segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Da Mina de São Domingos ao Pomarão

As ruínas do couto mineiro de São Domingos, no concelho de Mértola, são o cenário ideal para um filme de ficção científica. Terra vermelha, crateras, destroços, escórias, escorrências ácidas, lagoas coloridas, ferros retorcidos e um intenso odor a enxofre mergulham os visitantes numa experiência quase apocalíptica.

Não é possível descrever a força imensa que emana deste lugar singular. Um lugar simultaneamente belo e medonho, onde são escassos os sinais de vida. Pouco mais que umas ervas raquíticas e uns insectos de cores garridas. Creio que em nenhum outro recanto de Portugal a devastação e a catástrofe produziram algo de tão extraordinariamente belo.

Os primeiros testemunhos de actividade mineira na região de São Domingos remontam à época romana. Mas foi em 1857 que a exploração em larga escala arrancou, em resultado da concessão atribuída a uma sociedade de origem espanhola – a La Sabina – que no ano seguinte acabou por arrendar os direitos de prospecção aos ingleses da Mason & Barry.

Em poucos anos, São Domingos transformou-se num dos maiores complexos mineiros da Europa. Uma pequena cidade industrial, onde não faltava uma central eléctrica, um hospital, uma biblioteca, um teatro, um mercado e uma igreja.


Existiam ainda campos de jogos, aprazíveis açudes e, sobretudo, uma fantástica linha férrea, com dezoito quilómetros de extensão, que ligava a mina ao porto fluvial do Pomarão, a partir do qual o minério era escoado em grandes navios que então subiam o Guadiana.

Nos bairros operários situados em redor do complexo chegaram a viver quase dez mil pessoas. Os mineiros habitavam as célebres 4 x 4, casas térreas em banda com quatro por quatro metros quadrados, uma porta e uma janela.

Ao longo de mais de cem anos, os homens esventraram a terra em busca de cobre e enxofre. Primeiro em galerias subterrâneas, depois a céu aberto.

Com o aproximar do esgotamento do filão, a exploração terminou em 1965 e a Mason & Barry declarou falência três anos depois. Os salvados da mina foram então vendidos a um sucateiro alemão e o resto do valiosíssimo património industrial do complexo foi barbaramente saqueado durante os anos seguintes. Ficou apenas aquilo que os homens não conseguiram levar.

A visita à Mina de São Domingos começa, necessariamente, nas ruas estreitas dos bairros operários, cujas minúsculas casas foram entretanto vendidas aos antigos trabalhadores e às suas famílias. Com um pouco de sorte, é possível visitar a Casa do Mineiro, pequeno núcleo museológico que recria a vivência de uma família mineira, com os seus objectos e as suas memórias.

Descendo ao complexo mineiro, a atenção do visitante dirige-se para uma gigantesca cratera, completamente cheia de águas ácidas. É a corta, cavidade de onde foram retirados milhões de toneladas de minério.
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Parece um tanto ou quanto irreal, mas a verdade é que até há alguns anos atrás as lagoas ácidas da mina, cujo pH se situa ente 2 e 3, eram procuradas por gente que aqui se banhava em busca de cura para alguns problemas de saúde!

Um pouco adiante, encontram-se as oficinas de material circulante, onde foi projectada e construída a locomotiva a vapor que durante décadas galgou os montes que separam São Domingos do porto fluvial do Pomarão, arrastando vagões carregados de minério.

Por ali se encontram também as ruínas da primeira central eléctrica do Alentejo e os destroços do poço n.º 6.

Seguindo ao longo do traçado da linha férrea, cujos carris e travessas foram há muito saqueados, vão surgindo sucessivas lagoas ácidas, cujas águas oscilam entre o vermelho vivo e o amarelo forte. Uma intensa profusão de cores, que confere uma riqueza cénica sem igual a esta fase inicial do percurso.

Cerca de dois quilómetros após o início do complexo, encontra-se a estação de britagem da Moitinha e, logo afrente, as antigas fábricas de enxofre e ácido sulfúrico da Achada do Gamo.



As ruínas destas instalações fabris oferecem, provavelmente, a mais célebre das imagens do complexo mineiro de São Domingos.
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O cenário de devastação e abandono entende-se ao longo de mais de cinco quilómetros e constitui, sem margem para dúvidas, um dos mais fabulosos percursos de arqueologia industrial do país.

Após o fim do couto mineiro e seguindo sempre o traçado daquela que foi a segunda via-férrea construída em Portugal, a paisagem torna-se um pouco monótona e algo desinteressante. Felizmente, a viagem vai sendo animada por enormes famílias de porcos e bacorinhos pretos, que deambulam livremente pelos campos, observados ao longe pelos abutres que planam no céu.

A inclinação da ladeira que sobe em direcção à aldeia de Santana de Cambas, transporta-nos para o tempo em que as locomotivas puxavam vagarosa e esforçadamente os vagões carregados de minério.

Praticamente todas as pontes que existiam ao longo dos dezoito quilómetros da linha estão destruídas, obrigando os caminhantes a passar a vau os minúsculos cursos de água, o que é possível fazer sem grande dificuldade. Na verdade, durante o Verão não é sequer necessário molhar os pés.


Os últimos cinco quilómetros do caminho que conduz ao cais do Pomarão voltam a ganhar contornos de aventura! Há que atravessar uma sucessão de sete túneis, alguns dos quais razoavelmente extensos e repletos de morcegos.

Mais de quarenta anos após a passagem do último comboio, a natureza vai tomando conta de algumas partes do percurso. A vegetação e os desmoronamentos obrigam a pequenos desvios, mas a chegada ao Guadiana faz-se sem sobressaltos.

Por fim, o Pomarão. Uma deliciosa e pacata aldeia operária, erguida numa belíssima curva do Guadiana, na confluência com a ribeira do Chança. Quem hoje ali chega, tem dificuldade em imaginar a agitação e a vida de outrora, no tempo em que mais de quinhentos navios por ano recebiam o minério de São Domingos e o espalhavam pelo mundo. As ruínas do cais mineiro e a memória dos homens estão lá para testemunhar um passado difícil mas, indiscutivelmente, glorioso.


Depois de décadas de miséria e abandono, a Mina de São Domingos vai aos poucos acordando para uma nova vida. Na barragem da Tapada Grande, nasceu uma agradável praia fluvial. Mesmo em frente, o palácio dos ingleses – outrora sede da empresa mineira – foi transformado numa esplêndida estalagem onde apetece ficar. E, surpreendentemente, o investimento turístico chega pela mão da La Sabina!

Só é pena que o progresso anuncie para breve a construção de uma ponte internacional e uma grande estrada para o Pomarão. Um investimento que há-de dizimar o maior tesouro desta região: as águias, os grifos, os mochos, os veados, os saca-rabos e, sobretudo, a imensa paz...

João Castanheira

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Umas casitas


Como eu percebo o manto de silêncio que, há 30 anos, cobre um dos mais obscenos segredos de Lisboa.
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Ao longo destas três décadas, os pobres foram arrumados em bairros sociais e os remediados enxotados para o inferno dos subúrbios.

Já as 3.200 casas que constituem o apetecível património da autarquia no centro da cidade foram distribuídas, de forma absolutamente discricionária, por intelectuais, dirigentes políticos, funcionários, amigos, filhos e primos.

Entre os beneficiários, contam-se a vereadora Ana Sara Brito, o escritor e jornalista Batista Bastos, a chefe de gabinete do vice-presidente da câmara Isabel Soares ou o director municipal José Bastos. Uma lista que promete revelações aterradoras.

Num país civilizado, a divulgação desta história sórdida faria, necessariamente, rolar cabeças. Num país europeu do século XXI, todas as casas seriam, de imediato, entregues à autarquia, que trataria de as atribuir a famílias carenciadas ou, em alternativa, trataria de as colocar no mercado de arrendamento a preços justos.

Por cá, espera-se que a poeira assente, para que a paz volte ao lar dos felizes contemplados. Veja-se a desfaçatez com que um director municipal fala de uma casa que não é sua: “O meu filho é que mora lá. Não tenho dinheiro para lhe comprar uma casa nova... Além disso, é a minha casa de reserva. Se amanhã tiver de me separar, para onde vou?”.

É o drama, a tragédia, o horror. Atingimos o grau zero da decência. A generalidade dos portugueses, que não pode oferecer casas aos filhos nem tem apartamentos de reserva - pelo menos públicos - assiste incrédula a este espectáculo pornográfico.

Julgo que o país não perdoará a António Costa se esta sujeira não for rapidamente limpa. Custe a quem custar.

João Castanheira

sábado, 27 de setembro de 2008

Nós na terra e o Sr. Chavéz nas alturas


Ao que parece, e chegado pela calada da noite, o Sr. Chávez passou outra vez aqui pela West Coast para deixar por cá mais uns cobres para a malta.

Começa, portanto, a ser um hábito sermos visitados pelo homem da camisola vermelha, o que, convenhamos, é, só por si, uma belíssima imagem da modernidade com que nos veste este nosso governo.

Claro está que há uns pequenos detalhes que, para lá do óleo viscoso que o Sr. transporta, tendem a dar um tom um tanto bafiento a esta modernidade hiper progressista, mas pronto, nada que um bom negócio com o hermano de além mar não resolva.

Contudo e porque na verdade a coisa começa a raiar a estupidez, é caso para perguntar, não haverá na malta que estende, em representação de todos nós, os braços ao Sr. Chávez, um pingo de vergonha para perceber que os abraços que se estão a dar abraçam um ditador?

Luís Isidro Guarita

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

E que viva o Capitalismo!


O Arrastão já rende!

Não é o da Pesca é o do Daniel, o blog.

Ele há coisas do arco da velha, então não é que o blog do Daniel, o Arrastão, também tem pub! Fixe não é?

E já agora, que pub tem o Arrastão? Tem pub a uma empresa de concessão de crédito - dinheirito a troco de juros, malta -. Não é baril? Cool mesmo! O Daniel ganha umas massas com o blog, e logo à conta do capitalismo especulativo. O Daniel é mesmo esperto, não é?

Por um lado debita e destila impropérios contra essa malta gananciosa do subprime e coisa que o valha e por outro recebe o carcanhol da malta da concessão de crédito ao pessoal que anda teso e que necessita de uns trocos para o Plasma HD. É mesmo de génio, não acham?

E já agora e aqui para a malta do Num Lugar, não há por aí nenhum patrocínio disponível? Nós também vociferamos contra o que for preciso. A sério!

Luís Isidro Guarita

Sur les Pavés, la Plage!

É oficial, Portugal tem, finalmente, o seu Maio de 68!

Se os Cohn-Bendits daqueles tempos gritavam que era proibido proibir, as Lurdes Rodrigues de hoje gritam que é proibido chumbar. E que bem que soa, não é?

Acabemos então com o velho mundo e escancaremos as portas ao novo, até porque a acção não deve ser uma reacção - antes que umas quaisquer estatísticas nos estraguem o arranjinho -, mas uma criação e é tempo, por isso, de dizer que a imaginação tomou o poder. E que melhor imaginação que imaginar que por decreto, todos somos génios? Lindo, não é?

E assim foi, o sonho glorioso da educação em Portugal aboliu essa coisa do passado que era o chumbo e decretou a excelência. Não há tempo a perder, avancemos que o futuro espera por nós, algures entre a indigência e a estupidez colectiva, há um amanhã e um novo Maio que canta.

Cantemos pois, cantemos e sejamos realistas, exijamos o impossível... É que a Sra. Rodrigues não o fez por menos!

Luís Isidro Guarita

Carlos V e o futuro, ou a viagem de Fernão de Magalhães contada à pequenada, 500 anos depois e através do Classmate.

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Pronto, já está, a coisa resolve-se de uma penada e de caminho, entre festança e festarola, lá vamos, alegres e contentes, observando a trupe que passa com o seu elixir da saúde eterna, neste caso educação imediata.

De norte a Sul, de Miranda do Douro à Figueira da Foz, de Barrancos a Matosinhos, lá anda o Sr. Ministro da Economia da West Coast de braço dado com a Sra. Ministra da Educação distribuindo, em glória, a iluminadíssima solução para todos os males da criançada indígena. 

A coisa, azul, parecida com um tal de Classmate e que dá pelo nome de Magalhães - ao que parece um Sr. cá da nação que há coisa de 500 anos vendeu os seus serviços a um tal de Carlos V, à data e ao que parece também, Rei de Castela, um sítio que mais coisa menos coisa agora dá pelo nome de Espanha e que, pelo caminho e algures no actual arquipélago das Filipinas se deixou morrer sem nunca completar o serviço que havia prometido a sua Majestade Imperial - é, de acordo com os óraculos, a solução porque todos ansiávamos! 

Não vem com o nevoeiro, isto apesar de há dias ter reparado, confesso, uma certa neblina numa das muitas viagens do ministro da West Coast, mas vem do dinheiro que muita gente, com certeza mal intencionada, acharia que se deveria gastar a dotar as nossas escolas dos meios de que tanto e em tantos sítios carecem, mas isso são contas de outro rosário e os Ministros têm pressa...

Mas voltemos ao que interessa e deixemo-nos de pormenores. É um facto, o Classmate, perdão, Magalhães, é a circum-navegação, desculpem, solução que estávamos à espera. A partir de agora não há que temer, sejam nativos da ilha de Mactan, sejam putativos chumbos. Tudo isso e de acordo com a verdade oficial é história, o futuro agora é outro e está na ponta de um teclado. Aproveite pois, caro concidadão, e ponha as criancinhas a navegar. Reze, no entanto, para que não fiquem pelo caminho, como o outro, e lhes apareça depois lá em casa um tal de Elcano a dizer que o mundo é mesmo redondo. É que ele de facto é, só que nem sempre o é para todos... É que há alguns, como esse tal de Magalhães, o de há 500 anos, que ficam pelo caminho.

Luís Isidro Guarita
 

Podemos estar descansados

A ASAE, organismo que se especializou na apreensão de bolas de berlim e colheres de pau, emitiu ontem um comunicado onde afirmava que “a importação de leite e produtos lácteos provenientes da China é proibida na União Europeia desde 2002”, acrescentando que “não possuiu qualquer evidência de que possam ter ocorrido exportações ilegais para Portugal”.

No mesmo dia, o Público foi às compras e, sem ter que procurar muito, adquiriu iogurtes líquidos e bebidas de leite chinesas, num supermercado da cidade do Porto.

Podemos estar descansados.

João Castanheira

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Eu não lhes acho piada nenhuma...


Após o colapso do comunismo, muita gente passou a olhar o PCP como uma organização simpática e inofensiva. Uma espécie de penacho no chapéu da democracia portuguesa, tantas vezes útil por incomodar o poder instalado.

O rosto humano de Jerónimo de Sousa, que ao contrário de Cunhal se deixa filmar a dançar o vira e a chupar sardinhas assadas, quase faz esquecer os milhões de vítimas do comunismo. Foram gerações inteiras sujeitas à miséria, à tortura e à morte, em nome dos ideais criminosos que esta gente continua a defender.

Uma gente que esteve à beira de empurrar Portugal para o abismo de uma feroz ditadura de inspiração soviética. Uma gente que finge não ter visto o irreprimível grito de liberdade que varreu a Polónia, a RDA, a Checoslováquia, a Hungria ou a União Soviética. Uma gente que ainda hoje acredita – ou diz acreditar – que o futuro da humanidade está na Coreia do Norte ou em Cuba.

Leia-se o projecto de Teses do XVIII Congresso do PCP, onde entre outras preciosidades se escreve: “Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à «nova ordem» imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia.”

Tivesse esta gente a possibilidade de assumir os destinos do país e Portugal acabaria, irremediavelmente, como uma espécie de Cuba da Europa. E, apesar do rosto humano do camarada Jerónimo, muitos de nós acabaríamos, no mínimo, presos.

É por isso que eu não lhes acho piada nenhuma...

João Castanheira

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Alguém me acertou com um Magalhães


Socorro! Escondam as crianças na cave.

Anda por aí uma turba ululante a atirar Magalhães à cabeça dos nossos pequenos.

Parece que o próprio primeiro-ministro e mais dez governantes decidiram tirar o dia para arremessar milhares de "PlayStations" à testa da criançada. O governo em peso está a correr o país, de lés a lés, com as câmaras de televisão às costas.

Agora é que isto vai. Este ano, os nossos jovens já tinham sido atacados por um surto de inteligência fulminante, que cortara drasticamente os chumbos e elevara ao zénite as médias em todas as disciplinas.

Agora, com o Magalhães, a meta é zero chumbos - ministra da educação dixit. A partir de hoje, nenhum português vai reprovar. O chumbo foi oficialmente banido do nosso sistema de ensino. Todos os alunos serão classificados com um 40, numa escala de 0 a 20. O Eurostat que embrulhe esta estatística.

E mais: se o Partido Socialista continuar no governo, dentro de poucos anos cada criança sairá da maternidade - mesmo em Badajoz - com um Magalhães e um douturamento honoris causa às costas.

Podemos transformar-nos num país de brutos e analfabetos, mas seremos todos diplomados.

Connosco, no caminho para a construção do homem novo, estarão a Namíbia e a Venezuela, nações prósperas e luminosas que já aderiram à distribuição gratuita do Magalhães.
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A este tridente de ataque, que se prepara para dominar o mundo no século XXI, falta juntar o Zimbabwe.

João Castanheira
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PS: a partir de sábado há Magalhães à venda na Feira da Ladra.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A globalização somos nós!

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Ontem, num texto notável escrito nas páginas do Público, Rui Ramos demonstrava o quanto muito do que hoje em dia se está a passar no mundo financeiro se deve à democratização do acesso, pelas famílias, a recursos financeiros inimagináveis até há bem pouco tempo que, por via do crédito fácil, mas sobretudo barato, lhes proporcionou a possibilidade de obterem bens e serviços a que, em condições diferentes, jamais teriam acesso. Mas não se tratou apenas de obter esses bens e serviços, tratou-se, igualmente, de manter, através desse crédito, níveis de vida por vezes incompatíveis com os rendimentos de que efectivamente dispunham. E foi aí que a bolha começou a esvaziar.

Este simples facto é, nas suas múltiplas dimensões e como tão claramente nos explica Rui Ramos, a verdadeira face da globalização. Por muito que grupos e grupelhos por esse mundo fora gritem à frente de um microfone ou câmara de televisão os chavões do momento contra o papão da globalização e os seus demónios na forma de multinacionais que tudo exploram e tudo submergem aos seus interesses, foram também esses mesmos papões e demónios que permitiram a manutenção e até elevação da qualidade de vida de muitos dos que, pelos fóruns do mundo, vociferam o seu ódio contra o planeta global.

Mas a verdade é esta, a globalização somos nós. Sem ela, o mundo poderia não ser o mesmo, mas seria, sem dúvida, um mundo pior.

Luís Isidro Guarita

Que tal pedir a ajuda de Luanda?

Ainda sobre a falta de transparência na formação do preço dos combustíveis, em particular no caso da Galp, talvez esteja na hora pedir a intervenção do Governo.

Não me refiro ao português mas sim ao angolano!

Nestas coisas, é melhor falar com quem manda.

João Castanheira

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Lula e os outros.

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Se não me engano, Luís Inácio Lula da Silva foi eleito presidente do Brasil à quarta, após derrotas com Fernando Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso.

Lula da Silva, como habitualmente é conhecido, vem do PT, partido dos trabalhadores, de inspiração comunista, mas tem sido, na prática, um presidente socialista, na linha de alguma social democracia europeia. Neste pormenor, entre ele e outros dessa mesma área que povoam a América do Sul, há um universo de distância.

Onde Lula é ponderado, sensato e, sobretudo, actual na interpretação que faz do mundo que o rodeia, os outros são excessivos, prepotentes e, mais grave, revanchistas.

Lula é por isso e apesar das enormes diferenças ideológicas que tem para com os autores deste blog, um oásis num continente onde começa a abundar a loucura política.

Desta evidência são exemplo perfeito os mais recentes acontecimentos na Bolívia. Naquele país onde se exigia ponderação e inteligência para a resolução dos enormíssimos problemas que o afligem, há, nestes dias, o oposto. E isto acontece fundamentalmente por duas razões. Porque há um presidente que ao invés de fomentar o diálogo fomenta a dissolução das partes em confronto e assume-se como líder de facção. E porque há, no norte do continente, sentado sobre um barril de petróleo, um demente que dedica os seus dias a despejar petróleo desse barril pelo continente para em seguida o atear.

A actuação de Lula na recente cimeira de países Sul-Americanos e a sua postura perante a quase guerra civil que se abateu sobre a Bolívia revela, só por si, a enorme diferença entre ele e os outros presidentes do continente, mas revela, sobretudo, que hoje o Brasil é, de facto, a maior potência da América do Sul, seja pela sua dimensão e riqueza, seja, essencialmente, pelo exemplo dos que o governam.

Uma nota final. É curiosa a notória indiferença com que a esquerda portuguesa trata Lula e adula Chávez e Morales. Este detalhe, pelo que contém, revela muito do que esta esquerda hoje de facto é...

Luís Isidro Guarita


Especulação e ignorância


A cotação do petróleo está hoje ao mesmo nível a que estava em meados de Dezembro de 2007. Mas cada litro de combustível custa agora mais cerca de 10 cêntimos do que custava naquela altura.

É óbvio que o mercado nacional dos combustíveis rodoviários não funciona. E não funciona porque é dominado por 3 empresas – a Galp, a Repsol e a BP – que repartem entre si mais de 80% do mercado. Como nenhum destes operadores está disposto a ganhar quota de mercado à custa duma política agressiva de preços, a concorrência não passa de uma miragem.

Ainda que informalmente, vigora no mercado dos combustíveis um pacto de não agressão, que é do interesse das empresas e dos seus accionistas. O presidente executivo da Galp, um dos mais competentes gestores deste país, está por isso a cumprir o seu papel.

Já o mesmo não se pode dizer da Autoridade da Concorrência, que se limita a constatar não existirem provas concretas de cartelização. Ora, mal estaríamos se as petrolíferas precisassem de se reunir ou trocar correspondência para combinar preços!

Dito isto, é também surpreendente a ignorância com que esta matéria é abordada pela maioria dos órgãos de comunicação social e até por alguns alegados especialistas em energia.

Dizia hoje um dos tais especialistas que, se ao longo dos últimos 2 meses a cotação do crude caíra 40%, o preço dos combustíveis deveria ter baixado em igual percentagem.

Ora, esta afirmação revela uma ignorância atroz, pois, como se sabe quase 60% do preço da gasolina corresponde a impostos cobrados pela Estado (ISP e IVA). Logo, uma descida de 40% no preço do crude poderia, no limite, produzir uma redução de cerca de 16% no preço da gasolina e nunca de 40%!

O problema é que, até agora, a redução se ficou pelos 5%...

João Castanheira

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A Quinta do Ambrósio


A Quinta do Ambrósio é o paradigma de um certo Portugal.

Aqui há uns anos, aquela propriedade do concelho de Gondomar foi transaccionada por 1 milhão de euros, um valor baixo, já que o terreno estava afecto à Reserva Agrícola Nacional, não tendo, por isso, capacidade construtiva.

Seis dias após a transacção, a quinta – que já não era do Ambrósio – foi vendida a uma empresa pública, a STCP, pelo valor de 4 milhões de euros. Com a garantia de que seria desafectada da Reserva Agrícola Nacional. E foi mesmo.

Ao ganhar capacidade construtiva, o terreno viu o seu valor multiplicado por quatro, gerando em poucos dias uma mais-valia de 3 milhões de euros.

Essa mais valia foi paga pelos contribuintes, que todos os anos são convidados a financiar, através dos impostos, o défice crónico da STCP.

E onde foram parar estes milhões?

Citando o que escrevem hoje vários órgãos de comunicação social, aos bolsos de um dos filhos do Presidente da Câmara de Gondomar, do Vice-Presidente da mesma autarquia e de um ex-dirigente do Boavista. Gente com queda para o negócio.

Às vezes penso que, por um qualquer capricho da natureza, Portugal acabou plantado a norte do continente que lhe estava destinado.

João Castanheira

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O fim da linha

Ontem, um homem descarregou a pistola em cima de outro, deixando-o às portas da morte.

O crime ocorreu no interior duma esquadra da PSP, o que começa a ser normal aqui pela West Coast of Europe.

Hoje, o juiz de instrução criminal do Tribunal de Portimão colocou o homicida em liberdade.

O agressor poderá assim deslocar-se ao hospital para completar o serviço. Quer-me parecer que quem dispara 5 tiros no interior duma esquadra, não verá problema de maior em aviar mais 2 ou 3 na unidade de cuidados intensivos do Hospital de São José.

É devido um agradecimento a este juiz, que expôs ao ridículo as leis penais que vigoram neste WC da Europa. Leis que, invariavelmente, protegem o bandido e abandonam a vítima à sua sorte.

O último a sair que apague a luz...

João Castanheira

Agora é que isto vai

Aos poucos, os vereadores da oposição de esquerda na Câmara Municipal de Lisboa vão caindo que nem tordos.

E se Sá Fernandes ainda conseguiu sacar um pelouro, Helena Roseta não obteve mais do que dois projectos.

A cidade está particularmente empolgada com uma coisa de nome “Lisboa, encruzilhada de mundos”, que visa “colocar a capital na vanguarda da implementação de políticas intermunicipais de cooperação e desenvolvimento”. Seja lá o que isso for. Ou, segundo outras fontes, promover o “desenvolvimento do diálogo intercultural”.

Agora que há dinheiro para gastar em palhaçada, já estou a ver o Terreiro do Paço repleto de animadores culturais e malabaristas a cuspir fogo. Com muito reggae, kuduro e cheiro a erva.

Assim como assim, nada pode ser pior do que um desastre chamado Carmona.

João Castanheira

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O plebiscito

O MPLA parece ter obtido 82% dos votos nas eleições legislativas angolanas.

É um bom resultado, que se bate, sem complexos, com os 88% conseguidos em 1969 por Marcello Caetano.

Mas as verdades têm que ser ditas: o resultado do MPLA fica aquém dos 96% alcançados pela família Castro em Cuba ou dos 100% que Kim Jong Il costuma sacar nas eleições da Coreia do Norte.

O facto, inesperado, da oposição ter conseguido alguns votos, convida a um exercício de autocrítica.

Ainda assim, para evitar qualquer leitura distorcida da realidade, aqui ficam os títulos de algumas das muito diversificadas notícias difundidas pela ANGOP, a agência noticiosa oficial do MPLA, perdão, de Angola.

“UNITA sem razões coesas para impugnar eleições”
“Constitucionalista considera inexistentes razões para impugnar”
“Cardeal descarta razões para impugnar eleições”
“Líder religioso considera eleições exemplares”
“Parlamentar cabo-verdiano considera eleições livres”
“IASED considera eleições livres, justas e transparentes”
“Governo Luso saúda Angola pelo civismo nas eleições”.

João Castanheira

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Ainda a Polónia

Aqui ficam mais alguns lugares encantados de um país fabuloso.


Zamosc, cidade Património Mundial da Humanidade

Wroclaw, capital da Baixa Silésia

João Castanheira

Alternância democrática? Isso é coisa de colonialistas...


A respeito do processo eleitoral angolano, aqui ficam duas frases lapidares do José Manuel Fernandes, retiradas do editorial de hoje do jornal Público.

É por estas (verdades) e por outras que o Público foi proibido de entrar em Angola.

“Não é por acaso que se considera que uma democracia aberta e liberal é o regime em que os cidadãos podem despedir os seus governantes de forma pacífica, algo que nunca ocorreu em Angola... É que só nessa altura se vê se esta é genuína ou se corresponde a uma fachada para descansar as consciências ocidentais, só nessa altura se sabe se os países são capazes de trocar de governo sem sobressaltos (como em Cabo Verde) ou se a democracia entra em crise quando o poder instalado se sente ameaçado (como no Zimbabwe)”.

“Todos os que olham para as riquezas de Angola e sempre fecharam os olhos às comissões que se pagam aos políticos angolanos estarão por certo na primeira linha dos que proclamaram estas eleições como livres e justas”.

João Castanheira

Cautelas e caldos de Galinha

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Ontem, penso que na inauguração da primeira farmácia hospitalar portuguesa, o Sr. Primeiro Ministro anunciou que brevemente estará disponível a venda em unidose de medicamentos. Uma boa notícia e um avanço considerável face à irracionalidade da venda actual. 

Contudo, e na mesma comunicação, tivemos, para além do climax com que nos presenteou o Sr. Primeiro Ministro, o anticlimax da Sra. Ministra da Saúde que nos fez baixar à terra e explicou que esta medida está a ser tomada com enormíssimas cautelas e apenas a título experimental. Diria eu, não vá o diabo tecê-las.

Mas na verdade e pensando bem nisto, o que raio poderá o diabo tecer nesta medida que obrigue a tantas cautelas? Não é absolutamente do domínio do bom-senso que quando um médico prescreve ao seu paciente medicação o faça na dose exacta que este necessita para debelar o seu mal? Faz sentido continuar a comprar caixas cheias de pequenos comprimidos para depois tomarmos apenas uma parte e deixarmos o resto lá no armário da farmácia de casa? Seria normal que quando fôssemos comprar um artigo qualquer nos víssemos obrigados a comprar o caixote por inteiro em vez de comprarmos apenas aquilo de que necessitamos?

De facto há cautelas estranhas, isto porque noutros países, onde a unidose é prática habitual, tais cautelas há muito foram ultrapassadas, a bem do consumidor/paciente e a bem das finanças do estado que subsidia o doente. Mas pronto, cá na West Coast estas coisas requerem muito estudo, ponderação, reflexão, introspecção e sobretudo, pedido de autorização àqueles que beneficiam largamente com estas práticas. Esses, como diria o Octávio, vocês sabem quem são e do que estou a falar.

Luís Isidro Guarita  

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Para Viana, rapidamente e em força!


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Há edifícios que me fazem levantar do sofá...
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É o caso do Hotel Áxis Viana, projectado pelo Arq. Jorge Albuquerque. Ou a nova Biblioteca Municipal de Viana, um projecto de Álvaro Siza.
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Duas obras-primas que convidam a visitar a capital do Alto Minho.
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João Castanheira

Esperança


Por estes dias, o mundo tem os olhos postos em Angola.

Há hoje, como havia em 1992, uma enorme esperança de que as eleições representem o salto definitivo rumo ao futuro.

Eu partilho dessa esperança, porque acredito que entre os despojos da guerra e os tentáculos da corrupção, há em Angola uma sociedade civil que emerge.

Partilho dessa esperança, porque acredito na força regeneradora das novas gerações, que depois de experimentarem a paz, querem agora partilhar a prosperidade que anda por ali à espreita.

É certo que há 16 anos as coisas acabaram mal.

É certo que se a vitória do MPLA não estivesse garantida, jamais teriam sido marcadas eleições.

É certo que não pode esperar-se que sejam os corruptos a pôr fim à corrupção.

É certo que os sinais que chegam de Luanda são inquietantes – os principais órgãos de informação portugueses foram proibidos de entrar em Angola para acompanhar o processo eleitoral

Mas apesar de tudo, quero acreditar no futuro de Angola.

João Castanheira

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Sabonetes à venda...

Por detrás do brilho esplendoroso da imagem mediática. Por detrás do apelo sedutor da retórica discursiva. Por detrás do fascínio reconfortante do multiculturalismo finalmente chegado à política há Obama e um enorme deserto de ideias.

Para além do eu – tipo aqui estou eu tão belo para vos governar, pouco sobra do candidato democrata que, na essência do que tem dito, mais parece uma nova espécie política de Maria vai com todas, onde o vai significa a adesão imediata ao que for politicamente correcto no momento e o todos, todos aqueles que nesse instante mediático sirvam os interesses políticos em causa. Em Portugal temos há 3 anos a versão não étnica desta súmula da moderna esquerda. Chama-se José Sócrates e deu no que deu.

Na verdade e para além do brilho ofuscante do sabonete que nos é vendido, Barack Obama não é mais que isso mesmo. Um produto dos tempos. Um político expresso à medida da necessidade de salvação in-extremis que a esquerda vinha pedindo. Este é o tipo de político/ícone que se enquadra perfeitamente na velocidade consumista das sociedades actuais, onde 15 minutos de fama valem muito mais que 15 anos de preparação intelectual e política.

A esquerda, com Obama, atingiu o seu zénite. Do grande gigantismo ideológico com que quase nos soterrou nos séculos XIX e XX, ao anão político de ideias a que chegou nestes primórdios do século XIX, bastou um muro cair.

Obama é por isso, na imagem, mas sobretudo no conteúdo, a síntese perfeita de uma certa forme de vivre à la gauche. Um eu desmesurado, bonito por fora mas oco por dentro.

Luís Isidro Guarita 

Os “mauzões” que por aí andam!


Há dias, nas páginas do Público, Francis Fukuyama escrevia que apesar de por aí haver muitos “mauzões” que abominando a democracia e as sociedades capitalistas e liberais se delas servem para jogar o seu jogo autoritário a realidade é que estes autocratas pós-modernos revelam, por comparação com os seus antecessores, uma debilidade ideológica que os coloca vários patamares abaixo na perigosidade que potencialmente representam para as democracias.

Na verdade e apesar de as fontes do mal de hoje, com excepção das que bebem no radicalismo medieval islâmico, pouco ou nada terem que ver com aquelas que se serviram de ideologias criminosas como o nazismo e o comunismo estalinista, há por muitos cantos desse globo muitos lobos travestidos de cordeiros.

Espécies como a que deu origem aos Chávez deste mundo encontram nas águas tranquilas das democracias triunfantes o ambiente ideal para fazerem medrar a sua mal disfarçada intolerância e declarada arrogância, servindo-se desses mares para construir, na ilusão do jogo democrático, as mais perversas e perigosas ameaças à democracia liberal.

Houve, de facto, ideologias que morreram. Há, no entanto, um mal que perdura.

Luís Isidro Guarita 

Uma viagem pelo maravilhoso que ainda há em nós

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Apanhar o comboio na Covilhã às seis da tarde de um dia de Verão a caminho de Lisboa é passar 4 horas a viajar pelo maravilhoso que ainda há em Portugal.

Quando, entre o último quartel do século XIX e o primeiro do século XX, se construíram algumas das mais belas linhas de caminho de ferro em Portugal, aproveitando, em muitos casos, as “estradas” deixadas pelo rios, construiu-se um património único que faz com que uma simples viagem de comboio se transforme num prazer indescritível.

Ao sair da Covilhã e após contornarmos a Serra da Gardunha, com as suas cerejeiras do outro lado da janela, avançamos ao longo da Beira Baixa a caminho das águas do Tejo que nos surgem, após a estação de Ródão, enquadradas numa beleza inigualável por dois gigantes de rocha que dão pelo nome de Portas de Vila Velha de Ródão. Apesar de já há alguns quilómetros o Tejo ter chegado a terras portuguesas é ali, naquele pedaço assombroso de natureza, que nos entra portas a dentro e se espraia a caminho da planície ribatejana até encontrar Lisboa e o mundo.

A partir dali é uma paisagem de cortar a respiração que nos vai passando pela janela, desde as encostas abruptas ao rio que corre manso até à primeira barragem, a do Fratel, são quilómetros de natureza que nos enchem os sentidos. Depois do Fratel, o rio estreita e torna-se, por alguns momentos, torrencial. As águas, sob o olhar dos Grifos que por aqui ainda cruzam os céus, lá vão até que a mansidão anunciada de Belver lhes abraça os ímpetos para pouco depois as libertar a caminho de Abrantes para onde correm sob o olhar atento da central do Pego e se lançam, pouco depois, para essa ilha fantástica e altaneira, que qual farol do mundo, em Almourol, guarda o Tejo e guarda a nossa memória.

Daqui para a frente é a planície que se abre diante de nós, quilómetro a quilómetro, enquanto no fim do horizonte o Sol parte para ocidente e a noite se deixa cair sobre Lisboa.

Viajar de comboio é ainda um enorme prazer que aos poucos e pela estupidez dos homens neste rectângulo sobranceiro ao Atlântico se vai tornando uma miragem. Aproveitem e conheçam o maravilhoso que ainda vos pode entrar pela janela ao vosso lado antes que outra locomotiva algures descarrile e descarrile também toda esta inigualável herança que os nossos avós nos deixaram.

Luís Isidro Guarita

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Oskar Schindler


Como aqui escrevi há dias, Cracóvia é hoje uma das mais belas e luminosas cidades da Europa.

Quem visita a capital cultural da Polónia, não pode imaginar o que ali se passou durante a ocupação Nazi.

Depois de visitar a cidade, decidi ontem rever A Lista de Schindler, obra-prima de Spielberg, galardoada com sete Óscares da Academia em 1994.

O filme retrata, de forma brilhante, a perseguição aos judeus de Cracóvia, a construção do ghetto, a sua eliminação na noite de horror de 13 de Março de 1943 e a deportação dos sobreviventes para o campo de concentração de Plaszow, nos arredores da cidade.

A Lista de Schindler relata, sobretudo, a comovente história de um homem grande. Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro e Oskar Schindler salvou 1.100 pessoas.
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Na fotografia que ilustra este texto, Oskar Schindler surge entre alguns dos operários judeus que salvou do Holocausto.
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O portão da fábrica de Oskar Schindler permanece ainda hoje na Rua Lipowa, mesmo ao lado do antigo ghetto.
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João Castanheira

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Os complexos de esquerda estão a matar Portugal

Há uma pergunta que tantas vezes fazemos e para a qual temos dificuldade em encontrar resposta: se os portugueses conseguem afirmar-se em qualquer lugar do mundo, a que se deve afinal o nosso crónico insucesso enquanto país?

O problema, creio eu, é que depois de 40 anos de autoritarismo de direita, Portugal vive há mais 30 anos mergulhado em complexos de esquerda.

Veja-se o exemplo da educação.

Todos temos a noção de que a escola só funciona se existir uma cultura de exigência, mérito e rigor. É por isso que, podendo fazê-lo, todos os pais optam hoje por inscrever os seus filhos em boas escolas privadas, onde esses valores prevaleçam.

Mas a verdade é que, apesar desta evidência, os complexos de esquerda têm conduzido sucessivos governos a afundar a escola pública na anarquia e na mediocridade.

O facilitismo e o igualitarismo, marcas indeléveis da nossa esquerda, estão aos poucos a matar o ensino, produzindo gerações de portugueses impreparados para enfrentar os desafios do mundo actual.

Veja-se o exemplo da segurança.

Todos temos a noção de que o excesso de garantias conferido aos marginais colide com o interesse dos cidadãos e impede a sociedade de se defender convenientemente do crime.

Mas a verdade é que, apesar desta evidência, os complexos de esquerda têm levado sucessivos governos a amaciar as leis penais, mergulhando o país numa inquietante espiral de criminalidade.

A desculpabilização, marca indelével da nossa esquerda, está aos poucos a coarctar a liberdade dos cidadãos.

Veja-se, aliás, o que a própria esquerda diz sobre a sua incapacidade para lidar com os problemas de segurança. Assume hoje o Daniel Oliveira no seu blogue que a esquerda tem dificuldade em falar da criminalidade de rua, como os roubos e os assaltos. E justifica esta dificuldade, afirmando que a esquerda desconfia do Estado e desconfia ainda mais da polícia.
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É por isso que Bloco de Esquerda defende que os agentes da autoridade andem desarmados!

Os complexos de esquerda estão a matar Portugal.

João Castanheira

domingo, 31 de agosto de 2008

Nacionalizações

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Para quem ainda não reparou decorrem, mais de trinta anos após o 25 de Abril e mais de 20 após o início das reprivatizações, em simultâneo com algumas privatizações, a nacionalização de algumas das mais importantes empresas portuguesas. Será isto normal?

A curiosidade maior nesta estória é que o nacionalizador não é o Estado Português, mas outro Estado...

Volto a repetir, SERÁ ISTO NORMAL?

Luís Isidro Guarita

O terceiro mundo aqui ao lado

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O que se passou, há dias, na linha do Tua, é digno do mais arcaico e pobre país do terceiro mundo.

É absolutamente incrível que numa linha com 120 anos, sem registo de acidentes de monta nos primeiros 115 anos, tenha agora, que se anuncia o encerramento definitivo da linha para que se construa uma barragem na foz do Tua, nos últimos 5 anos, uma sucessão verdadeiramente delirante de acidentes, quase todos eles com mortos a lamentar. Há, de facto, coincidências estranhas!

O que é ainda mais estranho, é a ligeireza com que se vai falando de investimentos milionários para construir um TGV e se deixa, por esse país fora, o caminho de ferro definhar, ceifando vidas pelo caminho. Há nisto algo de esquizofrénico que não se compreende e dificilmente se aceita.

Na verdade, só mesmo nesta West Coast of Europe se compreende que num tempo em que se procura, por essa Europa fora, condicionar o transporte individual e rodoviário e incentivar o transporte colectivo e ferroviário, se deixe ao abandono linhas de caminho de ferro como a do Vouga - que cruza uma região de extremo dinamismo empresarial e elevada população -, se tenha encerrado as duas linhas que ligavam Viseu ao resto da rede ferroviária - trata-se tão somente da maior cidade europeia sem caminho de ferro -, se continue a demorar 3 horas para cruzar o Algarve em locomotivas inenarráveis, se mantenha em suspenso o investimento numa verdadeira modernização da linha do Oeste, se não faça uma ligação suburbana entre a gare do Oriente e a Malveira, passando por Loures, se não leve a electrificação da linha à Covilhã, à Guarda, a Évora e Beja e à Régua e, cereja em cima do bolo, se não aproveite o enorme potencial turístico da linha do Douro e, em particular, da sua reactivação entre o Pocinho e Barca de Alva.

De facto e perante isto só nos pode parecer normal aquilo que aconteceu no Tua. Ao olharmos a brutalidade de certos acontecimentos num país que renega o caminho de ferro e deixa portugueses morrer devido à incúria com que trata esse património, só nos resta mesmo aceitar que talvez a sorte dos néscios nos bafeje eternamente e nos impeça de sucumbirmos perante a interminável estupidez de quem nos governa.

Não se trata pois do acidente em si, trata-se da atitude perante as coisas. É aí, nessa intersecção da realidade, que nos afundamos...

Luís Isidro Guarita

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Um país a saque


O objectivo da criminosa reforma das leis penais, levada a cabo o ano passado por acordo entre o PS e o PSD, foi apenas um: esvaziar as prisões.

O resultado está à vista de todos. O país mergulhou numa onda de crimes violentos sem precedentes. Bancos, bombas de gasolina, estações de correios, tribunais, restaurantes, ourivesarias, carros e pessoas estão a saque.

Os marginais são repetidamente apanhados a cometer os mesmos crimes e logo postos em liberdade.

Com a sensatez e a oportunidade a que nos vem habituando, o Procurador-Geral da República disse ontem aquilo que o país inteiro anda há muito tempo a dizer: “o hiper garantismo concedido aos arguidos colide com o direito das vítimas, com o prestígio das instituições e dificulta e impede muitas vezes o combate eficaz à criminalidade”, acrescentando esperar “que o legislador proceda aos ajustamentos legais que se mostrem necessários”.

Logo veio a terreiro o Ministro da Justiça, Alberto Costa, recusando qualquer alteração às leis penais.

Há aqui qualquer coisa que não se entende. Aquilo a que estamos a assistir é uma autêntica operação de desmantelamento da autoridade do Estado.

Até quando vai o país tolerar a incompetência e a irresponsabilidade deste governo em matéria de segurança e justiça?

É preciso pôr fim a esta bandalheira.

João Castanheira

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Onde pára a polícia?

Ontem decidi fazer um passeio em família pela baixa de Lisboa.

Estacionei o carro na Praça do Município e fui até à Praça do Comércio, onde me misturei com os turistas, numa feira de rua mixuruca que a câmara ali instalou. Ao lado há uns esboços de esplanadas, com cadeiras de plástico, como se fossem buteques de caracóis em Pirescouxe.

Depois, subi a Rua Augusta, dei a volta ao Rossio, meti pela Rua do Carmo, virei para a Rua Garret e sentei-me a comer um gelado numa esplanada perto do Camões.

Dei mais umas voltas pelo Chiado, fui até à Rua Ivens, desci a Rua Nova do Almada e dirige-me de novo à Praça do Comércio.

Em todo este trajecto pelo coração de Lisboa não encontrei um único polícia. Pelo contrário, ao longo do percurso fui abordado por diversos vendedores de óculos contrafeitos, artigos em “ouro” e “chamon”. Eu e muitos dos lisboetas e turistas que dedicaram a tarde de domingo a passear por Lisboa.

Antes de entrar para o carro passei junto à esquadra da PSP da Rua do Arsenal e dei de caras com uma cena verdadeiramente surreal: à porta estavam dois seguranças privados!

Mas afinal onde é que pára a polícia?

Passei a semana anterior em diversas cidades da Polónia e em todas elas se respira um ambiente de segurança e tranquilidade, com agentes da autoridade nos locais turísticos, nas estações de comboio e em todos os pontos estratégicos. E não se vê por lá um décimo da fauna que por aqui vagabundeia.

Então e os nossos polícias, por onde andam?

Estarão fechados nas esquadras, estarão a passar multas de trânsito, estarão em casa a descansar? Ou talvez, quem sabe, estejam a fazer uns gratificados nos campos de futebol.

Ou isto muda ou, em breve, os passeios por Lisboa não passarão de uma vaga memória.

João Castanheira

domingo, 24 de agosto de 2008

Cracóvia


Cracóvia, capital cultural da Polónia e cidade Património Mundial da Humanidade, é um enorme museu vivo.

Por estes dias, o mundo inteiro parece confluir na cidade, transformando-a numa Babel de culturas e línguas, um mar de gente que se espalha por ruas agitadas e praças coloridas.

E Cracóvia recebe o mundo de braços abertos, surpreendendo os visitantes com a cara lavada e com uma animação que parece não ter fim.

Mais do que em qualquer outro lugar, o coração de Cracóvia bate na Rynek Glówny, sem dúvida uma das mais belas praças do mundo, onde se exibem músicos inspirados e geniais artistas de rua, pontuados pelo bater dos cascos dos cavalos.


Custa ter que dizer adeus a uma cidade assim.

João Castanheira

Zaragoza, Expo 2008





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Em Zaragoza, através da Água, a Espanha celebra o seu orgulho...

Luís Isidro Guarita

sábado, 23 de agosto de 2008

Viagem ao Inferno



Nenhuma palavra é suficiente para descrever a monstruosidade dos crimes cometidos pela Alemanha Nazi.

Esta semana, visitei os campos de extermínio de Auschwitz e Birkenau, na Polónia, e dei de caras com a face mais negra e brutal da humanidade.

Percorrer as câmaras de gás, os fornos crematórios ou os subterrâneos do bloco 11 de Auschwitz – o pavilhão da morte – é descer ao inferno e enfrentar os demónios mais sombrios.


Ali, tudo cheira a tortura, a morte e a um sofrimento sem fim: a forca móvel, a sala onde foram ensaiadas as primeiras experiências de extermínio em massa com gás zyklon B, os esconsos sufocantes onde os prisioneiros eram esquecidos até morrerem de sede, fome ou falta de ar...

Está lá tudo. Das celas parecem desprender-se gritos lancinantes de terror e pelos corredores circulam ainda os fantasmas dos carrascos, tomados por um ódio sem limites.

No bloco ao lado, os prisioneiros eram submetidos às mais macabras e criminosas “experiências médicas” e no pátio entre estes dois blocos ficava a parede de execuções, onde muitos milhares de homens e mulheres foram sumariamente fuzilados.

Os requintes de sadismo e malvadez do regime de Adolf Hitler, patentes em todo o campo, ultrapassam o imaginável, mesmo para as mais pérfidas mentes humanas.

Entre 1939 e 1945, o campo de Auschwitz foi um verdadeiro matadouro humano, mas na sua imparável loucura rumo ao abismo, os nazis queriam mais. O objectivo era concluir rapidamente a chamada “solução final para o problema judeu”, assassinando cerca de 11 milhões de pessoas.
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Por isso, em 1941 construíram o campo de Auschwitz II (Birkenau), uma gigantesca fábrica de matar, onde chegaram a viver como animais perto de 100.000 pessoas.


Os prisioneiros eram transportados durante vários dias em vagões para gado, sucumbindo muitos deles durante a viagem.


À chegada, aqueles que eram considerados aptos para o trabalho escravo nas fábricas do regime eram encaminhados para o campo. A maioria, porém, seguia directamente para o extermínio nas câmaras de gás, neles se incluindo as crianças, os velhos, os doentes e as mulheres grávidas.

Nesta orgia de tortura e morte, só em Auschwitz e Birkenau foram assassinadas cerca de um milhão e meio de pessoas. Sobretudo judeus e seus descendentes, mas também ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová e adversários políticos.

A Polónia tem feito um admirável trabalho de preservação da nossa memória colectiva, mantendo de forma irrepreensível, entre outros lugares de horror, os campos de Auschwitz e Birkenau, que desde 1979 são considerados Património Mundial da Humanidade.
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O mundo jamais poderá esquecer o que ali se passou.

João Castanheira

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Um país lixado

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O Prof. Vital Moreira tem sido, para os autores deste blog, uma espécie de fonte de inspiração. Habitualmente o que ele escreve representa o contrário de tudo aquilo em que acreditamos, no entanto e no caso que levou ao presente post, não. O artigo que o Prof. escreveu na edição do Público desta última terça feira é uma síntese lapidar do país lixado que temos.

De facto, a falta de educação cívica e o inenarrável desrespeito que muitos dos nossos compatriotas têm pelo que é de todos nós, são inigualáveis. Em Portugal, o estranho hábito de sujar, emporcalhar, ocupar clandestinamente e destruir tudo o que é público, é uma prática arreigada e uma forma de vida que se colou ao ser português e que aos poucos vai destruindo e descaracterizando tudo o que de excepcional e belo ainda existe no nosso país.

Assim, e se há reforma que interessa impor essa é a reforma das mentalidades e da educação cívica, a bem do pouco que resta. O outro Portugal merece!

Luís Isidro Guarita

Força Naide!

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Temos, por hábito, justificar a nossa falta de trabalho e empenho com a proverbial e muito portuguesinha falta de sorte. No entanto e neste caso, a sorte teve de facto o seu papel!

Naide Gomes é, sem sombra de dúvida, uma atleta de excepção e um orgulho para todos aqueles que apreciam atletismo e que gostam de ver as cores nacionais vencer.

A Naide Gomes já o fez com as nossas cores por diversas vezes, desta vez não o conseguiu, sei, no entanto, que o tornará a conseguir e sei, sobretudo, que por tudo o que aquilo que já fez, merece, neste momento, o nosso maior elogio.

Força Naide!

Luís Isidro Guarita