura incessante da defesa do consumidor e pelo combate por uma efectiva concorrência em todos os mercados. Tudo isto num país onde esta palavra -concorrência- tende a ajustar-se às necessidades de quem pode, menosprezando pelo caminho aqueles que deveria proteger.

Nesse dia teremos, ou não, mais um exemplo do caminho que alguns pretendem trilhar neste país e do quanto, palavras como reforma, transparência, mudança e rigor, são meros adereços de campanha.

Aguardemos pois.

E já agora, ainda a propósito de regulação. Para quando uma discussão séria sobre uma ideia de Jorge Sampaio que defendia que, para uma efectiva independência das autoridades reguladoras, as mesmas deveriam ser nomeadas pelo Presidente.
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Luís Manuel Guarita

A canção dos verdes anos.

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Às vezes vale a pena observar o passado e relembrar o que ele nos traz à memória.

Por exemplo, uma simples canção já com quatro décadas. Uma maravilha absoluta da música portuguesa e um retrato musicado do que somos.

Carlos Paredes escreveu a "canção dos verdes anos" a olhar pela janela cinzenta do país que então éramos. Hoje, se olharmos pela mesma janela mas fecharmos os olhos e ouvirmos esta admirável música, é esse mesmo país que sentimos e identificamos nas suas notas.

Há outras músicas onde se ouve Portugal, mas em nenhuma como nesta o som parece brotar da terra, do fundo de todas as almas que nela habitam.

Experimentem fechar os olhos e ouvi-la, ao fazê-lo ouvem o Portugal de sempre, hoje tão diferente mas ainda tão igual.

Ouçam: http://www.youtube.com/watch?v=XwhV1ivYNsQ
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Luís Manuel Guarita

quarta-feira, 12 de março de 2008

O que é isto do Getafe?

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Antigamente, o Benfica batia-se com o Real Madrid. Agora perde com as reservas do Getafe.
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Perguntei a um amigo o que era isto do Getafe. Ele disse-me que é uma agremiação desportiva criada há 20 anos num bairro dos súburbios de Madrid.
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Valha-me Deus, será possível que até no futebol Portugal esteja a divergir de Espanha?
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João Castanheira


O malandro do Spitzer

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Eliot Spitzer, governador do estado de Nova Iorque, demitiu-se hoje, depois de ter sido apanhado em flagrante numa investigação do FBI.
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Spitzer, um dos mais activos apoiantes da candidatura de "Billary" Clinton, construiu a sua carreira política assente na imagem de homem recto e de carácter inatacável.
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Elegeu como causa maior o combate à decadência dos valores morais, com o desmantelamento das redes de prostituição à cabeça.
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Descobriu-se agora que, entre outras tropelias, gastou 80.000 dólares em putas. Spitzer era um dos maiores clientes da rede de prostituição de luxo "Clube dos Imperadores".
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Num assomo de dignidade que é de enaltecer, apresentou a demissão e manifestou publicamente o seu arrependimento por ter defraudado as expectativas dos norte-americanos.
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Em Portugal, a investigação policial teria sido parada, as escutas telefónicas seriam declaradas ilegais e as desgraçadas das putas acabariam, provavelmente, processadas por difamação.
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João Castanheira

O pântano outra vez

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Os dirigentes do Partido Socialista entraram numa fase em que já nem a própria família conseguem convencer.
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Vem isto a propósito da participação da mulher de António Costa - n.º 2 do PS e ex-n.º 2 do governo - na mega manifestação de professores do passado sábado. Era ver a senhora professora gritar empolgada contra a política de educação do governo...
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É certo que todos os portugueses têm o direito - e o dever - de se indignarem com as políticas socialistas. Mas não deixa de ser revelador do ponto a que as coisas chegaram quando é a própria família do baronato rosa que começa a sair à rua em protesto contra os seus.
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Por este andar, bem pode o PS convocar manifestações de desagravo ao governo e outras salazarices, que a coisa dificilmente vai melhorar.
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Agora "só" era preciso que a oposição saísse do coma profundo em que mergulhou, para que o governo Sócrates e o seu folclore pseudo-reformista caissem de podre em poucos meses.
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O pântano está aí outra vez.
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João Castanheira

terça-feira, 11 de março de 2008

O traficante.


Deixo, à consideração da esquerda, a caviar e a outra, algumas perguntas.

Que comentário vos merece o facto de o vosso representante e orgulho máximo nas Américas Latinas, o inenarrável Hugo Chavez, se ter convertido num financiador de traficantes e apoiante de terroristas?
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Que reflexão vos merece a constatação de que muita da droga proveniente da América Latina com destino à Europa e passagem por Portugal ter origem nas FARC e por isso o beneplácito do Sr. Chavez?

Que vos parece um homem que financia e apoia grupos de bandidos especializados na extorsão, rapto e tráfico, que se travestem de guerrilha de esquerda?
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O que acham de alguém, que na sua pseudo obsessão Bolivariana, se acha no direito de interferir no destino dos países vizinhos, desestabilizando-os e provocando-os?
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Que acham deste senhor? Que acham desta esquerda?

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Luís Manuel Guarita

O País que somos.

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Há uns meses a esta parte, veio o governo de Portugal anunciar, com pompa e circunstância, uma coisa a que chamou Portugal Logístico. À primeira vista tudo ok. Uma rede de plataformas logísticas capazes de reestruturar o sistema de transporte e armazenamento de bens e mercadorias, a bem do ordenamento e desenvolvimento do país. No essencial, uma boa ideia!
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Contudo, uns meses depois, veio uma empresa acrescentar ao nosso Portugal Logístico mais uma localização não prevista nem estudada, fora da rede e contrária à lógica que tinha determinado o plano original.
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Imediatamente e após a proposta que esta empresa fazia, assistimos a uma demonstração da fantástica capacidade de adaptação portuguesa. Aquilo que nunca havia sido previsto, que não havia sido estudado, que contrariava as boas regras do ordenamento, pela localização e pelos impactos que daí advinham, imediatamente se tornou num desses novíssimos PIN e automaticamente se converteu numa prioridade absoluta de Portugal e num exemplo do desenvolvimento que, pelos vistos, queremos.
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Disto tudo se retira a seguinte conclusão. Não vale a pena planear, prever, estudar. Não vale a pena pensar que é ao Estado que compete determinar o planeamento estratégico do ordenamento do território. Não vale a pena pensar que há regras e valores que se deveriam sobrepôr a qualquer outra lógica. A verdade é que no nosso pequeno país à beira mar plantado há sempre uma excepção, seja para o pequeno empresário a quem apetece acrescer mais um piso ao seu empreendimento, seja para a empresa gigante que se acha no direito de fazer e desfazer qualquer Portugal Logístico que por aí apareça.
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Não vale a pena fingir, este é o país que somos!
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Luís Manuel Guarita

À beira do abismo.


É suposto um representante de um organismo religioso defender duas coisas básicas. A primeira é a noção de que há coisas que são absolutas, a segunda é a de que, em questões de princípio, não se pode ceder.

O Sr. Williams, Arcebispo da Cantuária e por isso líder máximo da igreja anglicana logo a seguir a sua Majestade, acha que não. Para ele nada é absoluto e a tudo se pode ceder.

Este Senhor, que deveria de estar na linha da frente da defesa dos valores fundamentais que constituem a civilização em que vivemos, independentemente do ramo do cristianismo em que se insere, acha que não, que não vale a pena continuar a defender esses mesmos valores, que é preferível desistir, abdicar de séculos de construção civilizacional e voltar às trevas da idade média, desprezando pelo caminho tudo aquilo que nos torna únicos, nomeadamente na capacidade que temos de assimilar e respeitar as diferenças.

Aqueles que hoje nas nossas casas nos querem impor o primado da intolerância e do fanatismo, são os mesmos a quem o Senhor Arcebispo considera normal permitir que vivam, no nosso seio, segundo as suas regras e valores, de acordo com os seus princípios e leis, coisa que aliás, seria implausível de exigir nas sociedades de que são oriundos, contrariando tudo o que temos como fundamental.

O monstro do relativismo absoluto tocou o Senhor Arcebispo, os seus tentáculos abraçaram-lhe a capacidade de discernir e revelaram a sua imensa cobardia. A cobardia de um homem que perante a parede da intolerância prefere claudicar e ceder, revelando o quanto o abismo se aproxima de nós.
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Luís Manuel Guarita

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Agora aguentem-se...


O presidente da petrolífera estatal angolana – Sonangol – disse ontem que é o patrão da Galp e, por isso, a empresa portuguesa tem que lhe obedecer.

Há quem se tenha sentido chocado com a afirmação, mas a verdade é que Manuel Vicente tem toda a razão. O estado angolano não tem culpa que lhe tenhamos posto nas mãos a maior empresa portuguesa.

Em 1990, o governo português decidiu privatizar a Petrogal, com o argumento de que o estado deveria abster-se de participar directamente na economia. Menos de 20 anos depois, a Galp é agora propriedade do estado angolano (e do estado italiano).
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A privatização resultou, na verdade, numa semi-estatização. Só que o controlo accionista passou do estado português para o estado angolano (e italiano).
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Esta não é uma situação única. Um pouco por todo o mundo ocidental, as empresas mais relevantes estão a ser tomadas pelo dinheiro de estados onde não impera a transparência. O sector bancário, o imobiliário, o turismo e a energia são apenas alguns exemplos de áreas hoje dominadas pelos capitais públicos da China, da Arábia Saudita ou até de Angola.

E esta é apenas a face menos negra do problema. Com os dinheiros públicos, chega um sub-mundo empresarial onde pontificam príncipes árabes e filhos de ditadores africanos, cuja fortuna não foi feita a trabalhar.
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Agora aguentem-se...
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João Castanheira

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

A herança de Fidel

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A "revolução cubana" é propriedade da carcaça moribunda de Fidel Castro. Em boa verdade, toda a ilha lhe pertence.
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Agora que os restos do "revolucionário" já pouco mexem, Fidel elegeu como herdeiro o seu decrépito irmão.
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Como se faz com qualquer propriedade, Fidel deixa a ilha e o povo como herança à família.
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O lado bom desta história, que há 50 anos espalha miséria pelo país, é a confirmação de que os ditadores comunistas valorizam cada vez mais um conceito que outrora desprezavam - a família.
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Na Coreira do Norte, Kim Il Sung deixou as ruínas do país como herança ao filho. Em Cuba, Fidel elegeu o irmão para herdeiro.
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Cantemos A Internacional.
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João Castanheira

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O dicionário Sócrates


O governo Sócrates tem acrescentado algumas expressões ao léxico português. Eis 2 exemplos, ambos na área da batota politico-administrativa:

NOVAS OPORTUNIDADES: projecto que visa melhorar artificialmente as estatísticas nacionais na área da educação, mediante a atribuição instantânea de diplomas escolares a iletrados. É uma espécie de graduação honoris causa em massa ou formação Farinha Amparo.

PIN: mecanismo que visa autorizar a construção de loteamentos em cima da reserva ecológica nacional, contornando os constrangimentos legais à urbanização das nossas praias. É um moderno instrumento de gestão territorial, que tem como objectivo prioritário algarvizar (betonar) a costa alentejana.

João Castanheira