segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O plebiscito

O MPLA parece ter obtido 82% dos votos nas eleições legislativas angolanas.

É um bom resultado, que se bate, sem complexos, com os 88% conseguidos em 1969 por Marcello Caetano.

Mas as verdades têm que ser ditas: o resultado do MPLA fica aquém dos 96% alcançados pela família Castro em Cuba ou dos 100% que Kim Jong Il costuma sacar nas eleições da Coreia do Norte.

O facto, inesperado, da oposição ter conseguido alguns votos, convida a um exercício de autocrítica.

Ainda assim, para evitar qualquer leitura distorcida da realidade, aqui ficam os títulos de algumas das muito diversificadas notícias difundidas pela ANGOP, a agência noticiosa oficial do MPLA, perdão, de Angola.

“UNITA sem razões coesas para impugnar eleições”
“Constitucionalista considera inexistentes razões para impugnar”
“Cardeal descarta razões para impugnar eleições”
“Líder religioso considera eleições exemplares”
“Parlamentar cabo-verdiano considera eleições livres”
“IASED considera eleições livres, justas e transparentes”
“Governo Luso saúda Angola pelo civismo nas eleições”.

João Castanheira

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Ainda a Polónia

Aqui ficam mais alguns lugares encantados de um país fabuloso.


Zamosc, cidade Património Mundial da Humanidade

Wroclaw, capital da Baixa Silésia

João Castanheira

Alternância democrática? Isso é coisa de colonialistas...


A respeito do processo eleitoral angolano, aqui ficam duas frases lapidares do José Manuel Fernandes, retiradas do editorial de hoje do jornal Público.

É por estas (verdades) e por outras que o Público foi proibido de entrar em Angola.

“Não é por acaso que se considera que uma democracia aberta e liberal é o regime em que os cidadãos podem despedir os seus governantes de forma pacífica, algo que nunca ocorreu em Angola... É que só nessa altura se vê se esta é genuína ou se corresponde a uma fachada para descansar as consciências ocidentais, só nessa altura se sabe se os países são capazes de trocar de governo sem sobressaltos (como em Cabo Verde) ou se a democracia entra em crise quando o poder instalado se sente ameaçado (como no Zimbabwe)”.

“Todos os que olham para as riquezas de Angola e sempre fecharam os olhos às comissões que se pagam aos políticos angolanos estarão por certo na primeira linha dos que proclamaram estas eleições como livres e justas”.

João Castanheira

Cautelas e caldos de Galinha

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Ontem, penso que na inauguração da primeira farmácia hospitalar portuguesa, o Sr. Primeiro Ministro anunciou que brevemente estará disponível a venda em unidose de medicamentos. Uma boa notícia e um avanço considerável face à irracionalidade da venda actual. 

Contudo, e na mesma comunicação, tivemos, para além do climax com que nos presenteou o Sr. Primeiro Ministro, o anticlimax da Sra. Ministra da Saúde que nos fez baixar à terra e explicou que esta medida está a ser tomada com enormíssimas cautelas e apenas a título experimental. Diria eu, não vá o diabo tecê-las.

Mas na verdade e pensando bem nisto, o que raio poderá o diabo tecer nesta medida que obrigue a tantas cautelas? Não é absolutamente do domínio do bom-senso que quando um médico prescreve ao seu paciente medicação o faça na dose exacta que este necessita para debelar o seu mal? Faz sentido continuar a comprar caixas cheias de pequenos comprimidos para depois tomarmos apenas uma parte e deixarmos o resto lá no armário da farmácia de casa? Seria normal que quando fôssemos comprar um artigo qualquer nos víssemos obrigados a comprar o caixote por inteiro em vez de comprarmos apenas aquilo de que necessitamos?

De facto há cautelas estranhas, isto porque noutros países, onde a unidose é prática habitual, tais cautelas há muito foram ultrapassadas, a bem do consumidor/paciente e a bem das finanças do estado que subsidia o doente. Mas pronto, cá na West Coast estas coisas requerem muito estudo, ponderação, reflexão, introspecção e sobretudo, pedido de autorização àqueles que beneficiam largamente com estas práticas. Esses, como diria o Octávio, vocês sabem quem são e do que estou a falar.

Luís Isidro Guarita  

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Para Viana, rapidamente e em força!


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Há edifícios que me fazem levantar do sofá...
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É o caso do Hotel Áxis Viana, projectado pelo Arq. Jorge Albuquerque. Ou a nova Biblioteca Municipal de Viana, um projecto de Álvaro Siza.
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Duas obras-primas que convidam a visitar a capital do Alto Minho.
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João Castanheira

Esperança


Por estes dias, o mundo tem os olhos postos em Angola.

Há hoje, como havia em 1992, uma enorme esperança de que as eleições representem o salto definitivo rumo ao futuro.

Eu partilho dessa esperança, porque acredito que entre os despojos da guerra e os tentáculos da corrupção, há em Angola uma sociedade civil que emerge.

Partilho dessa esperança, porque acredito na força regeneradora das novas gerações, que depois de experimentarem a paz, querem agora partilhar a prosperidade que anda por ali à espreita.

É certo que há 16 anos as coisas acabaram mal.

É certo que se a vitória do MPLA não estivesse garantida, jamais teriam sido marcadas eleições.

É certo que não pode esperar-se que sejam os corruptos a pôr fim à corrupção.

É certo que os sinais que chegam de Luanda são inquietantes – os principais órgãos de informação portugueses foram proibidos de entrar em Angola para acompanhar o processo eleitoral

Mas apesar de tudo, quero acreditar no futuro de Angola.

João Castanheira

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Sabonetes à venda...

Por detrás do brilho esplendoroso da imagem mediática. Por detrás do apelo sedutor da retórica discursiva. Por detrás do fascínio reconfortante do multiculturalismo finalmente chegado à política há Obama e um enorme deserto de ideias.

Para além do eu – tipo aqui estou eu tão belo para vos governar, pouco sobra do candidato democrata que, na essência do que tem dito, mais parece uma nova espécie política de Maria vai com todas, onde o vai significa a adesão imediata ao que for politicamente correcto no momento e o todos, todos aqueles que nesse instante mediático sirvam os interesses políticos em causa. Em Portugal temos há 3 anos a versão não étnica desta súmula da moderna esquerda. Chama-se José Sócrates e deu no que deu.

Na verdade e para além do brilho ofuscante do sabonete que nos é vendido, Barack Obama não é mais que isso mesmo. Um produto dos tempos. Um político expresso à medida da necessidade de salvação in-extremis que a esquerda vinha pedindo. Este é o tipo de político/ícone que se enquadra perfeitamente na velocidade consumista das sociedades actuais, onde 15 minutos de fama valem muito mais que 15 anos de preparação intelectual e política.

A esquerda, com Obama, atingiu o seu zénite. Do grande gigantismo ideológico com que quase nos soterrou nos séculos XIX e XX, ao anão político de ideias a que chegou nestes primórdios do século XIX, bastou um muro cair.

Obama é por isso, na imagem, mas sobretudo no conteúdo, a síntese perfeita de uma certa forme de vivre à la gauche. Um eu desmesurado, bonito por fora mas oco por dentro.

Luís Isidro Guarita 

Os “mauzões” que por aí andam!


Há dias, nas páginas do Público, Francis Fukuyama escrevia que apesar de por aí haver muitos “mauzões” que abominando a democracia e as sociedades capitalistas e liberais se delas servem para jogar o seu jogo autoritário a realidade é que estes autocratas pós-modernos revelam, por comparação com os seus antecessores, uma debilidade ideológica que os coloca vários patamares abaixo na perigosidade que potencialmente representam para as democracias.

Na verdade e apesar de as fontes do mal de hoje, com excepção das que bebem no radicalismo medieval islâmico, pouco ou nada terem que ver com aquelas que se serviram de ideologias criminosas como o nazismo e o comunismo estalinista, há por muitos cantos desse globo muitos lobos travestidos de cordeiros.

Espécies como a que deu origem aos Chávez deste mundo encontram nas águas tranquilas das democracias triunfantes o ambiente ideal para fazerem medrar a sua mal disfarçada intolerância e declarada arrogância, servindo-se desses mares para construir, na ilusão do jogo democrático, as mais perversas e perigosas ameaças à democracia liberal.

Houve, de facto, ideologias que morreram. Há, no entanto, um mal que perdura.

Luís Isidro Guarita 

Uma viagem pelo maravilhoso que ainda há em nós

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Apanhar o comboio na Covilhã às seis da tarde de um dia de Verão a caminho de Lisboa é passar 4 horas a viajar pelo maravilhoso que ainda há em Portugal.

Quando, entre o último quartel do século XIX e o primeiro do século XX, se construíram algumas das mais belas linhas de caminho de ferro em Portugal, aproveitando, em muitos casos, as “estradas” deixadas pelo rios, construiu-se um património único que faz com que uma simples viagem de comboio se transforme num prazer indescritível.

Ao sair da Covilhã e após contornarmos a Serra da Gardunha, com as suas cerejeiras do outro lado da janela, avançamos ao longo da Beira Baixa a caminho das águas do Tejo que nos surgem, após a estação de Ródão, enquadradas numa beleza inigualável por dois gigantes de rocha que dão pelo nome de Portas de Vila Velha de Ródão. Apesar de já há alguns quilómetros o Tejo ter chegado a terras portuguesas é ali, naquele pedaço assombroso de natureza, que nos entra portas a dentro e se espraia a caminho da planície ribatejana até encontrar Lisboa e o mundo.

A partir dali é uma paisagem de cortar a respiração que nos vai passando pela janela, desde as encostas abruptas ao rio que corre manso até à primeira barragem, a do Fratel, são quilómetros de natureza que nos enchem os sentidos. Depois do Fratel, o rio estreita e torna-se, por alguns momentos, torrencial. As águas, sob o olhar dos Grifos que por aqui ainda cruzam os céus, lá vão até que a mansidão anunciada de Belver lhes abraça os ímpetos para pouco depois as libertar a caminho de Abrantes para onde correm sob o olhar atento da central do Pego e se lançam, pouco depois, para essa ilha fantástica e altaneira, que qual farol do mundo, em Almourol, guarda o Tejo e guarda a nossa memória.

Daqui para a frente é a planície que se abre diante de nós, quilómetro a quilómetro, enquanto no fim do horizonte o Sol parte para ocidente e a noite se deixa cair sobre Lisboa.

Viajar de comboio é ainda um enorme prazer que aos poucos e pela estupidez dos homens neste rectângulo sobranceiro ao Atlântico se vai tornando uma miragem. Aproveitem e conheçam o maravilhoso que ainda vos pode entrar pela janela ao vosso lado antes que outra locomotiva algures descarrile e descarrile também toda esta inigualável herança que os nossos avós nos deixaram.

Luís Isidro Guarita

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Oskar Schindler


Como aqui escrevi há dias, Cracóvia é hoje uma das mais belas e luminosas cidades da Europa.

Quem visita a capital cultural da Polónia, não pode imaginar o que ali se passou durante a ocupação Nazi.

Depois de visitar a cidade, decidi ontem rever A Lista de Schindler, obra-prima de Spielberg, galardoada com sete Óscares da Academia em 1994.

O filme retrata, de forma brilhante, a perseguição aos judeus de Cracóvia, a construção do ghetto, a sua eliminação na noite de horror de 13 de Março de 1943 e a deportação dos sobreviventes para o campo de concentração de Plaszow, nos arredores da cidade.

A Lista de Schindler relata, sobretudo, a comovente história de um homem grande. Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro e Oskar Schindler salvou 1.100 pessoas.
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Na fotografia que ilustra este texto, Oskar Schindler surge entre alguns dos operários judeus que salvou do Holocausto.
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O portão da fábrica de Oskar Schindler permanece ainda hoje na Rua Lipowa, mesmo ao lado do antigo ghetto.
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João Castanheira

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Os complexos de esquerda estão a matar Portugal

Há uma pergunta que tantas vezes fazemos e para a qual temos dificuldade em encontrar resposta: se os portugueses conseguem afirmar-se em qualquer lugar do mundo, a que se deve afinal o nosso crónico insucesso enquanto país?

O problema, creio eu, é que depois de 40 anos de autoritarismo de direita, Portugal vive há mais 30 anos mergulhado em complexos de esquerda.

Veja-se o exemplo da educação.

Todos temos a noção de que a escola só funciona se existir uma cultura de exigência, mérito e rigor. É por isso que, podendo fazê-lo, todos os pais optam hoje por inscrever os seus filhos em boas escolas privadas, onde esses valores prevaleçam.

Mas a verdade é que, apesar desta evidência, os complexos de esquerda têm conduzido sucessivos governos a afundar a escola pública na anarquia e na mediocridade.

O facilitismo e o igualitarismo, marcas indeléveis da nossa esquerda, estão aos poucos a matar o ensino, produzindo gerações de portugueses impreparados para enfrentar os desafios do mundo actual.

Veja-se o exemplo da segurança.

Todos temos a noção de que o excesso de garantias conferido aos marginais colide com o interesse dos cidadãos e impede a sociedade de se defender convenientemente do crime.

Mas a verdade é que, apesar desta evidência, os complexos de esquerda têm levado sucessivos governos a amaciar as leis penais, mergulhando o país numa inquietante espiral de criminalidade.

A desculpabilização, marca indelével da nossa esquerda, está aos poucos a coarctar a liberdade dos cidadãos.

Veja-se, aliás, o que a própria esquerda diz sobre a sua incapacidade para lidar com os problemas de segurança. Assume hoje o Daniel Oliveira no seu blogue que a esquerda tem dificuldade em falar da criminalidade de rua, como os roubos e os assaltos. E justifica esta dificuldade, afirmando que a esquerda desconfia do Estado e desconfia ainda mais da polícia.
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É por isso que Bloco de Esquerda defende que os agentes da autoridade andem desarmados!

Os complexos de esquerda estão a matar Portugal.

João Castanheira

domingo, 31 de agosto de 2008

Nacionalizações

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Para quem ainda não reparou decorrem, mais de trinta anos após o 25 de Abril e mais de 20 após o início das reprivatizações, em simultâneo com algumas privatizações, a nacionalização de algumas das mais importantes empresas portuguesas. Será isto normal?

A curiosidade maior nesta estória é que o nacionalizador não é o Estado Português, mas outro Estado...

Volto a repetir, SERÁ ISTO NORMAL?

Luís Isidro Guarita

O terceiro mundo aqui ao lado

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O que se passou, há dias, na linha do Tua, é digno do mais arcaico e pobre país do terceiro mundo.

É absolutamente incrível que numa linha com 120 anos, sem registo de acidentes de monta nos primeiros 115 anos, tenha agora, que se anuncia o encerramento definitivo da linha para que se construa uma barragem na foz do Tua, nos últimos 5 anos, uma sucessão verdadeiramente delirante de acidentes, quase todos eles com mortos a lamentar. Há, de facto, coincidências estranhas!

O que é ainda mais estranho, é a ligeireza com que se vai falando de investimentos milionários para construir um TGV e se deixa, por esse país fora, o caminho de ferro definhar, ceifando vidas pelo caminho. Há nisto algo de esquizofrénico que não se compreende e dificilmente se aceita.

Na verdade, só mesmo nesta West Coast of Europe se compreende que num tempo em que se procura, por essa Europa fora, condicionar o transporte individual e rodoviário e incentivar o transporte colectivo e ferroviário, se deixe ao abandono linhas de caminho de ferro como a do Vouga - que cruza uma região de extremo dinamismo empresarial e elevada população -, se tenha encerrado as duas linhas que ligavam Viseu ao resto da rede ferroviária - trata-se tão somente da maior cidade europeia sem caminho de ferro -, se continue a demorar 3 horas para cruzar o Algarve em locomotivas inenarráveis, se mantenha em suspenso o investimento numa verdadeira modernização da linha do Oeste, se não faça uma ligação suburbana entre a gare do Oriente e a Malveira, passando por Loures, se não leve a electrificação da linha à Covilhã, à Guarda, a Évora e Beja e à Régua e, cereja em cima do bolo, se não aproveite o enorme potencial turístico da linha do Douro e, em particular, da sua reactivação entre o Pocinho e Barca de Alva.

De facto e perante isto só nos pode parecer normal aquilo que aconteceu no Tua. Ao olharmos a brutalidade de certos acontecimentos num país que renega o caminho de ferro e deixa portugueses morrer devido à incúria com que trata esse património, só nos resta mesmo aceitar que talvez a sorte dos néscios nos bafeje eternamente e nos impeça de sucumbirmos perante a interminável estupidez de quem nos governa.

Não se trata pois do acidente em si, trata-se da atitude perante as coisas. É aí, nessa intersecção da realidade, que nos afundamos...

Luís Isidro Guarita

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Um país a saque


O objectivo da criminosa reforma das leis penais, levada a cabo o ano passado por acordo entre o PS e o PSD, foi apenas um: esvaziar as prisões.

O resultado está à vista de todos. O país mergulhou numa onda de crimes violentos sem precedentes. Bancos, bombas de gasolina, estações de correios, tribunais, restaurantes, ourivesarias, carros e pessoas estão a saque.

Os marginais são repetidamente apanhados a cometer os mesmos crimes e logo postos em liberdade.

Com a sensatez e a oportunidade a que nos vem habituando, o Procurador-Geral da República disse ontem aquilo que o país inteiro anda há muito tempo a dizer: “o hiper garantismo concedido aos arguidos colide com o direito das vítimas, com o prestígio das instituições e dificulta e impede muitas vezes o combate eficaz à criminalidade”, acrescentando esperar “que o legislador proceda aos ajustamentos legais que se mostrem necessários”.

Logo veio a terreiro o Ministro da Justiça, Alberto Costa, recusando qualquer alteração às leis penais.

Há aqui qualquer coisa que não se entende. Aquilo a que estamos a assistir é uma autêntica operação de desmantelamento da autoridade do Estado.

Até quando vai o país tolerar a incompetência e a irresponsabilidade deste governo em matéria de segurança e justiça?

É preciso pôr fim a esta bandalheira.

João Castanheira

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Onde pára a polícia?

Ontem decidi fazer um passeio em família pela baixa de Lisboa.

Estacionei o carro na Praça do Município e fui até à Praça do Comércio, onde me misturei com os turistas, numa feira de rua mixuruca que a câmara ali instalou. Ao lado há uns esboços de esplanadas, com cadeiras de plástico, como se fossem buteques de caracóis em Pirescouxe.

Depois, subi a Rua Augusta, dei a volta ao Rossio, meti pela Rua do Carmo, virei para a Rua Garret e sentei-me a comer um gelado numa esplanada perto do Camões.

Dei mais umas voltas pelo Chiado, fui até à Rua Ivens, desci a Rua Nova do Almada e dirige-me de novo à Praça do Comércio.

Em todo este trajecto pelo coração de Lisboa não encontrei um único polícia. Pelo contrário, ao longo do percurso fui abordado por diversos vendedores de óculos contrafeitos, artigos em “ouro” e “chamon”. Eu e muitos dos lisboetas e turistas que dedicaram a tarde de domingo a passear por Lisboa.

Antes de entrar para o carro passei junto à esquadra da PSP da Rua do Arsenal e dei de caras com uma cena verdadeiramente surreal: à porta estavam dois seguranças privados!

Mas afinal onde é que pára a polícia?

Passei a semana anterior em diversas cidades da Polónia e em todas elas se respira um ambiente de segurança e tranquilidade, com agentes da autoridade nos locais turísticos, nas estações de comboio e em todos os pontos estratégicos. E não se vê por lá um décimo da fauna que por aqui vagabundeia.

Então e os nossos polícias, por onde andam?

Estarão fechados nas esquadras, estarão a passar multas de trânsito, estarão em casa a descansar? Ou talvez, quem sabe, estejam a fazer uns gratificados nos campos de futebol.

Ou isto muda ou, em breve, os passeios por Lisboa não passarão de uma vaga memória.

João Castanheira

domingo, 24 de agosto de 2008

Cracóvia


Cracóvia, capital cultural da Polónia e cidade Património Mundial da Humanidade, é um enorme museu vivo.

Por estes dias, o mundo inteiro parece confluir na cidade, transformando-a numa Babel de culturas e línguas, um mar de gente que se espalha por ruas agitadas e praças coloridas.

E Cracóvia recebe o mundo de braços abertos, surpreendendo os visitantes com a cara lavada e com uma animação que parece não ter fim.

Mais do que em qualquer outro lugar, o coração de Cracóvia bate na Rynek Glówny, sem dúvida uma das mais belas praças do mundo, onde se exibem músicos inspirados e geniais artistas de rua, pontuados pelo bater dos cascos dos cavalos.


Custa ter que dizer adeus a uma cidade assim.

João Castanheira

Zaragoza, Expo 2008





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Em Zaragoza, através da Água, a Espanha celebra o seu orgulho...

Luís Isidro Guarita

sábado, 23 de agosto de 2008

Viagem ao Inferno



Nenhuma palavra é suficiente para descrever a monstruosidade dos crimes cometidos pela Alemanha Nazi.

Esta semana, visitei os campos de extermínio de Auschwitz e Birkenau, na Polónia, e dei de caras com a face mais negra e brutal da humanidade.

Percorrer as câmaras de gás, os fornos crematórios ou os subterrâneos do bloco 11 de Auschwitz – o pavilhão da morte – é descer ao inferno e enfrentar os demónios mais sombrios.


Ali, tudo cheira a tortura, a morte e a um sofrimento sem fim: a forca móvel, a sala onde foram ensaiadas as primeiras experiências de extermínio em massa com gás zyklon B, os esconsos sufocantes onde os prisioneiros eram esquecidos até morrerem de sede, fome ou falta de ar...

Está lá tudo. Das celas parecem desprender-se gritos lancinantes de terror e pelos corredores circulam ainda os fantasmas dos carrascos, tomados por um ódio sem limites.

No bloco ao lado, os prisioneiros eram submetidos às mais macabras e criminosas “experiências médicas” e no pátio entre estes dois blocos ficava a parede de execuções, onde muitos milhares de homens e mulheres foram sumariamente fuzilados.

Os requintes de sadismo e malvadez do regime de Adolf Hitler, patentes em todo o campo, ultrapassam o imaginável, mesmo para as mais pérfidas mentes humanas.

Entre 1939 e 1945, o campo de Auschwitz foi um verdadeiro matadouro humano, mas na sua imparável loucura rumo ao abismo, os nazis queriam mais. O objectivo era concluir rapidamente a chamada “solução final para o problema judeu”, assassinando cerca de 11 milhões de pessoas.
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Por isso, em 1941 construíram o campo de Auschwitz II (Birkenau), uma gigantesca fábrica de matar, onde chegaram a viver como animais perto de 100.000 pessoas.


Os prisioneiros eram transportados durante vários dias em vagões para gado, sucumbindo muitos deles durante a viagem.


À chegada, aqueles que eram considerados aptos para o trabalho escravo nas fábricas do regime eram encaminhados para o campo. A maioria, porém, seguia directamente para o extermínio nas câmaras de gás, neles se incluindo as crianças, os velhos, os doentes e as mulheres grávidas.

Nesta orgia de tortura e morte, só em Auschwitz e Birkenau foram assassinadas cerca de um milhão e meio de pessoas. Sobretudo judeus e seus descendentes, mas também ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová e adversários políticos.

A Polónia tem feito um admirável trabalho de preservação da nossa memória colectiva, mantendo de forma irrepreensível, entre outros lugares de horror, os campos de Auschwitz e Birkenau, que desde 1979 são considerados Património Mundial da Humanidade.
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O mundo jamais poderá esquecer o que ali se passou.

João Castanheira

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Um país lixado

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O Prof. Vital Moreira tem sido, para os autores deste blog, uma espécie de fonte de inspiração. Habitualmente o que ele escreve representa o contrário de tudo aquilo em que acreditamos, no entanto e no caso que levou ao presente post, não. O artigo que o Prof. escreveu na edição do Público desta última terça feira é uma síntese lapidar do país lixado que temos.

De facto, a falta de educação cívica e o inenarrável desrespeito que muitos dos nossos compatriotas têm pelo que é de todos nós, são inigualáveis. Em Portugal, o estranho hábito de sujar, emporcalhar, ocupar clandestinamente e destruir tudo o que é público, é uma prática arreigada e uma forma de vida que se colou ao ser português e que aos poucos vai destruindo e descaracterizando tudo o que de excepcional e belo ainda existe no nosso país.

Assim, e se há reforma que interessa impor essa é a reforma das mentalidades e da educação cívica, a bem do pouco que resta. O outro Portugal merece!

Luís Isidro Guarita

Força Naide!

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Temos, por hábito, justificar a nossa falta de trabalho e empenho com a proverbial e muito portuguesinha falta de sorte. No entanto e neste caso, a sorte teve de facto o seu papel!

Naide Gomes é, sem sombra de dúvida, uma atleta de excepção e um orgulho para todos aqueles que apreciam atletismo e que gostam de ver as cores nacionais vencer.

A Naide Gomes já o fez com as nossas cores por diversas vezes, desta vez não o conseguiu, sei, no entanto, que o tornará a conseguir e sei, sobretudo, que por tudo o que aquilo que já fez, merece, neste momento, o nosso maior elogio.

Força Naide!

Luís Isidro Guarita

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Em Pequim tudo normal

Até agora, tudo normal em Pequim.

Decepção no judo, decepção no tiro, decepção na esgrima, decepção no atletismo...

Um dos portugueses eliminados dizia esta manhã que à hora da prova devia era estar na caminha.

Só mesmo Naide Gomes, Vanessa Fernandes ou Nelson Évora poderão quebrar o ritmo de excursão que se apoderou da representação nacional.

Apenas eles poderão evitar que estes jogos fiquem na história pela maior comitiva turística alguma vez enviada por Portugal a uns Jogos Olímpicos.

Recorde-se que o país investiu 13 milhões de euros na preparação olímpica e que o objectivo mínimo definido pelo Comité Olímpico de Portugal passa pela conquista de 4 medalhas.

João Castanheira

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Este país não tem emenda

A história do assalto a um armazém de materiais de construção, em Loures, é toda ela reveladora do estado de agonia profunda a que chegou este país.

Tudo começou quando dois meliantes decidiram levar o filho para um assalto.
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Instados a parar por uma patrulha da GNR, os bandidos puseram-se em fuga, não hesitando em tentar atropelar o agente da autoridade que se lhes atravessou no caminho.

A GNR fez o que tinha que ser feito: disparou para tentar imobilizar a viatura, mas, por um lamentável azar, um dos tiros atingiu a criança que se escondia no interior da carrinha.

Resultado: o agente da autoridade foi constituído arguido e sujeito a termo de identidade e residência. Já os meliantes, apanhados na posse do material roubado e de um pequeno arsenal, foram de imediato postos em liberdade. Resultado: fugiram.

Soube-se agora que um dos bandidos que o tribunal se apressou a libertar e que, obviamente, se encontra a monte, era um perigoso assaltante, evadido da cadeia de Alcoentre desde o ano 2000. Apesar de ter espalhado o terror no sul do país, roubando e batendo em idosos, o assaltante foi naquela altura colocado a vindimar, em regime aberto. Resultado: fugiu.

Não me admiro que ao longo destes anos tenha vivido numa casa oferecida pelo Estado e que tenha até beneficiado do Rendimento Mínimo Garantido. Aparentemente, o cruzamento de informações só serve para perseguir os contribuintes que têm o hábito de pagar os seus impostos.

Quanto ao meliante, apesar de apanhado em flagrante, enganou o tribunal e voltou a fugir.

De quem é a culpa? Ou muito me engano ou o único culpado será o agente da autoridade que tentou cumprir a sua missão.

Este país não tem emenda.

João Castanheira

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Mais duas obras de arte!

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Pequim 2008, ou a arquitectura em todo o seu esplendor!

O Cubo de Água - Centro Nacional de Desportos Aquáticos.


.O Teatro Nacional.


E que vivam os Jogos...

Luís Isidro Guarita

Abortámos!

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O Aborto livre e à escolha do freguês foi, durante anos, a causa maior de uma certa intelligentsia cá do rectângulo, que achava que, naquele acto, se condensava toda a afirmação da mulher enquanto dona e senhora do seu corpo. 

Foi finalmente e à segunda que a causa foi adquirida e que, com tal ensejo, se tornou a mulher, em Portugal, mais livre, mais independente e sobretudo mais dona de si.

Nesta pugna pela liberdade da barriga, o arraso perpetrado sobre o valor primordial da vida humana foi um mero dano colateral.

Naqueles tempos, antes do referendo que tudo libertou, imperava em Portugal uma espécie de, diziam elas e eles, lei medieval (curiosamente similar à que existe ainda em Espanha, essa terra medieva) que oprimia e perseguia mulheres e potenciava o aborto clandestino.

Pois é precisamente neste detalhe, o do aborto clandestino, que acabámos por abortar colectivamente face à muralha da realidade.

Os números que, apesar de quase clandestinos em si mesmos, vão surgindo, não revelam uma descida acentuada deste flagelo e continuam a retratar uma realidade, no que aos mecanismos de realização do aborto concerne, em tudo idêntica àquela que tínhamos antes da nova lei. Ou seja, continuamos na mesma. E isto, tendo em conta a propaganda que esteve na base da aprovação da nova lei, é profundamente chocante!

Actualmente e após quase termos abdicado de políticas de verdadeiro incentivo à natalidade e suporte à família (as medidas entretanto aprovadas neste sentido são uma gota de água face à perda anual na natalidade) temos a aberração de, ao que tudo indica, não termos sido capazes de pôr termo à razão central que sustentava a necessidade desta nova lei. Por isto, é imperioso colocar a seguinte questão. Onde estão, agora que tudo indica que os velhos hábitos se foram mantendo, aqueles que tanto invectivavam a suposta monstruosidade da lei anterior? Já não os preocupa o aborto clandestino?

Enfim, com todas as consequências que daí decorrem e como em tantas outras coisas por cá, ao que parece, a lei do aborto abortou...

Luís Isidro Guarita

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Coitadinho do bandido

Não há paciência.

Para o Daniel Oliveira, a operação policial de ontem, na agência do BES de Campolide, foi a pior de sempre em Portugal.

Porquê? Porque um dos bandidos foi morto e para a nossa esquerda caviar isso é um erro intolerável.

Aliás, é para evitar erros como este que o Bloco de Esquerda defende que a polícia deve andar desarmada – embora os bandidos andem cada vez mais armados.

Para ilustrar na perfeição os complexos que paralisam a cabeça desta gente, o Daniel Oliveira atira-se de seguida a um comentador televisivo, que se debruçou sobre o facto dos marginais serem brasileiros.

Para o Daniel Oliveira, nem os bandidos de ontem eram brasileiros nem os de há uns dias eram ciganos. A simples constatação destes factos corresponde a uma afirmação xenófoba ou racista.

Para os bloquistas, trata-se apenas de jovens, a quem o país deve aliás um pedido de desculpas, muito apoio psicológico e um subsídio especial de reintegração.

Os parabéns à nossa polícia, que actuou com grande competência e que deu à bandidagem o sinal que era necessário dar.

João Castanheira

Belíssimo

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O Estádio Nacional de Pequim - Ninho de Pássaro - onde hoje, dia 08/08/08, às 08:08, começa a vigésima nona edição dos Jogos Olímpicos.
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João Castanheira

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O holocausto florestal


Quando era ministro do ambiente, José Sócrates decretou a imprescindível utilidade pública de uma urbanização com dois centros comerciais e sete mil e quinhentos apartamentos – a Nova Setúbal.

Como português, eu agradeço a sensibilidade ambiental do primeiro-ministro. Que avancem os bulldozers, pois o interesse público subjacente à construção de apartamentos privados não se compadece com mariquices.

Em boa verdade, para que servem 1.200 sobreiros senão para fazer lenha?

Pense-se nos benefícios ambientais deste projecto, por exemplo em matéria de saneamento básico. Serão, pelo menos, mais quinze mil retretes, que todos poderemos utilizar, já que são de imprescindível interesse público. Julgo mesmo que o lema desta nova urbanização deveria ser "em cada casa um urinol público".

De PIN em PIN, de interesse público em interesse público, avança imparável o holocausto florestal. Aqui como na Amazónia, o “progresso” vai devorando a verdura, até ao dia em que acabarmos todos com a cabeça enfiada numa saca de cimento.

João Castanheira

savemiguel.com

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Uma ideia fantástica por uma causa maior!

Visitem o site www.savemiguel.com, vão ficar agradavelmente surpreendidos sobretudo porque vale mesmo a pena. A causa que defende é de todos nós, especialmente aqueles que habitam esta nossa lusa pátria, mas não deixa de ser, ou melhor, é mesmo, uma causa universal...

Independentemente da publicidade, salvem o Miguel!

Luís Isidro Guarita

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O homem Eucalipto

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Há razões que nem a melhor das razões entende. Bem, neste caso, o do homem Eucalipto, há uma razão que entende, a razão das celuloses.

Escrevia, nas páginas de um conhecido diário cá da praça, um senhor, a que dou o cognome de o Homem Eucalipto, a propósito de uma homenagem a um suposto reconhecidíssimo silvicultor cuja obra magna foi ter aberto as serras e vales portugueses à plantação do Eucalipto, que era fundamental, senão mesmo imperioso à economia portuguesa, que se levasse a cabo um programa intensivo de plantação de eucaliptos numa tal de faixa ecológica que o tal silvicultor, que o Homem Eucalipto homenageava, havia identificado. Essa faixa ocupava, mais coisa menos coisa, todo o litoral português.

Para este homem, de pouco vale o nosso já depauperado património ambiental, as razões da razão das celuloses são o que vale, e lhe vale, pelos vistos. Não lhe interessa se o Eucalipto destrói as paisagens, os ecossistemas a biodiversidade e de caminho tenha um potencial incendiário enorme, alías exponenciado pelo clima e orografia  que temos. O que vale é o que dizia o dito silvicultor e a tal faixa ecológica (não sou tão mal este termo nesta frase?) que há para ocupar.

Plantem-se Eucaliptos, eucalipte-se, do Gerês à Ria Formosa, passando, já agora pelo Parque da Cidade no Porto e por Monsanto em Lisboa, eucalipte-se e de caminho exporte-se o Homem Eucalipto para a Austrália, que em boa verdade, é junto dos Koalas que o Homem se há de sentir bem...

E já agora, porque será que não há Eucaliptos na Suíça? Não haverá por lá nenhuma faixa ecológica para plantar? Ou será que o senso dos suíços e o seu cuidado com a preservação do património os impede de ter aberrações tipo Homem Eucalipto?

Luís Isidro Guarita



 


Que se há de fazer? A estupidez humana não tem limites!

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O João, há dias, lançava aqui um repto a favor dessa peça admirável de arquitectura que é, ou melhor, era, o mercado Kinaxixe em Luanda. Muitos outros fizeram o mesmo, procurando salvar uma peça única do património angolano. Lamentavelmente em vão...

Angola e Luanda em particular possuem, como poucas cidades em África, uma inigualável variedade de edifícios do século XX, de uma beleza arquitectónica absolutamente esplendorosa. Eles são, independentemente de quem os tenha construído (mas será que alguém imagina a demolição das igrejas na praça Zócalo na cidade do México só porque foram construídas pelos espanhóis?) um património único, que, acreditaria eu, se deveria preservar. Mas não! São, pelos vistos, para demolir.

O Kinaxixe é já uma memória...

Luís Isidro Guarita


Selvajaria

Já está. O Mercado de Kinaxixe, em Luanda, veio abaixo.

Há pouco mais de uma semana, escrevi aqui que a demolição criminosa daquele ex-libris da arquitectura modernista estava iminente.

E assim foi. O velho mercado não resistiu à gula febril - alimentada a petróleo - que tomou conta de Luanda.

No seu lugar, vai nascer mais um mono em vidro, com um centro comercial ladeado por duas torres incaracterísticas.

Em frente ao exibicionismo novo-riquista que ali se há-de instalar, continuará a existir uma espécie de musseque vertical, construído no esqueleto de um arranha-céus de 20 andares.
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Quando os comunistas aderem ao capitalismo, a selvajaria parece não conhecer limites.

João Castanheira

Um dia na vida de um Regime

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O regime soviético começou a cair no dia 11 de Dezembro de 1918! Nesse dia e nesse ano nasceu Alexandre Soljenitsin.

Foi um homem cheio de defeitos e virtudes, aliás como o século em que nasceu e viveu a maior parte da sua vida, mas foi um homem imenso!

Soljenitsin ajudou-nos, como poucos, a constatar duas coisas. Por um lado a loucura concentracionária e abjecta do regime comunista na União Soviética e por outro a absoluta hipocrisia de muitos intelectuais que, apesar das evidências, continuaram a afastar a vista da realidade daquele regime e a defendê-lo. A sua coragem e lucidez, o arrojo da sua escrita e a liberdade da sua atitude são um exemplo único e uma memória para o futuro.

Às vezes basta a coragem de um homem para mover montanhas, Soljenitsin teve-a, e nós estamos-lhe gratos por isso. Bem haja.

Luís Isidro Guarita



Os anos de chumbo e o chumbo das nossas atitudes


Durante a década de 7o em Itália, um bando de loucos dedicou-se, a coberto de uma ideologia, ao assassínio, ao rapto, à extorsão e ao roubo. Esse bando tinha o nome de Brigadas Vermelhas e ganhou a posteridade no espectacular e lamentável rapto e assassínio de Aldo Moro, à data Primeiro Ministro de Itália.

Naqueles tempos e ainda fruto de um certo fervor revolucionário que bebia na pátria do comunismo a sua inspiração, metade da Europa esteve a ferro e fogo - nós por cá tivemos o nosso PREC, com as consequências que ainda hoje se conhecem e sentem. Foram os anos de chumbo. Desses tempos, restaram as memórias e os ex.

Os ex são antigos membros destes grupos que agora, sob o peso do tempo, passeiam as suas mágoas ao abrigo das democracias que tentaram dinamitar. Alguns ficaram pelos países de onde eram originários, sem quem a lei lhes tocasse, outros foram parar aos calabouços e outros houve que, perante a lei, saltaram fronteiras.

Muitos deles encontraram na França o seu paraíso pós-revolucionário, descobrindo aí um santuário democrático para a sua reforma. A França, na sua grandeur achou, durante muitos anos, que, apesar dos insistentes pedidos de extradição, nenhuma acção devia levar a cabo para devolver estas senhoras e senhoras à justiça. 

No entanto e nos últimos anos esta atitude tem mudado e muitos destes facínoras tem sido devolvidos à justiça dos países por onde passearam a sua sanha revolucionária.

Foi nesta linha que há meses atrás o Primeiro Ministro Francês ordenou a extradição de uma venerável senhora, ex-membro das Brigadas Vermelhas. Ao fazê-lo agiu bem e sobretudo soube honrar a memória dos que às mãos destes bandos perderam as suas vidas.

Contudo e ao que parece a Sra. estará com problemas de saúde e também ao que parece, solicitou, ao abrigo desses problemas, uma suspensão, por razões humanitárias, da sua extradição.

Perante isto ocorre-me o seguinte. Caso a suspensão seja aceite que diremos nós, numa certa Europa, àqueles que por aí andam a imaginar mais uma bomba, mais um rapto, mais uma extorsão, mais um assassínio? Que está bem, que a democracia tem destas coisas, que a pulsão revolucionária há-de passar com o tempo e que pouco importa que hoje alguém morra porque no futuro haverá com certeza nesta Europa Iluminada quem se disponha a perdoar o desvario. 

Lá está, cá no continente, de facto, a saúde dixit...

Luís Isidro Guarita

 

 

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O melhor negócio do mundo

Há em Portugal um negócio mais rentável que o tráfico de droga ou o tráfico de armas.

Refiro-me à alteração do uso do solo para fins imobiliários, actividade em que se especializaram alguns investidores do nosso país.

Compram terrenos agrícolas ou industriais ao preço da chuva e, num passe de mágica, conseguem que as câmaras municipais os transformem em zonas urbanizáveis.

As mais-valias que resultam destes processos atingem, frequentemente, as dezenas de milhões de euros.

Por razões óbvias, esta é uma porta aberta à corrupção, à especulação imobiliária e ao desordenamento do território.

Toda a gente sabe o que passa, mas ninguém parece interessado em resolver o problema. Um problema que só se resolve no dia em que as mais-valias resultantes da alteração do uso do solo reverterem, integralmente, para o Estado.

Se eu fosse primeiro-ministro por um dia, esta seria a primeira medida que tomava.

João Castanheira

O condomínio "Moderna"


Há cerca de dois anos, os apetecíveis terrenos da Universidade Moderna foram vendidos a um investidor imobiliário.

Pouco depois, o investidor imobiliário anunciou para aquela área um projecto habitacional de luxo, orçado em 46 milhões de euros.

Esse projecto imobiliário não respeita o Plano Director Municipal de Lisboa.

O Plano Director Municipal de Lisboa está em fase de revisão.

Ontem, o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior anunciou a intenção de encerrar compulsivamente a Universidade Moderna, por falta de viabilidade económica.

Alguém adivinha como é que esta história vai acabar?

João Castanheira

Silly Season

O país anda, há meses, mergulhado numa depressão profunda e os portugueses têm a vaga impressão de que a classe política se está nas tintas para os seus problemas reais.

Nota-se uma divergência evidente entre as prioridades das pessoas e a cada vez mais fantasiosa agenda política. Parece haver um mundo real, onde circulam os portugueses, e um mundo virtual, onde os governantes se divertem a brincar aos países desenvolvidos.

No mundo real, o petróleo, os juros e o desemprego batem recordes diariamente. No mundo virtual, organizam-se espectáculos “bollywoodescos” para oferecer milhões de computadores aos meninos da escola primária.

No mundo real, todos os dias fecham fábricas de sapatos, soutiens e ceroulas. No mundo virtual anunciam-se fábricas de computadores, aviões e componentes para naves espaciais.

Ontem, o fosso entre os dois mundos agudizou-se, com a declaração ao país do Presidente da República.

O momento era solene. Pela primeira vez, Cavaco Silva decidira dirigir-se formalmente aos portugueses. Os assessores tinham avisado que a coisa era séria.

Às oito da noite, o país sentou-se ansioso em frente à televisão. Teria Cavaco Silva encontrado a solução para algum dos problemas do mundo real? Estaria doente? Iria anunciar a sua demissão? Teria decidido dissolver a Assembleia da República?

O ar grave e sério do Presidente da República conferiu à ocasião um dramatismo insuportável. Portugal ficou com os nervos em franja.

Ao fim de um minuto, percebeu-se que, afinal, o Presidente da República estava preocupado com o número de pessoas que teria que ouvir caso algum dia decidisse dissolver a Assembleia da Legislativa dos Açores.

Tragam os Prozacs, que a gente assim não se aguenta.

João Castanheira

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Salvar o Mercado de Kinaxixe


O Mercado de Kinaxixe, em Luanda, é uma das mais emblemáticas e importantes obras de arquitectura moderna em todo o mundo de expressão portuguesa.

Inaugurado em 1958, este fantástico edifício foi projectado por Vasco Vieira da Costa, arquitecto angolano de origem portuguesa, que teve o raro privilégio de trabalhar no escritório de Le Corbusier até ao início da década de 50.

Apontado, em todo o mundo, como um dos mais notáveis exemplos da arquitectura tropical, o Mercado de Kinaxixe é uma pérola do património cultural angolano.

Lamentavelmente, o edifício está hoje entaipado e aparentemente condenado a uma quase inevitável demolição.

A arquitecta Ana Vaz Milheiro lança, no Público de hoje, um apelo sentido e urgente: “Quem quer salvar o Kinaxixe?”.

É preciso sensibilizar as autoridades angolanas para a importância ímpar deste património, mas é também necessário que Portugal adopte uma postura activa na salvaguarda da memória colectiva dos dois países, ajudando a preservar algumas das obras arquitectónicas de referência construídas em Angola durante o século passado.

Por isso, Ana Vaz Milheiro avança com uma ideia brilhante, que o governo português deveria agarrar rapidamente: a construção de uma grande casa da cultura portuguesa no Mercado de Kinaxixe, bem no centro de Luanda.

Porque a defesa da língua e da cultura portuguesa não se faz apenas nos discursos políticos. Faz-se, sobretudo, com gestos e projectos concretos e ambiciosos.

Alguém faça alguma coisa antes que seja tarde demais.

João Castanheira

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O memorável concerto dos Kings of Convenience


Genial!

Os Kings of Convenience tocaram esta noite na Cidadela de Cascais, integrados no programa do CoolJazzFest 2008.

Não tenho memória de um concerto assim.

Aquilo que se ouve nos álbuns destes dois rapazes de Bergen é mesmo verdade: uma guitarra folk, uma guitarra clássica e duas vozes chegam para encher o palco, parecendo por vezes transformar-se numa orquestra inteira.

Já a festa ia ao rubro quando subiram ao palco dois amigos – um italiano e um alemão – acompanhados por um contrabaixo e um violino. Todos juntos, fizeram de Stay Out of Trouble um dos momentos mais memoráveis a que alguma vez assisti num concerto.

O que não estava no programa era o KO da guitarra de Erlend Øye, para a qual não havia substituto. A partir daí, os Kings of Convenience aceleraram para um imparável festival de improviso e diversão. Sem as cordas de aço, Erlend decidiu encher o palco a dançar e a “tocar” um genial mouth trumpet.

No final do concerto, Eirik Glambek Boe ainda encontrou coragem para brindar a audiência com uma versão de Corcovado, sozinho com a sua guitarra clássica.

Os Kings of Convenience são uma das razões para se amar a Noruega. Um país onde há muito mais do que bacalhau...

Que esplêndida noite de verão. Tenho pena de quem não assistiu a isto.

Para os menos atentos, aqui fica um link para Toxic Girl.

João Castanheira

Eça de Queirós


Para quem hoje folheie as páginas que há mais de um século Eça de Queirós nos deixou só pode constatar uma coisa. Aquele homem além de brilhante, era um visionário. Reler o que então escreveu, as opiniões e comentários que magistralmente redigiu sobre o Portugal que éramos é, acreditem, observar o Portugal que hoje ainda somos. Para além da beleza das suas palavras, Eça deixou-nos um retrato intemporal da condição portuguesa e uma análise única, matizada pela sua finíssima ironia e superior erudição.

Mas se a observação das virtudes que Eça tão brilhantemente legou às letras portuguesas só pode ser motivo de orgulho, já os temas que abordou e a similaritude entre a análise que então fez e a que hoje poderíamos fazer ao país, não nos pode deixar senão profundamente prostrados perante a inevitável proximidade entre o país analfabeto de então e o país analfabruto de hoje.

Portugal, de então para cá, deixou de ser uma monarquia decadente, deixou de ser uma republica maçónica e radical, deixou de ser um estado novo miserável e claustrofóbico, deixou de ser uma revolução esquizofrénica e passou a ser uma democracia europeia. Isto tudo em 108 anos e tudo isto para que continuássemos a ser os mesmos...

Talvez tenha que ser assim, talvez seja isto Portugal... Mas pronto, não há que desesperar, ontem como hoje, haja vinhaça, viola e bordoada, que o país continua

E que viva Eça de Queirós!

Luís Isidro Guarita

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Privado, mas pouco...


Há por aí muito quem defenda a privatização da Caixa Geral de Depósitos, com o argumento de que o Estado português deve retirar-se da economia.

Entretanto, soube-se ontem que o Estado angolano é já o maior accionista do principal banco privado português, o Millennium BCP.

Em Portugal, o mercado tem destas coisas...
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Por isso eu defendo que, excepcionalmente, a Caixa Geral de Depósitos deve manter-se uma instituição pública. É que Estado por Estado, prefiro o português...

João Castanheira
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Aditamento: será por a CGD dar um lucro anual de 850 milhões de euros que anda tanta gente interessada em privatizá-la? É que não se vê o mesmo entusiasmo privatizador em relação à Refer ou à CP, essas sim, tradicionalmente mal geridas pelo Estado e autênticos survedouros de dinheiros públicos... Aí é que era precisa uma boa gestão privada.

O retrocesso civilizacional


De acordo com as teses multiculturalistas, alegremente defendidas pelo Bloco de Esquerda e por uma parte importante do Partido Socialista, os emigrantes que chegam a Portugal devem manter intactos os seus estilos de vida, não sendo exigível um verdadeiro esforço de integração na nossa sociedade.

Deveríamos, portanto, aceitar a degola de borregos na via pública, a mutilação genital das mulheres africanas, a poligamia e a burka, já para não falar da ideia peregrina de leccionar aulas em crioulo...

O acolhimento de emigrantes seria assim sinónimo de destruição de uma cultura e um estilo de vida que fomos construindo ao longo de séculos. Um verdadeiro retrocesso civilizacional.

João Castanheira

terça-feira, 22 de julho de 2008

A realidade paralela da RTP

Os primeiros 10 minutos do telejornal de hoje da RTP foram gastos com a notícia da prisão de Radovan Karadzic.

Não foram 2, nem 3, nem 4. Foram 10 minutos, em horário nobre. Uma imparável sequência de directos, imagens de arquivo, testemunhos, opiniões e entrevistas.

Pouco parece importar o caos social na Quinta da Fonte, o mergulho no abismo da Bolsa de Lisboa ou o clamoroso fracasso da PJ no caso Maddie.

Não havendo futebol, arranje-se qualquer coisa capaz de afastar os portugueses da enxurrada que ameaça arrastar o Partido Socialista.

João Castanheira

O Portugal subsidiado

À porta de muitos dos prédios da Quinta da Fonte estão estacionados carros de alta cilindrada.

Alguns dos moradores que sairam do bairro lamentam o roubo dos seus plasmas e leitores de DVD.

Mas, de acordo com a Câmara Municipal de Loures, 90% da população activa residente na Quinta da Fonte vive do Rendimento Mínimo Garantido.

E 95% das famílias ciganas que abandonaram o bairro nunca pagaram a renda de casa nem a conta da água.

Isto apesar de beneficiarem de rendas sociais, na maioria dos casos com o valor de 4,26 € por mês.

Tudo isto começa a revoltar o Portugal que trabalha. O Portugal que vai pagar 25o.ooo euros pela reparação das casas vandalizadas.
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E que, por acaso, é o mesmo Portugal que teria que pagar as casas novas exigidas por alguns dos moradores da Quinta da Fonte.

João Castanheira

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Sócrates embevecido com Angola


José Sócrates afirmou ontem, em Luanda, que o “trabalho que o governo angolano tem feito é, a todos os títulos, notável”.

Não sei a que trabalho se refere o primeiro-ministro, mas a frase poderia aplicar-se, por exemplo, à forma competente como a elite dirigente angolana suga para os seus próprios bolsos toda a riqueza do país. Talvez não seja possível encontrar em todo o planeta quem tão bem trabalhe este nicho de actividade.

Sócrates acrescentou ainda que Angola tem hoje um enorme “prestígio internacional” e que é “um dos países mais falados e reputados”.

De facto, o prestígio de Angola é enorme. Apesar de ser um dos países mais ricos do mundo, surge invariavelmente no fim da lista do índice de desenvolvimento humano publicada pelas Nações Unidas, lado a lado com os países mais miseráveis de África.

A reputação de Angola – ou do governo angolano – está também acima de qualquer suspeita. Sem eleições desde 1992 e com um Presidente da República no poder há 30 anos sem nunca ter sido eleito, Angola é universalmente aclamada como o paradigma da democracia do futuro.

Este tipo de declarações ultrapassa largamente o pragmatismo diplomático e económico a que o primeiro-ministro está obrigado. Frases como estas ficam-lhe mal e fazem-nos, a todos, sentir muita vergonha.

O mundo inteiro sabe como e com quem se fazem os negócios em Angola. O mundo inteiro sabe para onde vão os biliões do petróleo e dos diamantes. O mundo inteiro sabe porque continua o povo angolano a viver e a morrer na mais obscena miséria.

Por isso, recomendar-se-ia a Sócrates algum recato.

João Castanheira

terça-feira, 15 de julho de 2008

Inversão de valores

Não posso fumar na discoteca. Mas posso drogar-me na cadeia.

A ASAE persegue-me por ser fumador. O IDT ensina os meus filhos a injectarem-se.

Tenho que esperar três anos para ser operado às cataratas. Mas, se lhe der para isso, a minha mulher pode abortar de urgência num hospital público.

Pela minha operação às cataratas, pagarei uma taxa moderadora. Já o aborto livre está isento de qualquer taxa.

Se o meu filho for às aulas e se aplicar a fundo vai conseguir passar de ano. Se não puser os pés na escola passa na mesma. Caso nem sequer se tenha inscrito, pode sempre obter o diploma do 12º ano numa entrevista das Novas Oportunidades.

Se eu deixar de trabalhar e montar uma barraca, recebo o rendimento mínimo garantido e uma casa de graça. Mas se me esfolar a trabalhar para pagar o apartamento que comprei, pago 42% de IRS, 11% para a Segurança Social, mais o IMT, o IMI, o imposto de selo e os juros bancários galopantes.

Se montar um negócio de pequeno tráfico e tiver cuidado com a quantidade de droga que transporto, o mais certo é que não me aconteça nada. Mas se abrir uma fábrica de produção artesanal de amêndoas de Portalegre, a ASAE acaba-me com o negócio.

João Castanheira

domingo, 13 de julho de 2008

Brandos costumes

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O caldo social que o país tem vindo a cozinhar ao longo dos últimos anos rebentou esta semana. Foi no bairro da Quinta da Fonte, em Loures, mas poderia ter sido noutro subúrbio qualquer.

O país dos brandos costumes parece ter sido surpreendido com aquelas imagens de guerrilha urbana. Um tiroteio com armas de guerra em plena via pública, que trás à memória a anarquia reinante nos morros favelados do Rio de Janeiro.

Mas, em boa verdade, não há razão para surpresa.

Mais de 30 anos de complexos de esquerda, conduziram ao enfraquecimento e à desautorização das forças de segurança. Nos dias que correm, polícias de bicicleta e calção fingem patrulhar ruas onde circulam bandidos armados até aos dentes.

A desculpabilização do crime e o excesso de lotação das cadeias despejam na rua, todos os dias, assassinos, traficantes, ladrões e violadores. Marginais que se riem da debilidade das forças de segurança e que brincam com a inoperância da justiça.

Uma política de realojamento anacrónica amontoou em gigantescos bairros sociais – como a Quinta da Fonte – milhares de pessoas que são condenadas viver cercadas pelo crime, em guetos que se tornaram autênticas escolas de marginalidade.

Finalmente, uma política de emigração excessivamente permissiva e irresponsável, criou expectativas de acolhimento a centenas milhar de emigrantes que o país não tem, infelizmente, condições para receber.

O resultado está à vista e deixa-nos, a todos, de cabelos em pé.

Mas, tal como sucedeu com o arrastão da praia de Carcavelos, não me admiro que apareça por aí uma Ana Drago qualquer a negar a ocorrência deste episódio. Terão, eventualmente, sido dois ou três meninos que se envolveram numa inocente luta de bisnagas.
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Qualquer outra leitura será considerada pela nossa esquerda como alarmista, xenófoba ou racista.

João Castanheira

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Arte Nova em Aveiro


Cem anos após a construção, a Casa Major Pessoa, em Aveiro, recuperou o esplendor de outrora.

Para quem se interessa por arquitectura e património, vale a pena visitar aquela que é a jóia da coroa da Arte Nova aveirense. Uma construção que surpreende pelas linhas ondulantes, os ferros forjados, a pedra trabalhada e os riquíssimos painéis de azulejos.

Aveiro é, provavelmente, a capital nacional deste estilo arquitectónico, pelo que se saúda o irrepreensível trabalho de recuperação levado a cabo pela Câmara Municipal e, sobretudo, a ideia de transformar a Casa Major Pessoa no Museu Arte Nova.

Agora, depois de um passeio de moliceiro na ria e uma barrigada de ovos-moles, nada melhor que um mergulho nesta fantástica obra de Francisco da Silva Rocha e Ernesto Korrodi.

Por momentos, a visita à Casa Major Pessoa transporta-nos à Casa Batlló, obra-prima que Antoni Gaudí ergueu no Passeig de Gràcia em 1906.

Aveiro está melhor do que nunca.

João Castanheira

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O sorriso de Ingrid

Há momentos que entram instantaneamente para a história.

A libertação de Ingrid Betancourt e dos seus companheiros de cativeiro é um desses momentos mágicos. Um daqueles instantes que ficam gravados na memória de quem tem o privilégio de os testemunhar, ainda que à distância de milhares de quilómetros.

O sorriso de Ingrid trouxe-me à memória um outro momento mágico – a libertação de Nelson Mandela. Depois de quase 30 anos encarcerado, Mandela quis deixar a prisão caminhando a pé, sorrindo... Foi uma caminhada plena de significado: para trás ficava um passado de sofrimento e qualquer ressentimento ou desejo de vingança. Ali começava o futuro e o futuro passava, necessariamente, pela reconciliação. Só um homem grande, talvez o maior de todos os homens do nosso tempo, poderia dar ao mundo semelhante lição.

Ontem, em apenas 22 minutos e 13 segundos, as forças armadas e os serviços secretos colombianos puseram fim a 2321 dias de cativeiro. Sem um único tiro, através de uma operação de libertação genial, que há-de, também ela, ficar para a história.

Durante mais de 6 anos, Ingrid Betancourt foi mantida em cativeiro por um bando de terroristas selvagens, raptores desumanos e traficantes de droga – as FARC – organização criminosa que continua a seduzir uma parte da nossa esquerda mais radical.

Há pouco mais de um mês, o PCP tinha subscrito, em conjunto com outros partidos comunistas da União Europeia, um documento apelando a que as FARC fossem reconhecidas como combatentes e imediatamente retiradas da lista europeia das organizações terroristas... Serão o quê então?

Ingrid lutou, resistiu, sobreviveu... E ontem saiu a sorrir. Obrigado Ingrid.

João Castanheira

Exames tipo Totobola

Maria Filomena Mónica é uma das mulheres mais cultas e interessantes deste nosso pobre país.

Conforme se conta no Público de hoje, a socióloga decidiu mergulhar nos programas e nos exames nacionais de Português do ensino básico e secundário. E ficou estarrecida.

Concluiu que os actuais exames de Português “poderiam ser facilmente substituídos por uns papeluchos como os do totobola, nos quais os alunos fariam ao acaso umas cruzinhas, sendo estas posteriormente contadas por uma máquina”.

Para Maria Filomena Mónica, e para todos nós, a mutilação dos exames foi deliberadamente planeada, no sentido de os tornar mais simples.

“A responsabilidade pelo desastre – porque é de um desastre que se trata – é, em primeiro lugar, de Maria de Lurdes Rodrigues, uma ministra cujo objectivo passou a consistir em baixar o insucesso escolar por via burocrática”.

Mais do que um desastre, trata-se de um crime!

João Castanheira

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A taxa "Robin dos Bosques"

O primeiro-ministro admitiu ontem estar a estudar a criação da chamada taxa “Robin dos Bosques” – um imposto especial a aplicar aos lucros das empresas petrolíferas, cuja receita seria usada no apoio aos mais desfavorecidos.

Apesar da sua natureza propagandística, a medida pode até parecer justa, tendo em conta o aumento dos lucros declarados pelas petrolíferas. Mas, em boa verdade, quem irá pagar a taxa “Robin dos Bosques”?

Tratando-se de um custo adicional para as empresas, é óbvio que no dia em que a taxa for criada – ou até antes disso – as petrolíferas vão aumentar o preço dos combustíveis, de forma a não saírem prejudicadas.
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É que o mercado dos combustíveis é livre e, nessa medida, qualquer custo adicional que o governo imponha aos operadores será, de uma forma ou de outra, repercutido nos consumidores.

Na prática, a taxa “Robin dos Bosques” representará, ainda que de forma encapotada, um novo aumento da carga fiscal sobre os combustíveis. Será, portanto, paga pelos já depauperados consumidores.

Isto faz lembrar a brilhante ideia de acabar com o chamado “Aluguer do Contador” no fornecimento de água. Ao acabar com uma receita que não era sua, os socialistas esqueceram-se que os municípios e as empresas que operam no sector da água não podem viver sem cobrar o serviço que prestam. No mesmo dia, os operadores do sector lançaram a “Taxa de Disponibilidade” e os consumidores continuaram a pagar exactamente o mesmo.

O que ganhará o país com este tipo de palhaçadas?

João Castanheira