segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Da Mina de São Domingos ao Pomarão

As ruínas do couto mineiro de São Domingos, no concelho de Mértola, são o cenário ideal para um filme de ficção científica. Terra vermelha, crateras, destroços, escórias, escorrências ácidas, lagoas coloridas, ferros retorcidos e um intenso odor a enxofre mergulham os visitantes numa experiência quase apocalíptica.

Não é possível descrever a força imensa que emana deste lugar singular. Um lugar simultaneamente belo e medonho, onde são escassos os sinais de vida. Pouco mais que umas ervas raquíticas e uns insectos de cores garridas. Creio que em nenhum outro recanto de Portugal a devastação e a catástrofe produziram algo de tão extraordinariamente belo.

Os primeiros testemunhos de actividade mineira na região de São Domingos remontam à época romana. Mas foi em 1857 que a exploração em larga escala arrancou, em resultado da concessão atribuída a uma sociedade de origem espanhola – a La Sabina – que no ano seguinte acabou por arrendar os direitos de prospecção aos ingleses da Mason & Barry.

Em poucos anos, São Domingos transformou-se num dos maiores complexos mineiros da Europa. Uma pequena cidade industrial, onde não faltava uma central eléctrica, um hospital, uma biblioteca, um teatro, um mercado e uma igreja.


Existiam ainda campos de jogos, aprazíveis açudes e, sobretudo, uma fantástica linha férrea, com dezoito quilómetros de extensão, que ligava a mina ao porto fluvial do Pomarão, a partir do qual o minério era escoado em grandes navios que então subiam o Guadiana.

Nos bairros operários situados em redor do complexo chegaram a viver quase dez mil pessoas. Os mineiros habitavam as célebres 4 x 4, casas térreas em banda com quatro por quatro metros quadrados, uma porta e uma janela.

Ao longo de mais de cem anos, os homens esventraram a terra em busca de cobre e enxofre. Primeiro em galerias subterrâneas, depois a céu aberto.

Com o aproximar do esgotamento do filão, a exploração terminou em 1965 e a Mason & Barry declarou falência três anos depois. Os salvados da mina foram então vendidos a um sucateiro alemão e o resto do valiosíssimo património industrial do complexo foi barbaramente saqueado durante os anos seguintes. Ficou apenas aquilo que os homens não conseguiram levar.

A visita à Mina de São Domingos começa, necessariamente, nas ruas estreitas dos bairros operários, cujas minúsculas casas foram entretanto vendidas aos antigos trabalhadores e às suas famílias. Com um pouco de sorte, é possível visitar a Casa do Mineiro, pequeno núcleo museológico que recria a vivência de uma família mineira, com os seus objectos e as suas memórias.

Descendo ao complexo mineiro, a atenção do visitante dirige-se para uma gigantesca cratera, completamente cheia de águas ácidas. É a corta, cavidade de onde foram retirados milhões de toneladas de minério.
.

Parece um tanto ou quanto irreal, mas a verdade é que até há alguns anos atrás as lagoas ácidas da mina, cujo pH se situa ente 2 e 3, eram procuradas por gente que aqui se banhava em busca de cura para alguns problemas de saúde!

Um pouco adiante, encontram-se as oficinas de material circulante, onde foi projectada e construída a locomotiva a vapor que durante décadas galgou os montes que separam São Domingos do porto fluvial do Pomarão, arrastando vagões carregados de minério.

Por ali se encontram também as ruínas da primeira central eléctrica do Alentejo e os destroços do poço n.º 6.

Seguindo ao longo do traçado da linha férrea, cujos carris e travessas foram há muito saqueados, vão surgindo sucessivas lagoas ácidas, cujas águas oscilam entre o vermelho vivo e o amarelo forte. Uma intensa profusão de cores, que confere uma riqueza cénica sem igual a esta fase inicial do percurso.

Cerca de dois quilómetros após o início do complexo, encontra-se a estação de britagem da Moitinha e, logo afrente, as antigas fábricas de enxofre e ácido sulfúrico da Achada do Gamo.



As ruínas destas instalações fabris oferecem, provavelmente, a mais célebre das imagens do complexo mineiro de São Domingos.
.

O cenário de devastação e abandono entende-se ao longo de mais de cinco quilómetros e constitui, sem margem para dúvidas, um dos mais fabulosos percursos de arqueologia industrial do país.

Após o fim do couto mineiro e seguindo sempre o traçado daquela que foi a segunda via-férrea construída em Portugal, a paisagem torna-se um pouco monótona e algo desinteressante. Felizmente, a viagem vai sendo animada por enormes famílias de porcos e bacorinhos pretos, que deambulam livremente pelos campos, observados ao longe pelos abutres que planam no céu.

A inclinação da ladeira que sobe em direcção à aldeia de Santana de Cambas, transporta-nos para o tempo em que as locomotivas puxavam vagarosa e esforçadamente os vagões carregados de minério.

Praticamente todas as pontes que existiam ao longo dos dezoito quilómetros da linha estão destruídas, obrigando os caminhantes a passar a vau os minúsculos cursos de água, o que é possível fazer sem grande dificuldade. Na verdade, durante o Verão não é sequer necessário molhar os pés.


Os últimos cinco quilómetros do caminho que conduz ao cais do Pomarão voltam a ganhar contornos de aventura! Há que atravessar uma sucessão de sete túneis, alguns dos quais razoavelmente extensos e repletos de morcegos.

Mais de quarenta anos após a passagem do último comboio, a natureza vai tomando conta de algumas partes do percurso. A vegetação e os desmoronamentos obrigam a pequenos desvios, mas a chegada ao Guadiana faz-se sem sobressaltos.

Por fim, o Pomarão. Uma deliciosa e pacata aldeia operária, erguida numa belíssima curva do Guadiana, na confluência com a ribeira do Chança. Quem hoje ali chega, tem dificuldade em imaginar a agitação e a vida de outrora, no tempo em que mais de quinhentos navios por ano recebiam o minério de São Domingos e o espalhavam pelo mundo. As ruínas do cais mineiro e a memória dos homens estão lá para testemunhar um passado difícil mas, indiscutivelmente, glorioso.


Depois de décadas de miséria e abandono, a Mina de São Domingos vai aos poucos acordando para uma nova vida. Na barragem da Tapada Grande, nasceu uma agradável praia fluvial. Mesmo em frente, o palácio dos ingleses – outrora sede da empresa mineira – foi transformado numa esplêndida estalagem onde apetece ficar. E, surpreendentemente, o investimento turístico chega pela mão da La Sabina!

Só é pena que o progresso anuncie para breve a construção de uma ponte internacional e uma grande estrada para o Pomarão. Um investimento que há-de dizimar o maior tesouro desta região: as águias, os grifos, os mochos, os veados, os saca-rabos e, sobretudo, a imensa paz...

João Castanheira

4 comentários:

Pedro Reis disse...

Fantástico!

Anadelapena disse...

Ana de La Peña

Há muito que estas Minas fazem parte do meu imaginário.
A caminho do Algarve, observei muitas vezesas a ruelas estreitas e sinuosas do bairro mineiro. Achei curiosas as casas que, alinhadas pareciam um imenso comboio branco.Hoje,após a leitura deste esclarecedor documentário, fiquei a saber que, cada uma não tinha mais que uns escassos 4X4 uma porta e uma janela. É dificil imaginar a vida dos mineiros, reduzida a tão limitadas dimensões, no que foi afinal um grande complexo industrial que contava até com hospital, igreja e mercado além de locais de lazer.
No meu ponto de vista, a ponte inaugurada há dias apresentava-se como uma mais valia que em muito iria favorecer as comunicações entre Portugal e Espanha e também aproximar as povoações de ambas as margens, com todos os respectivos benefícios.
Não imaginei que tal iria influir na fauna e flora de tão apetecível local.
Penso, em breve visitar S. Domingos, o seu Museu o que resta de tão imponente complexo industrial e,se possível uma casa típica da aldeia.
Obrigada pelo seu benéfico e interessante trabalho.

MAURICIO .DOMINGUES disse...

É IMPOSSIVEL HOJE FAZER A VIAGEM
QUE FIZ ENTRE A MINA DE S.DOMINGOS E O POMARÃO, NUM COMBOIO DE MINÉRIO,QUANDO O MEU PAI SE DESLO-
COU PARA VILA REAL DE STº ANTÓNIO,
HÁ MAIS DE 73 ANOS (1937), ONDE
TINHA SIDO COLOCADO.
UM VAGÃO ERA DISPONIBILIZADO PELA
EMPRESA PARA O TRANSPORTE DE PES-
SOAL QUE SE DESLOCAVA PARA O ALGAR-
VE, GRATUITAENTE, UMA VEZ QUE NÃO
HAVIA TRANSPORTES PÚBLICOS E SÓ DE
CARROÇA OU MUARES SE PODIAM DESLO-
CAR.
A ATRAVESIA DO GUADIANA, EM MÉR-
TOLA, ERA FEITA POR UMA JAGADA QUE
ERA APELIDADA DE "PONTE-BARCA" E
ERA MOVIDA POR TAMBORES ONDE DOIS
HOMENS ENROLAVAM OS CABOS DE AÇO
FIXADOS NAS MARGENS DO RIO.
PONTES NÃO HAVIA E ERA NESTA
JANGADA QUE CARROÇAS E PESSOAL SE
TRANSPORTAVA PARA ATRAVESSAR O RIO.
RECORDO-ME DE UMA PENOSA VIAGEM DE
CARROÇA ENTRE CORTE DO PINTO E MÉR-
TOLA, TINHA EU CERCA DE 7 ANITOS,
PARA VISITAR COM OS MEUS PAIS A
FEIRA DE S. MATEUS.
RECORDO-ME TAMBÉM DO INCÊNDIO
QUE DESTRUIU A IGREJA DA MINA, MAIS TARDE RECONTRUIDA PELA EMPRESA
MINEIRA, E SE APONTAVAM COMO AUTO-
RES DO CRIME ALGUNS COMUNISTAS QUE
TINHAM VINDO FUGIDOS DA GUERRA CI-
CIL ESPANHOLA,TENDO ANTES LANÇADO
NO RIO AS SUAS IMAGENS, QUE MAIS
TARDE FORAM FORAM RECOLHIDAS NO RIO
EM VªREAL DE STºANTÓNIO.
ASSISTI ALGUMAS VEZES À PROJECÇÃO
DE FILMES MUDOS NUM TERREIRO PRÓXI-
MO DO "PALÁCIO"DO ADMINISTRADOR DA
EMPRESA, UM CIDADÃO INGLÊS,QUE UMA
VEZ POR OUTRA BRINDAVA A POPULAÇÃO
DA MINA E ARREDORES COM ESTES FIL-
MES.
O "PAGO" DIA EM QUE ERAM SATIS-
FEITOS OS PAGAMENTOS,ERA APROVEITA-
DO PARA A POPULAÇÃO MNEIRA FAZER AS
SUAS COMPRAS NA CANTINA QUE EXISTIA
JUNTO DO PÔSTO DA GUARDA-FISCAL, O
QUE MOTIVAVA A DESLOCAÇÃO DE CENTE-
NAS DE PESSOAS DAS ALDEIAS VIZINHAS.
PRÁTICAMENTE ERA UM DIA DE FESTA!

ESTORIL, 6 DE DEZEMBRO DE 2010

MAURICIO SEVERO DOMINGUES

josé palma disse...

Gostei de ler.
As pessoas hoje, nao fazem uma pequena ideia, como era a vida nesse tempo.